Voyeur

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Não é novidade meu fascínio e quase idolatria em relação à Gay Talese.

Provável que, não fosse por ele eu estivesse fazendo outra coisa qualquer da vida e, sequer tivesse me dado o prazer de assistir ao documentário “Voyeur”, disponível na Netflix e tema da coluna dessa semana.

Antes, replico abaixo, os dois primeiros parágrafos de outra publicação minha para o blog e que pode ser lida na íntegra AQUI

“Nos tempos de faculdade, meu sonho era escrever como Gay Talese, nada mais, do que o pai do que se convencionou chamar de jornalismo literário. À época, a junção entre jornalismo e literatura soava como um oásis onde eu poderia repousar meu ascendente talento. Sendo o mais sincero que se pode ser: nunca sequer cogitei atuar em TV ou rádio.

A escrita sempre foi minha única opção e o gênero que apostava na narrativa de fatos da vida real com elementos da ficção parecia-me perfeito, embora parido num período em que as redações usavam máquinas de escrever e havia-se tempo e inúmeras publicações que investiam fortunas na produção de grandes reportagens, que duravam duas ou três semanas, quando não um mês ou mais”.

Feito o registro, vamos a “Voyeur”, documentário que retrata os bastidores do lançamento do mais recente — e talvez mais criticado — livro de Gay Talese nos Estados Unidos.

O livro e o filme têm como pano de fundo a incomum história de um homem chamado Gerald Foos, que nos idos da década de 1960 comprou um motel com o propósito de observar a vida sexual de seus hóspedes. A partir de uma “plataforma de observação” construída sob o telhado, Foos espionava o que ocorria nos quartos do seu estabelecimento.

 

Talese soube das espiadas de Foos em meados 1980, por meio de uma carta enviada pelo segundo. Ao longo daquela década o voyeur enviou relatos detalhados para o repórter, todos guardados com esmero por mais de trinta anos e que contribuíram para a construção do livro.

Embora seja condenável sob o prisma moral a história é fascinante e grosso modo, não poderia haver alguém mais indicado para escrevê-la que Talese. A propósito, o filme presta, de certa forma, tributo ao seu legado, reconstruindo ainda que brevemente sua rica trajetória por meio de menções à best sellers como A mulher do próximo e Honra teu pai, além da clássica entrevista não realizada com Frank Sinatra.

No entanto, o documentário não é ou não deveria ser sobre Talese e sim, sobre Foos e sua perturbadora “história” de observação sobre a vida privada dos seus hóspedes. Só que as brechas deixadas por Talese se sobressaem, transformando-o, em alguns momentos, num personagem caricato, bem distante do monstro sagrado que ele próprio se revelou desde sempre. E ambos, Talese e Foos misturam-se no decorrer do filme, ora como amigos, ora como inimigos, as vezes, parecendo dois velhos tolos brigando para ver quem aparece mais diante das câmeras. Confesso que em dado momento cogitei a hipótese de o filme não passar de uma gigantesca armação.

Que fique claro, não é.

Gay Talese não perdeu sua cadeira cativa no meu coração, tampouco Fama e Anonimato perderá posições no ranking dos meus livros preferidos em todos os tempos. “Voyeur” é um filme para ser visto, tanto por estudantes e entusiastas do jornalismo e da comunicação, quanto pelo público em geral, pois trata de um tema que merece reflexão, isso, independente das falhas descobertas a posteriori.

Mais: “Voyeur” é um filme sobre erro e fracasso, sobre ética e acima de tudo sobre o quão falhos, podemos ser, todos nós, seres humanos.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme – de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente.
Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.