Inversão

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O advento das Olimpíadas desperta em muitos a paixão pela competição, do torcer para que sua equipe ganhe. Busca-se a excelência de corpos e performances. O esporte exige muito. Vai-se ao limite para ganhar. Poucos sabem, mas foi um pastor dominicano, amigo do barão de Coubertin, chamado Henri Didon, que criou o lema olímpico: Citius, Altius, Fortius. Traduzindo do latim: “mais rápido, mais alto, mais forte”.

Perdoe-me o pastor, mas detesto esse lema. Primeiro porque sempre estive do lado perdedor, não houve sequer um jogo de queimada (alguém aí já jogou?) do qual pudesse me vangloriar de vitória. Jogava pela simples alegria de jogar, sem exigências, sem cobranças por perfeição. Segundo, o lema pode ser motivador para um super atleta, mas para os seres humanos, a inversão desse lema é muito mais interessante.

Mais rápido? Não! Quero desfrutar cada momento dessa vida que já é curta por si só. Quero divagar ouvindo música, vendo um bom filme, lendo um bom livro. Quero paciência para conversar, não quero ter pressa para rir, chorar e jogar papo fora. Não quero ter de trabalhar que nem um louco correndo para cumprir prazos “pra ontem”. Não quero ter que correr desenfreadamente atrás da felicidade, quero recebê-la de forma preguiçosa e lenta – porque na rapidez deixamos muita coisa boa fugir. Agilidade na medida certa para não esmorecer, mas que a respiração fique ofegante pelo que realmente faz sentido e não por mera pressa de terminar o que precisa ser fruído l-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Perdemos muito tempo sonhando com a altura, com o pódio, com o lugar mais alto, mais evidente, mais em destaque. A altura carrega efemeridade – é impossível estar sempre por cima. Poupo-me do sofrimento da queda. Não trata-se de avaliar a vida em subidas ou descidas, mas sim de pôr os pés no chão e curtir a caminhada. Pensa-se tanto na “altura” que acabamos esquecendo a realidade. Eu e mais um monte de gente anda sedenta de chão: alguém em quem confiar, um trabalho que te sustente dignamente, um hobby que te faça sentir vivo, comida na mesa, alguém para compartilhar a caminhada… Que sejamos íntegros, não prostrados à baixeza, não subservientes à “fossa”, mas com os pés no chão, com mais humildade, verdadeiramente humildes-húmus-chão: Não no alto, mas ser humano-ser húmus.

Associa-se facilmente força com agressividade e até violência. Fomos doutrinados a acreditar que os mais fortes é que vencem… Me pergunto: Medir forças pra quê? Quero a força do amor, que é suave, delicada. Não quero forçar ninguém a nada e não quero ninguém me exigindo nada à força. Quero ser fraco: quero poder chorar, me lamentar. Quero ser forte para persistir diante dos obstáculos, não desejo força para oprimir ninguém. Quero a força de reconhecer os meus erros. No mais, quero despir as armaduras e, assim frágil, sentir verdadeira empatia por quem está perto. Que hajam palavras delicadas, gestos delicados de acolhimento. Menos força e mais resiliência – capacidade de voltar à integridade apesar da força contrária exercida sobre nós.

Mais devagar, mais humildade e mais delicadeza: Eis um lema pelo qual eu topo competir – Lentius, Humilius, Subtilius.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá.
Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico.
Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.