Homens e cavalos-marinhos

By  |  0 Comments

Fiquei observando os cavalos-marinhos: Além de sua similaridade com os equinos terrestres, o seu categórico imperativo de masculinidade me deixa perplexo. A Divindade foi muito injusta ao conceder somente às mulheres o dom de parir (Fica aqui o meu protesto!). A conexão entre criadora e criatura (aquela que gera e aquele que é gerado) é um laço insubstituível. Isso na raça humana. Diferentemente acontece no mundo dos Hippocampus que gestam seus filhotes. A “maternidade” tão associada à figura feminina, no fundo do mar sofre uma inversão: É o cavalo-marinho macho que gesta e pare os filhotes.

A tendência de caracterizar o masculino por muito tempo partiu da premissa de contrapô-lo ao feminino: homem não chora/mulher chora; homem é forte/mulher é fraca; homem é racional/mulher é sentimental. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? A modernidade com seus questionamentos trouxe à tona a discussão de gênero (Vale uma ressalva: Tem gente que só de ouvir a palavra “gênero” já tem um troço). Mas qual o problema de questionar a construção social do que é ser homem e do que é ser mulher? (Pois é isso que a discussão de gênero propõe).

Todo o diálogo sobre gênero e as diversas formas de expressar-se como homem ou mulher, criou sobretudo no homem pós-moderno uma crise profunda no sentido do que define a masculinidade. O sexo masculino, penso eu, tem mais dificuldade em assumir suas crises pois foi ensinado que “expressar sentimentos não é coisa de homem”. Ao questionarmos isso, a masculinidade nos seus antigos padrões é posta em cheque: o homem mantenedor da casa; o homem mantenedor/provedor da família; o homem viril. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? O homem é parte de uma família e também tem responsabilidade na educação dos filhos (não basta mantê-los!) e de igual forma, homem nenhum tem a obrigação se ser um “sex machine”.

Assusta-me quando homens precisam afirmar sua masculinidade depreciando o feminino. Relatos desse tipo se ouvem nos barzinhos da vida, que para muitos ainda é local de macho, assim como as borracharias e os estádios de futebol. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? Ainda bem que existem mulheres ocupando estes e outros espaços para mostrar que nenhum espaço geográfico é definido pelo sexo.

Assusta-me relatos de medo frente ao feminino e de qualquer coisa que remeta ao feminino: flor, laços, cor de rosa (porque ainda existem homens que dizem usar camisa cor “goiaba” pra não dizer cor-de-rosa). Homem não é sinônimo de machista. Pode-se usar cor de rosa, flores e até laços sem se sentir menos homem por isso. Acho que essa é a grande inversão dos novos tempos: Nos dizer que uma nova visão de masculinidade é possível. A começar agregando um plural: Masculinidades. Não existe só um tipo de homem – Masculinidades são possíveis. Obrigado Sr. Cavalo-Marinho por parir por mim!

 

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá.
Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico.
Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.