Porcos

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Porco é sinônimo de sujeira. Ontem, hoje e sempre. Experimente, por exemplo, vomitar no carpete da sala do parente que só se vê uma vez ao ano ou do colega de trabalho chato que resolveu fazer um happy hour com todos da repartição para ver de que animal serás chamado. É óbvio. Porco. Essa será a palavra gritada em coro, quiçá, com algumas caras de nojinho tentando desviar o olhar, quase sufocadas pelo mau cheiro que, provável, a de tomar conta do ambiente.

Embora as probabilidades de um vômito como o citado acima acontecer sejam mínimas, será que o individuo que descarta o papel de bala no chão, ou a latinha de refrigerante pela janela do carro em movimento não merecem igual reconhecimento, por serem tão ou mais nojentos e sujos que você, que não teve tempo de correr para o banheiro, antes de eliminar os restos mortais da feijoada comida horas antes da famigerada golfada pública?

Se queres mesmo uma resposta, ei-la:

Claro que sim.

Óbvio, lógico e evidente.

E merecem tanto quanto eu e — novamente — você que não dá a mínima para os panfletos deixados no seu carro — esses que vendem, de comida fast-food, a lava-jato (o meu e o seu carros devem estar sujos) até serviços de cartomancia — no longo intervalo, entre o chegar ao trabalho e o voltar pra casa, ou, descartando-os ali mesmo ou acumulando-os dentro do veículo, quando sua consciência ambientalista estiver um dedinho ou dois mais aflorada que o normal, ainda que, você não saiba exatamente onde e como se desfazer daquele monte de papel reunido nos bancos e no piso do seu quatro rodas.

Porcos. Os que fazem multiplicar os panfletos e todos demais que os descartam, se muito, após cinco segundos de observação. Grosso modo, não sabemos o que fazer com o lixo que produzimos. Usamos e abusamos de sacolas plásticas e copos descartáveis, quase que unicamente despejando esse e todo lixo a mais que produzimos, seja no ambiente de trabalho, no boteco, na balada do final de semana, ou em casa, apenas se desfazendo do que não nos presta mais. Em linhas gerais, duas ou três vezes por semana, levamos pilhas de sacolas plásticas para fora de casa, pois, sabemos que alguém (caminhão de lixo) irá passar e pegar nosso lixo para, posteriormente, descartá-lo em outro lugar.

Literalmente, vivemos no lixo. Ponto. Vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana, trinta dias num mês e trezentos e sessenta e cinco dias num ano.

Lixo. Palavra paroxítona, duas silabazinhas apenas. Éle, i, xis, ó. LIXO.

Como porcos falantes e que cantam com os Titãs e ainda riem da própria desgraça.

A lógica é muito simples. Somos consumistas e compulsivos. Desde crianças ensinadas a viver para ter um trabalho que nos garanta condições financeiras para gastar aos montes e ter uma vida com um mínimo de qualidade. Por isso e só por isso compramos e acumulamos todo naipe de bugiganga possível, transformando nossos lares em depósitos de velharias, às vezes nem tão velhas, mas estereotipadas a se tornarem defasadas num curto espaço de tempo.

Não temos prática com o desapego e nos dias de hoje ainda delegamos a falta de tempo o fato de mantermos tanta quinquilharia acumulada. Outro agravante: o descarte irá para onde? Para um terreno baldio que virou depósito de dejetos? Porque não praticamos a reciclagem? Falta tempo também? Vontade? Interesse?

Em resumo: laboramos com tanto afinco única e exclusivamente com o intuito crasso de consumir, consumir e consumir. Um sapato, uma bolsa, um batom, um novo telefone, um carro, um computador. Tudo e no fundo apenas, lixo, lixo e mais lixo. O novo de hoje é o velho de amanhã. Tudo que é novo nasce fadado a ser velho e, por lógica, desprezado, substituído e por isso tendo como destino a lata de lixo. De novo: vivemos no lixo, talvez, somente iludidos pela tentativa em se promover uma caricata sensação de novidade.

A novidade, a propósito, aliada à propaganda vende até merda, quem dirá um novo modelo de celular sensível ao toque ou um vestido que será usado quando muito no casamento da prima de segundo grau. Acostumamo-nos, deste modo, influenciados pela perversa mente dos publicitários que criam as propagandas que assistimos na televisão a acumular itens supérfluos em nossos lares, nossas carteiras, no porta-luvas do carro, onde quer que seja. Carregamos nossos lixos descartáveis por todo canto. Compramos por instinto, em muito, sem necessidade alguma. Apenas pelo prazer do novo. Da superação do velho. Datado, superado e vencido.

Como a feijoada vomitada no carpete do parente distante ou do colega chato da repartição. Porco. Todos nós.

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme – de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente.
Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.