Fortaleza

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Preciso ser honesto: isso é mais que um texto. É uma ferida aberta, escancarada e que ainda não cicatrizou. Vai demorar ainda. Porém, não é um lamento. Neste exato momento que o escrevo, faz 10 dias que perdi minha mãe. Ela faleceu em um acidente de ônibus bem aqui ao lado, no Tocantins. Não há palavras para explicar a situação ou o que sinto. Nem precisa. Só que é preciso colocar tudo para fora, expurgar todo o sentimento ruim para ajudar a colocar tudo de volta no lugar. Tudo.

Não busco mais aqueles “e se?”, nem justificativas. Tampouco culpados. É melhor lembrar os momentos que passamos. A minha infância, as mudanças de cidade (foram várias), o retorno a Minas Gerais, o falecimento do meu pai e como nos tornamos ainda mais próximos, a mudança de rumos na vida e os vários reencontros. Tem muita história e sempre dá para tirar uma lição. Sempre.

Habitualmente, a música fez parte de toda essa trajetória. Não ouvíamos as mesmas coisas, mas hora ou outra havia algo em comum, como o Oasis. Ela acabou gostando, pois eu ouvia sem parar todos os dias durante a adolescência. Ao lado do Nirvana, era minha banda favorita. Uma música em especial ficou marcada: “Rockin’ Chair”. Ela adorava o refrão, mesmo sem entender uma única palavra. Realmente, a energia da música é contagiante e, nesse caso, entendê-la acaba sendo desnecessário. Depois do acontecimento, não consegui mais ouvi-la, acho que por medo da dor vir muito forte e eu não saber como reagir. Mas uma hora vou ter que encarar. A vida continua.

Lembro que um de seus maiores sonhos (se não o maior) era conhecer Fortaleza, capital cearense. Nunca soube o motivo e nem ela mesma sabia explicar tal vontade, mas tinha e em algum dia se tornaria real. Talvez essa tenha sido a dor maior: os planos que permaneceram somente no papel. Mas, pensando bem, o sonho de conhecer a cidade acabou se tornando realidade. De certa forma, ela foi não só a minha, mas a Fortaleza de muita gente.

Guilherme, 1993, Minas Gerais. Nem crítico e nem jornalista, apenas apreciador. Como diria o Rob do Alta Fidelidade: 'Livros, discos, filmes - essas coisas importam. Me chame de superficial, mas é a verdade.