O que aconteceu no verão de 1975?

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Em três anos de contribuição para o blog não lembro de ter recomendado a leitura de um livro, exceção feita as poucas vezes que divulguei meus próprios lançamentos, ou, quando fui entrevistado para algum post referente à literatura. Um texto exclusivo, de paparico para com outra obra, nunca.

Até hoje.

Ainda que outros colunistas, vez ou outra, publiquem dicas de leitura e eu não necessariamente considere esse post como uma dica, decidi usar meu espaço essa semana para discorrer sobre um livro.

Há algumas semanas escrevi sobre os livros que li neste 2017. A lista aumentou e é sobre a última obra lida que trata essas linhas. Um romance de mais de quinhentas páginas, best seller mundial, simplesmente arrebatador. Dessas histórias que te perseguem durante o dia, fazendo com que você conte os minutos para voltar à leitura, o mais rápido possível e sem nenhuma intromissão. Permeadas por uma pitada ou outra de clichês, mas, no compito geral, convincentes. E em se tratando de literatura, é o que importa. O convencimento.

E antes que soe piegas e a coluna um emaranhado de adjetivos frágeis, elenco algumas opiniões acerca do livro, todas feitas por veículos de renome, claro, em nome do bom e velho marketing editorial:

“…hino para a imaginação ilimitada e uma história de amor como nenhuma outra” — The Guardian.

“Deixa os leitores entretidos, sobressaltados, desconcertados e encantados enquanto tentam decifrar o mistério” — El País

“Um livro dentro do livro, um romance policial e uma história de amor. Extraordinário” — Cosmopolitan

A versão nacional impressa pela editora Intrínseca, a propósito, é recheada delas. Dentro e fora. Para quando tu ter o livro em mãos numa livraria qualquer não ter escapatória. Faz parte do jogo. Aliás a definição do jornal alemão Cosmopolitan é a melhor de todas. “Um livro dentro do livro”. Extraordinariamente bem construído, embora tenha quem ache o contrário e rogue pragas contra o livro e seu autor precoce. Em suma é como se fosse quase que obrigatória a aquisição, o roubo (isso, talvez não), o empréstimo.

Aos que fogem à massacrante regra e exigência de leitura quase exclusiva de livros de autoajuda, boas práticas para melhorar as vendas, o relacionamento com funcionários, com o público, metodologias sobre como ganhar mais dinheiro, economizar tempo, tornar-se um empreendedor, manter a mente sã e positiva e etecetera, é uma bela pedida. Entretenimento não pode se resumir à Netflix, à novela das oito, ao programa matinal da Fátima Bernardes.

A verdade sobre o caso Harry Quebert, em parte, é uma aula sobre o ofício de ser escritor. O camalhaço de páginas que compõe a obra está recheado de dicas interessantes e certeiras sobre o tema e ainda oferece uma leitura acintosa sobre o mercado editorialmainstream, mesmo que, em alguns momentos tenha-se a impressão se tratar de um universo paralelo, distante do qual vivemos, dado os números e cifras apresentados ao longo do texto; em outra, põe em xeque tudo que já ouvimos falar sobre o amor ao narrar uma história impossível entre uma adolescente e um homem de trinta e poucos anos (tá bom, lembrar de Lolita do Nabokov é inevitável), traduzindo um pouco do que se tornou a sociedade atual, cheia de preconceitos e tão preocupada com o prévio julgamento sobre as pessoas à volta.

Lá vai um clichê: a narrativa é rica e deveras eletrizante.

Confesso, ter torcido o nariz para o maçante uso de pretérito mais que perfeito na tradução nacional. Em alguns trechos cansa a infinidade de olhara, falara, deixara, embora, seja recorrente em se tratando, principalmente, de obras estrangeiras lançadas no país. O quase exagero, no entanto, não torna o livro menos impactante. A meia dúzia de páginas de abusos não comprometem o resultado final, tampouco a prosa envolvente do suíço Joël Dicker — diga-se geminiano como eu.

Em suma, é um livro daqueles capazes de te fazer passar um dia inteiro sem conseguir deixa-lo de lado e ao final da leitura te deixar triste porque acabou e você se sente meio órfão, sem ter com quem compartilhar suas angústias depois de toda trama ser finalmente revelada.

SINOPSE

Marcus Goldman viu sua vida se transformar radicalmente. Com apenas vinte e oito anos, publicou um livro que se tornou um best-seller e o alçou ao status de celebridade, com direito a um apartamento chique em Manhattan, um carrão, uma namorada estrela de TV e presenças constantes nos tapetes vermelhos, além de um contrato milionário para um novo romance. E então foi acometido pela doença dos escritores; a síndrome da página em branco. A poucos meses do prazo para a entrega do novo original, pressionado por seu editor e por seu agente, Marcus não consegue escrever nem uma linha sequer. Na tentativa de superar seu bloqueio criativo, Marcus recorre a seu amigo e ex-professor Harry Quebert, um dos escritores mais respeitados dos Estados Unidos, que vive numa bela casa à beira-mar na pequenina cidade de Aurora, em New Hampshire. Às voltas com sua dificuldade em escrever, Marcus é surpreendido pela descoberta do corpo de uma jovem de quinze anos, Nola Kellergan – que desaparecera sem deixar rastros em 1975 -, enterrado no jardim de Harry, junto com o original do romance que o consagrou. Harry admite ter tido um caso com a garota e ter escrito o livro para ela, mas alega inocência no caso do assassinato. Com a mídia inteira contra Harry, Marcus se lança numa investigação particular, seguindo uma trilha de pistas através dos livros de seu mentor, dos bosques, das praias e das áreas isoladas de New Hampshire em busca da história secreta dos cidadãos de Aurora e do homem que mais admira. Uma teia de segredos emerge, mas a verdade só virá à tona depois de uma longa e complexa jornada. Para salvar Harry, sua carreira literária e a própria pele, Marcus precisa responder a três perguntas, todas misteriosamente conectadas – quem matou Nola Kellergan? O que aconteceu no verão de 1975? E como escrever um romance verdadeiramente bem-sucedido?

***

Há três dias tento seguir em frente, iniciar uma nova leitura, não pensar em Quebert ou em Nola. Tudo em vão. Se puderem, ignorem a desculpa esfarrapada da falta de tempo e coloquem A verdade sobre o caso Harry Quebert na lista de leituras próximas.

A verdade sobre o caso Harry Quebert

Joel Dicker

Editora: Intrínseca

Ano: 2014

Nº de Páginas: 576

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme – de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente.
Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.