Os beijos que me roubaram nos festejos de Iemanjá

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À sombra de árvores centenárias, bem no meio de uma rua em paralelepípedo, aguardava pelo pedido: peixe com alcaparras, ou ao molho de alcaparras ou com algum molho que tivesse alcaparras.

Tomava cerveja e também cachaça.

Pinga. Brejeira. Cana.

A dose era servida junto de um pratinho com pequenas fatias de caju. O ritual era quase o mesmo usado para beber tequila, porém, sem o sal. Primeiro, uma mordida na fatia de caju, segundo, um gole — único — na cachaça. Celebrava, se não me falhe a memória, as fotos recém tiradas dos festejos de Iemenjá, e ainda aproveitava para repassar as histórias ouvidas, vividas e testemunhadas e, as muitas pautas que fariam parte da edição seguinte da revista.

Uma dessas histórias dizia respeito a uma mulher que horas antes havia me pedido para que eu tirasse uma foto dela. Os olhos brilhavam, fiapos de cabelo escapavam na altura da testa e das orelhas e o suor acumulava-se acima dos olhos e dos lábios. Fiz as fotos e ela saiu, dançando e deixando-se perder, radiante e feliz, em meio à multidão que a exemplo dela acompanhava o cortejo. Pouco depois, à beira do cais, ela me interpelou, com os mesmos fiapos de cabelo escapando de um lado e de outro, o mesmo suor acumulado acima dos olhos e dos lábios e a mesmíssima felicidade que radiava:

— Pego as fotos contigo depois?

Atônito, encolhido, tímido, mas não necessariamente nessa ordem, respondi com o máximo de zelo possível, para não soar desagradável ou indiscreto ou sei lá o quê.

— Sim, sim, te passo depois.

Tentei, em vão, sair pela tangente. Evaporar. Sumir.

Não deu certo.

Aliás, confesso, não fui muito longe. Ela foi atrás. Insistiu. Uma, duas, talvez três, quiçá, cinco ou seis vezes. Me beijou. O rosto, as bochechas. Sem aviso prévio. Pura e simplesmente me beijou. Pá, toma aqui um beijão. Assim, smack.

Despistei de novo, ainda mais atônito, encolhido e tímido. E àquela altura, vermelho, muito vermelho. Fuji. O máximo que pude, crente que esconder-me à sombra daquelas centenárias árvores — enquanto esperava pelo peixe com alcaparras ou ao molho de alcaparras ou com algum molho que tivesse alcaparras — seria suficiente. Mas, não. Não foi suficiente. Como inço no mato, ela ressurgiu e outra vez se aproximou. E também, pela segunda vez e sem me dar um mínimo de chance de sequer reagir, respirar, me beijou outra vez o rosto, a bochecha, cravando, então, para a eternidade:

— Vou botar você na internet!

Exatamente isso. Vou botar você na internet!. Dançando ela se perdeu entre as ruelas da cidade histórica. Nunca mais a vi, nem quando retornei para Barra dois meses depois, a fim de registrar as estórias do velho Sócrates, o homem enciclopédia.

Guardei a foto, é verdade.

E mais: botei na internet.

Eu botei ela na internet.

Eu.

Talvez, nem sei dizer, para sempre lembrar dos dois beijos que um dia me foram roubados, em meio aos festejos de Iemanjá.

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.