Soltem os leões!

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Que espécie mais estúpida a nossa, valha-me Deus.

Poderia ser assim, rangendo os dentes, fazendo pouco caso de um dos dez mandamentos, camuflando-se na multidão que não sabe o hino de cor, mas estufa o peito para falar em patriotismo.

Sei lá, poderia começar com um cuspe certeiro no olho do outro.

Poderia tantas coisas, que, no fundo, nenhuma faz realmente valer a pena.

Talvez, poderia compartilhar uma teoria, porque não, se todos podem ser e bancar os sabichões, porque não eu, oras!

Aqui vai:

O momento que vivemos é como uma volta às origens.

Esqueça aquela palavra bonitinha que virou mais do mesmo na boca de todo mundo, saudosismo.

Delete-a.

Não serve aqui. Não é sobre isso. É pior.

Refiro-me a um voltar às origens no pior dos sentidos.

Muito, mas muito lá atrás, quando falávamos uga uga e machos arrastavam fêmeas pelos cabelos, ou, quando sinônimo de entretenimento era assistir dois brucutus se espancarem até a morte, as vezes intermediados por um felino selvagem e faminto.

Imagine a volta de uma espiral, agora, pense na história da humanidade, é isso, retrocesso, o retorno à estaca zero, como se nunca tivéssemos nos afastados de quem realmente somos. Não, não se arranca o mal igual se tira carrapato de um cachorro.

O mal é como tatuagem feita em presídio que não sai nem com reza braba.

De nada vale insistir.

A falsa sensação de poder das redes sociais nos catapultaram para as trevas. Ai de quem não segue a boiada, mantém as aparências — não, não vou rabiscar a letra do Chitãozinho e Xororó — e vomita regras onde não é chamado, dono de si, de uma verdade forjada, onde não existe respeito às diferenças e o padrão a ser seguido mal se equilibra na superfície de todas as coisas.

Sim, voltamos.

À Idade Média,

À caça às bruxas.

À selvageria.

À barbárie.

Vamos, atire a primeira pedra. Acerte-me no olho, na testa, no nariz. Faça-me sangrar.

Uga uga.

Soltem os leões!

Ah, e não esqueçam de ligar a câmera dos vossos smartphones.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme – de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente.
Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.