Reciclar-se

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Ele trabalhava fazia 12 anos sentado numa cadeira do escritório de advocacia do oitavo andar de um edifício cinza no centro de uma grande metrópole. Sempre gostara de seu trabalho. Mas algo havia mudado. Aquela sensação monótona de fazer diariamente as mesmíssimas coisas começaram a sufocar-lhe a alma fazia alguns meses.

Chegava ao trabalho com vontade de ir embora. A cadeira que já tinha o formato de seu dorso coçava-lhe as costas. Sentia um ímpeto de querer levantar a todo o momento e descer correndo os oito lances de escada. Vez e outra olhava o relógio da parede e via os ponteiros movendo v-a-g-a-r-o-s-a-m-e-n-t-e. Quando não fitava o relógio, ficava hipnotizado imaginando o que se passava do lado de fora de sua sala.

Seus colegas de trabalho, outra hora tão solícitos e amistosos, agora pareceriam-lhe estranhos e alheios. Não havia nada de errado com estes, ele que estava diferente. Impaciente. Angustiado. Deslocado.

Ele sentia-se um lixo. Precisava reciclar-se. Não era capricho. Era questão de sobrevivência.

Acordou certo dia disposto à reciclagem. Raspar as crostas do que está impregnado de comodismo é trabalhoso. Recolher o pior de si e submeter tudo isso à transformação é por deveras doloroso. Ele sabia que nada mais seria igual. Ele sabia que vagaria por um tempo no limbo da incerteza até vislumbrar novas cores. Mas precisava fazê-lo, era questão de sobrevivência.

Trêmulo, entregou a carta de demissão. Ou seria carta de alforria? Nem um, nem outro, entregou ao patrão seu passaporte para uma nova experiência de vida. Ele merecia isso. Ele tinha uma dívida muito grande para consigo mesmo. Ele precisava, nem que fosse o gesto derradeiro, mostrar que se amava e que se importava com sua vida.

Ele começou o primeiro dia de sua reciclagem sentado debaixo de uma jabuticabeira no alto de um parque verdejante de uma grande metrópole. Gostava da sensação. Ele havia mudado. Respirava profundamente degustando o ar dentro de seus pulmões. Sentia-se conectado com o novo. Sentia-se gestando o novo. Ele se permitiu re-ciclar: Recriar ciclos… Criar novos ciclos.

 

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá.
Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico.
Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.

  • Yann Carlos de Almeida

    Bacana, hein!? Simples e profundo, sutil e retórico…