Mudança de hábito(?)

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Tentei levantar do lado contrário da cama. Não consegui.

Tentei comprar uma marca diferente de creme dental. Voltei pra casa com o mesmíssimo “frecor herbal”.
Tentei mudar os habituais tons pastéis do guarda-roupa. Por pura coincidência estou de bege hoje.
Tentei mudar de restaurante. De horário de levantar. De repetir as mesmas desculpas. De repente estou aqui dando-me conta de que romper hábitos cristalizadas não é tão simples quanto a personagem de Whoopi Goldberg faz parecer em “Mudança de hábito”.
O ato de repetir determinadas situações e, por consequência, a criação de certas ritualísticas, foi uma maneira do nosso corpo sentir-se mais tranquilo diante da constante incerteza de tudo que nos cerca. A certeza da pontualidade, da eficácia de determinado produto ou da plena satisfação com o cônjuge faz a pessoa assentar-se na comodidade.
Diferentemente dos que se tranquilizam com o “sempre foi assim”, surgem cada vez mais, frutos da frenética pós-modernidade, as pessoas que definitivamente enlouquecem com a rotina. Se tudo não for diferente a todo momento, sentem a vida estagnada e vazia de sentido. A rotina é fazer diferente todo dia! O problema é que isso acaba gerando uma intensa angústia existencial: a carga de ansiedade que essas pessoas precisam gerenciar é aterradora.
No outro extremo estão os que confome canta Chico Buarque, “todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual… os que religiosamente repetem tudo, todos os dias, da mesma forma. No geral são pessoas inseguras e indecisas que refugiam-se nos seus hábitos. Não considero uma enfermidade, mas é triste perceber tamanho esvaziamento da potencialidade da vida diante do mero ‘repeteco’. Uma vida completamente cristalizada  no cômodo torna-se um tanto quanto entediante.
Sem extremos. Sem obrigações. Levanto do mesmo lado da cama, mas mudei a marca do creme dental. Quando vou à uma festa, ouso colocar um fúcsia para (me) surpreender. Do meu lado não quero pessoas habituais, também não quero gente descartável, quero pessoas que considero importantes. Permaneço com certos hábitos para manter minha vida e mudo de  hábitos pra me manter vivo.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.