Um dia chorar será inevitável

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Virou meme o menininho que não conteve as lágrimas ao responder as perguntas de uma repórter.

O pranto sincero do garoto viralizou.

Para se ter uma idéia, no Youtube o vídeo ultrapassou as oitocentos mil visualizações.

O episódio aconteceu nos Estados Unidos no primeiro dia de aula de uma turma do jardim de infância. O choro comovente do garotinho de quatro anos, deu-se após a repórter perguntar se ele estava feliz com o primeiro dia de aula e se ele sentiria falta da mãe.

Nada mais natural, portanto, que se derretesse, afinal, era o primeiro dia de aula e o menininho tinha míseros quatro anos.

Ninguém aos quatro anos precisa se conter, ou manter a pose, diante de uma pergunta tão traiçoeira.

A falta de alguém, normalmente, nos faz chorar, ainda mais quando é algo repentino, que não se espera, ou, ao qual não estamos nenhum pouco preparados.

Eu, por exemplo, ao menos três vezes por ano, reservo uns minutos para soluçar a saudade que sinto da minha mãe: março (na data da sua partida), maio (dia das mães) e julho (seu aniversário).

Não faz bem segurar o pranto quando ele é sincero.

Chorar as vezes é necessário.

Ontem, meu professor de inglês confessou em sala que havia passado a tarde toda chorando. Agradeceu por estarmos ajudando a tornar seu dia mesmo estressante. Nenhum ser humano é uma máquina desprovida de sentimento, seja aos quatro, aos dez, aos trinta ou aos oitenta. Chorar não é ou deveria ser motivo para vergonha. Aprendemos — erroneamente — a associar o choro apenas à fraqueza, à perda, à dor e etecetera. Ou pior, que chorar é um equívoco e é feio e deve ser evitado, como uma represa feita por velhas toras de madeira, que mesmo desgastadas, devem evitar a todo custo a passagem da mínima gota.

Eu mesmo não gosto de ver pessoas chorando e talvez por isso, sempre prefira o isolamento quando tenho vontade de chorar minhas pitangas. Nem sei se teria coragem de fazer o mesmo que meu professor de inglês e nem sequer sou capaz de imaginar como reagiria se fosse eu no lugar do garotinho.

Quem sabe um pouco mais de calor humano, de abraços, de sorrisos, de elogios espontâneos, evite que mais e mais represas cheguem ao seu limite e transbordarem.

Um dia você pode chorar o mais sincero dos prantos por saber que aquele será o primeiro dia que você passará longe da tua mãe, noutro, por ter cometido um erro, por não ter uma segunda chance, por ter sido displicente, ou, o contrário, por saber que aquele será o primeiro dia que você passará longe do filho.

Ainda não há remédio que cure a saudade ou a falta de algo ou alguém. Por isso é preciso ter em mente que um dia — mais cedo ou mais tarde — o choro é e será inevitável, esteja você onde estiver e com quem estiver.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.