Um dia

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Acho que foi o Sandro o principal responsável pela minha vontade de ser narrador esportivo.

 

A propósito, esse foi o meu maior sonho até doze, treze anos. Ser o Luciano do Valle. Bons tempos. O Sandro me ensinou que qualquer lugar pode ser um campo de futebol. Ele morava numa rua em aclive e sem asfalto, com um palmo ou dois de grama no trilho que ia até a garagem. Para nós era mais que suficiente. Lá descobri que o Hugo Sanchez era o cara da seleção do México de 1986 (tudo por causa das figurinhas que vinham nos chicles Ping Pong) e vi o Bragantino ser vice-campeão brasileiro.

 

Como fala mesmo? Nostalgia.

 

É.

 

Nostalgia.

 

Às vezes éramos proibidos de jogar bola lá, na casa do Sandro.

 

Naquele palmo ou dois de grama que dava na garagem.

 

A menos de quinhentos metros — na avenida que dava acesso à cidade — tinha uma loja de máquinas agrícolas que ficavam espalhadas num gramado enorme. Por muito tempo aquele foi um estádio perfeito, com adversários (marcadores aguerridos) e uma goleira com rede — no caso, a cerca que divisava a lateral do terreno. Só que o Sandro era uns cinco anos mais velho e quando chegou à adolescência perdeu o interesse nos nossos fins de semana de jogadas mirabolantes, chutaços de fora da área, defesas acrobáticas, cruzamentos na cabeça do artilheiro.

 

Sem o Sandro, dividi-me entre o futebol de botão e uma brincadeira que um primo me ensinou e que, em pouco tempo, traduziu-se como perfeito para minhas jornadas épicas como narrador, repórter/jogador (eu fazia ambos no intervalo e ao final das minhas partidas) e comentarista.

 

Criei um mundo paralelo: clubes, escudos, uniformes e campeonatos.

 

Às vezes, tomo uma térmica de mate e assisto os moleques da rua jogando bola no campinho aqui da frente. Um deles volta e meia aparece com uma camisa do Paris Saint Germain, Bayer de Munique ou Barcelona. Na minha época eu só tive meião e as camisas do uniforme da firma que o pai ou o pai do colega de classe trabalhava.

 

Nem precisa perguntar, deve querer ser jogador, fazer fortuna na Europa, essas coisas que a tevê por assinatura — às vezes, nem isso — ensina por tabela. Se eu tivesse onze, doze anos hoje em dia, iria querer a mesmíssima coisa. Na idade dessa molecada eu queria ser o Luciano do Valle, então, vale qualquer tipo de sonho. Até os impossíveis.

 

Nunca mais vi o Sandro.

 

Aposto que os moleques da rua passam mais tempo jogando futebol no vídeo game que no campinho.

 

Minha maior lembrança envolvendo futebol e vídeo game são as duas Copas que joguei na casa dos gêmeos e que até hoje não sei como consegui ganhar. Sério, eu era muito ruim.

Minha única estratégia era a retranca, o chutão e a sorte. Nessa época nem sei se ainda havia um sonho de ser narrador esportivo.

 Não tivemos uma terceira edição do nosso torneio adolescente de Fifa Soccer no Mega Drive porque a vó dos gêmeos, cansada da nossa falta do que fazer, decidiu pôr fim à boa vida que levávamos e nos expurgou quase à vassouradas da casa deles. Metade da gurizada pulou a janela e só foi parar dois quarteirões abaixo evitando olhar para trás. Até hoje se fechar os olhos e mentalizar um pouco dá para ouvir os gritos da vó dos gêmeos.

 

 Vi que lançaram uma edição comemorativa da camiseta do Allejo. O Allejo, por um tempo, foi mais ídolo que Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo.

 

  Sei lá, é como disse lá em cima.

 

  Nostalgia.

 

 Um dia esses moleques vão lembrar do campinho aqui da frente e das inúmeras vezes que a bola foi chutada por cima da cerca e eles tiveram de pedir para o guardinha abrir o portão.

 

 Um dia puseram uma cerca na frente da loja de máquinas agrícolas e eu e o Sandro nunca mais pudemos fazer do trator o volante do time adversário, ou a escavadeira o quarto zagueiro que funga no cangote do atacante (só pra esclarecer, nós).

 

 Um dia a vó dos gêmeos apareceu.

 

 Um dia ser narrador foi mais divertido que jogar futebol.

 

 Um dia o que parece que vai durar pra sempre, acaba.

 

P.S.: Um leitor fiel mandou avisar que o jogador virtual da imagem que Allejo pertencia a um jogo chamado International Super Soccer, do Super Nes. O jogador do Fifa Soccer era, na verdade, Janco Tianno. Grosso modo e resumindo, toda essa confusão serve tão-somente para comprovar o óbvio: sempre fui um péssimo jogador de vídeo game.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.