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‘In My Time of Dying’ – O Epitáfio de Chris Cornell

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Um breve resumo da carreira deste grande artista que nos deixou.

Soundgarden, Temple of the Dog, Audioslave, carreira solo, trilhas sonoras, colaborações com vários artistas, entre outros. É difícil dimensionar o tamanho da carreira de Chris Cornell depois de passar por tantos caminhos diferentes, desde o heavy metal até a música pop, sempre com a voz forte e pungente, mergulhada nas mais diversas emoções. Mais difícil ainda é compreender o que o levou a tirar a própria vida, mesmo com uma carreira de enorme sucesso.

Ativo desde os primórdios da cena musical de Seattle, antes mesmo do chamado “movimento Grunge” estourar, Cornell sempre foi marcado pelo talento vocal que possuía, transitando entre gritos raivosos e momentos mais tranquilos. Era como um mar agitado que se rebelava contra as rochas e depois se acalmava para ouvir o som das aves. Além disso, Chris mostrou ser um exímio compositor, com uma habilidade acima da média para escrever músicas que se equilibravam entre a agonia de ser inimigo da própria mente e a possibilidade de poder confrontar não somente a si mesmo, mas a vida difícil que nos espera.

 

Tudo começou no Soundgarden, banda que ajudou a fundar em 1984 e que teve participação importante para disseminar o famoso “som de Seattle” ao mundo inteiro. Apesar de ser uma das pioneiras do movimento, o Soundgarden se destoa um pouco de todo o conglomerado de bandas que surgiriam depois, com a mistura de riffs pesados do heavy metal e a agressividade do punk rock, somada à voz única de Cornell, sempre carregada de emoção, seja ela raiva ou melancolia.

 

Com 6 álbuns de estúdio lançados ao todo, o Soundgarden atingiu o ápice comercial e criativo em 1994, com o lançamento do clássico “Superunknown”, um dos trabalhos mais importantes dos anos 90, mantendo o peso presente nos álbuns anteriores, porém acrescentando novas formas, com melodias mais calmas e reflexivas. A banda entrou em hiato no ano de 1997, retomando as atividades em 2010. Materiais para um sétimo disco já estavam sendo gravados.

 

 

 

Após o hiato com o Soundgarden e alguns anos em carreira solo, Cornell foi convidado por ex-integrantes do Rage Against The Machine a se juntarem e formarem uma banda, que mais tarde seria conhecida como Audioslave.

A química entre os integrantes foi quase instantânea, e a soma entre o instrumental pesado do RATM com a voz de Cornell foi certeira. Juntos, lançaram 3 discos, e a banda é considerada uma das maiores da última década. Canções como “Like a Stone” e Be Yourself” são clássicos dos anos 2000, mas não se engane: as verdadeiras pérolas do Audioslave são suas canções menos conhecidas.

 

 

Em todo esse tempo, Chris Cornell ainda teve tempo para sua carreira solo e o ótimo projeto Temple of the Dog, criado em homenagem a seu amigo Andrew Wood, ex-vocalista da banda Mother Love Bone, que morreu por overdose de heroína.

Sobre o Temple of the Dog, somente um disco foi lançado, em 1991. A sonoridade é mais limpa, mais voltada ao rock clássico dos anos 70, com destaque à voz de Cornell em canções como “Say Hello To Heaven” e “Four Walled World”. Em “Hunger Strike”, temos a participação de um iniciante Eddie Vedder que, mais tarde, formaria o Pearl Jam com os integrantes restantes do Mother Love Bone. Nessa época, a cena de Seattle começava a se encorpar ainda mais.

 

Em carreira solo, Cornell trafegou em sua linha de conforto por um tempo, com “Euphoria Mourning” (1999) e “Carry On” (2007) e também ultrapassou suas barreiras ao lançar um álbum de música pop, o “Scream” (2009) onde guitarras pesadas foram trocadas por batidas eletrônicas. Apesar de não gostar tanto, acho válida a intenção de um artista em experimentar novas sonoridades em seu trabalho, sem ficar preso a um rótulo.

Seus dois últimos lançamentos mostram uma nova faceta do cantor, um lado mais tranquilo, sereno… pelo menos aparentemente. “Songbook”, de 2011 é inteiramente acústico e atravessa todas as fases de sua carreira, com canções do Soundgarden, Audioslave e alguns covers. “Higher Truth”, seu último lançamento, continua na mesma linha mais equilibrada, mesclando canções folk com guitarras distorcidas.

 

 

 

Chris Cornell se enforcou no dia 18 de maio desse ano, aos 52 anos, deixando a esposa e três filhos. Como dito anteriormente, já estava gravando com companheiros de banda um novo material para mais um disco com o Soundgarden e uma volta com o Audioslave também era cogitada, pois os membros se reuniram esse ano para uma curta apresentação e em algumas entrevistas, não descartavam uma possível retomada nas atividades.

Tive o prazer de ver esse gênio da música ao vivo com o Soundgarden, em 2013, em um dos momentos mais marcantes da minha vida. Desde a morte de Lou Reed, também em 2013, eu não sentia tanto a morte de um artista quanto a de Chris Cornell, uma das minhas maiores inspirações.

 

**BÔNUS**

“In My Time of Dying”, a canção que dá título ao texto, não foi citada em vão. Algo como “em meu tempo de morrer”, o épico de 11 minutos está presente do clássico “Physical Graffiti”, sexto álbum de estúdio lançado pelo Led Zeppelin. Porém, a (infeliz) coincidência é o fato de Chris Cornell ter cantado trechos da música justamente na última canção tocada ao vivo com o Soundgarden, poucas horas antes de falecer. Fica aqui a homenagem.

 

 

Guilherme, 1993, Minas Gerais. Nem crítico e nem jornalista, apenas apreciador. Como diria o Rob do Alta Fidelidade: 'Livros, discos, filmes - essas coisas importam. Me chame de superficial, mas é a verdade.