XY

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Nascemos com o cromossomo XY e a partir disso, como homens, herdamos da sociedade uma série de características que não são apenas biológicas, mas representam uma faceta do que considera-se normativo em determinada época e cultura. Em grandes traços, o “masculino” é o principal beneficiado de uma cultura patriarcal que cultua o “macho” como fonte de força e inteligência, que goza de liberdades e benefícios em detrimento das mulheres. Muitas vezes respalda-se esse tipo de pensamento usando textos sagrados, tais como Bíblia e o Alcorão, usando de uma sórdida interpretação literalista com uma intencionalidade muito clara: Fazer do macho o todo-poderoso, o centro de tudo.

Criou-se um mito do que é seria “a masculinidade”. Na Grécia antiga, por exemplo, os heróis gregos apresentados na constituição do masculino referem-se aos mitos de Aquiles, Ulisses, Hercules, Teseu, dentre outros, cujos atributos que os identificam são a força, o poder, a coragem, a astúcia e a inteligência, excluindo-se o medo, a inveja e a raiva. O “endeusamento” do masculino nesse ideal de perfeição afasta-o de uma “humanidade saudável”.

Os homens alegam sentir-se perdidos porque não sabem mais ser homens, já que o modus operandi natural da macheza teria sido proibido pelo politicamente correto. Será? Penso que o dilema é bem mais profundo. Precisamos nos dar conta de a “masculinidade” não foi destronada pela pós-modernidade fluida; tampouco pelos avanços obtidos graças às lutas feministas são culpados por essa crise de identidade.

A chamada masculinidade tóxica é aquela que não suporta se olhar no espelho e ver-se diferente dos seus ideais. Nessa perspectiva, o machismo estrutural e a misoginia vão ser consequência do processo de transformar o mito em realidade. É desse pensamento tóxico que surge a ideia de que para ser homem é preciso ser assertivo no trabalho, ter a última palavra sobre as coisas, ser forte, ter boa performance sexual.

A crise da masculinidade é alimentar esse ideal de identidade viril que nunca existiu de fato. O masculino na atualidade é, portanto, um gênero atrás de si mesmo, à medida que tantos mitos caem por terra.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.