Talvez eu só esteja ficando lelé da cuca

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Foi apavorante.

Segundos.

Minutos.

Talvez, nem um nem outro, mas a eternidade recortada num instante.

Pânico.

Após mais de ano e meio de completo ostracismo decidi voltar à sala de aula para estudar inglês. Tomei vergonha na cara e assumi que estava passando da hora de melhorar o pouco conhecimento que possuo do verbo to be e afins.

Curso intensivo de verão, segunda à quinta, dezenove às dez. Pode estar aí a resposta para o que tem me afligido.

Segunda aula, terça a noite, discussão sobre a influência das redes sociais nas nossas vidas, resolvo levantar o indicador para opinar.

Começo bem, demonstrando fluidez e até certa afinidade com a língua estrangeira, porém, de repente, como se alguém sádico tivesse jogado um balde de leite fresco na minha frente, vi tudo embaçado, branco completo.

Gaguejei e, entre buscar na memória palavras em inglês que pudessem me socorrer, comecei a suar, tartamudeei mais e mais, como se tivesse perdido a noção de tudo, onde estava, o que estou fazendo, quem sou eu, afinal?

Pedi desculpas e devolvi para o professor sem ter dito coisa com coisa. Antes tivesse feito cena para atravessar um the book is on the table pelo coração dos presentes.

Deu para sentir o constrangimento, sorrateiro, enfiando-se entre as unhas do mindinho.

Evitei olhadelas para os colegas, mas suspeito que orgias tenham ocorrido no consciente de cada um deles. A discussão continuou, num inglês sofrível de todas as partes, pensei em rir, gargalhar, quem sabe, abrir a janela e saltar para fora saltitante como um sapo, ou delirante como Fred Aster, dançando debaixo de uma chuva inexistente.

Nem um pio sobre meu lapso, minha tragédia particular.

Desfiz a cara de bobo, arrisquei um ou dois comentários mais e venci o horário da aula, arrastando-me até o carro e depois, enfim, rindo descontroladamente enquanto fazia o trajeto até casa.

Então:

Será o começo do fim?

Quem sabe, o apagão momentâneo um aviso para que providencie um cartão de identificação para pendurar no pescoço, caso a patetice se repita?

Ou — sim, há esperanças — estou apenas exagerando e capacidade e vontade tiveram seu primeiro embate pós retorno ao do you speak english, uma vez ainda precisar de muito treino e prática até ser, finalmente, possível condicionar o cérebro a pensar em outra língua?

Mas, talvez esteja apenas ficando lelé da cuca. E antes sofrer de apagões momentâneos por conta da minha inabilidade com uma língua estrangeira que passar vergonha — como milhares mundo a fora — defendendo retrocessos e parecendo mais habitantes da era da pedra lascada que do século vinte e um. Já pensou se o século, agora que chegou aos dezoito, assume-se gay?

 

 

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.