Uma coisa chamada exilado

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“E assim foi o ano de 1970: o Brasil virou tricampeão mundial e mesmo sem querer e nem entender direito, eu acabei virando uma coisa chamada exilado. Eu acho que exilado quer dizer ter um pai tão atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa.”

Essa é a última fala de Mauro, personagem principal do filme “O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias”, dirigido por Cao Hamburger e lançado em 2007. O filme se passa na época do regime militar e conta a história de um menino apaixonado por futebol que é levado para a casa do avô em São Paulo, enquanto seus pais “saem de férias” por tempo indeterminado. Boa parte do filme mostra o choque de realidade de Mauro que tenta, aos poucos, aceitar e seguir em frente com a sua nova vida, se adaptando à nova cidade e às pessoas que passam a fazer parte de seu cotidiano, ao mesmo tempo em que busca respostas para o paradeiro de seus pais.

46 anos antes (e no mundo real), um artista brasileiro, que se encontrava praticamente na mesma situação do garoto Mauro, lançava o seu trabalho de maior destaque. “Transa”, de Caetano Veloso, tornou-se um marco na história da música nacional, atravessando barreiras tanto de idiomas quanto de musicalidade, expondo uma pessoa que sofria para buscar a sua identidade, ao mesmo tempo em que aceitava a sua condição de isolamento em relação à sua terra natal.

O “Caetano Exilado” já havia lançado um belo álbum autointitulado em 1971, marcado, principalmente, por canções calmas e melancólicas, que apontavam claramente para as feridas deixadas pela saudade do Brasil. Um ano depois, em “Transa”, o artista já estava mais maduro e, segundo o próprio, já começava a gostar de Londres e descobrir o que de melhor a capital inglesa poderia oferecer. Em seus passeios por Portobello Road, por exemplo, conheceu o reggae jamaicano e dessa experiência saiu a canção “Nine Out of Ten”, considerada a “entrada oficial” do reggae na música popular brasileira.

“I’m alive, vivo, muito vivo, vivo, vivo,
Feel the sound of music banging in my belly, belly, belly.

Know that one day I must die,
I’m alive.”

Gravado praticamente ao vivo e com apenas 7 faixas, o álbum traz uma forte mistura de idiomas e ritmos, indo do baião ao rock ‘n’ roll clássico, da poesia barroca brasileira ao inglês com sotaque nordestino, sem perder a elegância e a sutileza.

Prova maior disso é “Triste Bahia”, canção mais longa do disco. Caetano a inicia declamando versos do poeta Gregório de Matos, acompanhado por um dedilhado de violão “à la bossa nova” e, ao fundo, a percussão vai se incorporando até tomar conta de vez da canção, em uma crescente alucinante ao torno dos 9 minutos de duração. O casamento quase perfeito entre a música brasileira com ritmos africanos.

“Triste Bahia, oh, quão dessemelhante!
A ti tocou-te a máquina mercante.
Quem tua larga barra tem entrado,
A mim vem me trocando e tem trocado.
Tanto negócio e tanto negociante…”

 

Outras canções também se destacam no decorrer do trabalho, como a bela “Mora Na Filosofia” e a bilíngüe “It’s A Long Way”, ambas com arranjos muito bem estruturados que conseguem transitar facilmente entre a cultura pop e o experimentalismo natural das obras de Caetano Veloso.

“Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vai mulher,
A quantos você pertencia.
Não vou me preocupar em ver,
Seu caso não é de ver pra crer.
Ta na cara!”

 “Arrenego de quem diz

Que o nosso amor se acabou.

Ele agora está mais firme

Do que quando começou.” 

 Em entrevista ao portal “Gaúcha ZH”, Caetano afirma que havia a possibilidade de sua carreira decolar na terra da rainha, mas que não pensou duas vezes em voltar ao Brasil no instante em que teve a chance. O que parecia uma loucura, acabou tornando-se uma decisão acertada e toda a história dos bastidores só engrandece ainda mais a importância de “Transa” em sua vida.

Guilherme, 1993, Minas Gerais. Nem crítico e nem jornalista, apenas apreciador. Como diria o Rob do Alta Fidelidade: 'Livros, discos, filmes - essas coisas importam. Me chame de superficial, mas é a verdade.