Livros que li, picolés que chupei

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Primeiro eu ia escrever sobre a garota que me vendia picolés. Ainda não consigo me decidir sobre o porquê de ter abortado a ideia. Ela tinha cabelos cacheados. Longos e cacheados. Não sei se macios ou cheirosos. Infelizmente, não tive oportunidade de conferir. Quando ela me vendia picolés, os cachos estavam sempre escondidos, enclausurados numa touca. Descobri que eram longos e cacheados pelo Facebook. Quanto atrevimento, procurei pelo nome dela nas redes. Achei e até esbocei um flerte. Ah, deixa para lá. Talvez ainda escreva sobre ela.

Ando tão relapso com esse espaço. Essa rotina. Essas quartas-feiras. Falta de assunto, diria um amigo/leitor. Mas, não sei, ando indeciso. De novo, não consigo me decidir se é apenas falta de assunto. Escrever sobre a garota que me vendia picolés, por exemplo, não me parece falta de assunto. Não mesmo. Ela já ganhou um parágrafo quase só para ela, porque não, uma crônica inteira?

Decidi escrever sobre os livros que li esse ano. Catorze. Pouco, bem sei, mas em se tratando da média de livros que são lidos pelo brasileiro anualmente, meu escore é, até, alto. Se a calculadora do meu notebook estiver certa são quase dois livros por mês. É pouco. Já disse. Deviam ser três, quiçá, quatro ou cinco leituras/mês. Nunca tinha lido tanto num ano. Vergonha, né? Mas, verdade. Eis o fato.

Gostaria de saber quantos livros a garota que me vendia picolés leu este ano. Quem sabe sugerir algum. Saramago, talvez. Ou alguém da nova safra de autores nacionais, que tal a Natalia Borges Polesso, o André Timm, a Carol Bensimon.

Será que ela ia gostar?

Que tal, O ano em que vivi de literatura, do Paulo Scott?

Era uma boa vendedora. Convincente. Na primeira vez me fez comprar cinco picolés de uma vez. Levei para casa. E, confesso, chupei um a um, pensando nela, a garota que vendia picolés. Que diabo isso tem a ver com os livros que li esse ano, não sei, repito, ando indeciso. Será possível entender? Tenham paciência. É só o que peço.

Em alguma revista acadêmica li algo sobre serem dois o número de livros que um leitor — foge-me a palavra, vou usar uma similar — assíduo lê por ano no Brasil. Peço escusas, estava doente, garganta inflamada, mal conseguindo engolir a saliva. Sei que li. Tenho testemunhas, um casal de amigos e o irmão vegano da moça, que aliás (ela, claro), é musicista, violinista.

Dois.

Um livro por semestre. Um livro. Se eu sinto vergonha da quantidade de livros que leio, quem dera, o brasileiro padrão. Será que padrão é uma palavra adequada. O que seria padrão? Este que trabalha oito horas/dia, enfrenta trânsito, tumulto, come mal, e à noite, assiste novela e Jornal Nacional ou vice e versa. É isso?

Não me sai da cabeça esse número. DOIS. E eu com meus catorze livros lidos até aqui. Meados de agosto. O décimo quinto iniciado ontem à noite e já pensando nos próximos da lista, sonhando chegar em vinte. Será que consigo ler vinte livros esse ano? Será que consigo manter essa média no ano que vem e no próximo e assim por diante?

Estou farto e cansado de ler e ouvir que o hábito de leitura vem de berço. Influência dos pais. É quase como se você nascer numa casa em que papai e mamãe não leem com frequência, você está, digamos que, salvo. Isento. Que pena, não podemos fazer nada, ele (ou ela) não cresceu num lar onde se incentive a leitura, onde existam livros, uma biblioteca. Como se isso servisse e isentasse escola e sociedade de promover o incentivo à leitura. É cômodo.

Basta de comodismo neste país, não acham?

Mais fácil ligar a televisão, colocar num canal de desenho animado, afinal, todos tem SKY, mesmo que pirateada, ou, vasculhar o Youtube em busca de algo que ofereça entretenimento raso. Para quê livros? É chato. Porque vou ler se meu pai e minha mãe não leem? Se nunca os vi com um livro na mão?

Porque cargas d’água haveria eu de procurar conhecer a obra de Gabriel Garcia Márquez, por exemplo?

Ou, pior, investir mais de setenta moedinhas de um real num livro de capa dura de quinhentas páginas que trata de um homem quase sexagenário, em crise, com uma vida medíocre, em vias de ver sua amada filha partir para uma aventura na África e, ainda assim, descobrir que este é um dos melhores livros que poderia ter lido na vida.

Tirza, o nome, se interessar. Arnon Grunberg, o autor.

Aliás, eu até emprestaria esse pra garota que me vendia picolés.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.