Fazendo trabalho voluntário na Indonésia

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Conforme mencionado no meu último post, hoje falarei sobre o trabalho voluntário que estou fazendo na Indonésia. Quando decidi que queria sair do meu emprego para conhecer outro lugar do mundo, tinha vários motivos que me ajudaram a escolher um projeto voluntário em vez de somente viajar.

Um dos maiores motivos, para mim, era que uma estadia longa em um mesmo lugar  realmente possibilita conhecer a cultura local. Você acaba fazendo amizades com pessoas de lá mesmo, em vez de somente conhecer outros viajantes com quem você compartilha um mesmo quarto no hostel durante uns 3 dias. E são estes amigos locais que te ensinarão a cozinhar os pratos típicos, com quem você vai praticar a língua e que te levarão naquela caminhada na natureza lindíssima que não está mencionada em nenhum livro turístico.

Fazer um trabalho voluntário também é uma oportunidade de desenvolver seus skills (habilidades) e conhecimento. Além da parte de aprender a língua local, também tem o fato que no trabalho voluntário você acabará fazendo atividades que no seu dia a dia normal não faria. Estas atividades diferentes te dão a oportunidade de sair da sua zona de conforto, o que sempre tem como resultado um autodesenvolvimento forte. E sim, além de ter novos skills, simplesmente o fato de mencionar que fez trabalho voluntário é algo que fica bom no seu currículo também.

Talvez você se pergunta agora: “Bem, isso são motivos meio egoístas, um trabalho de voluntarismo não deveria ser por querer ajudar os outros, em vez de ser bom para si mesmo?”

Na verdade, isso é o que fez dessa experiência ainda mais perfeita: enquanto eu estaria aprendendo novas coisas e vivendo uma experiência muito boa, eu também estaria fazendo algo bom. Porém, o motivo por qual não mencionei isso como a minha maior motivação, é porque eu comecei este projeto com uma visão muito realista sobre o quanto de impacto o meu trabalho teria. Ficar dois meses em um lugar onde não conhecia a língua nem os costumes? Eu não ia mudar a vida das pessoas. Se o meu maior motivo de fazer o projeto fosse melhorar o mundo, eu ficaria muito frustrada por somente poder fazer bem pouquinho. Mas aproveitar certas vantagens e, ao mesmo tempo, poder contribuir um pouquinho, me parece melhor do que nada.

Foi conversando com uma amiga sobre esta ideia, que ela me recomendou o site de uma organização belga que faz parcerias com organizações de projetos voluntários do mundo inteiro. Assim, eles tem um database com projetos que variam de ajudar tartarugas no México, construir casas na África, cuidar de elefantes na Tailândia e dar aula de arte para crianças no Rio de Janeiro. Tem projetos que focam em experiência cultural, por você ser o único voluntário lá, e tem projetos focando em trabalho com time internacional, quando você tem que executar um projeto junto com outros voluntários.

O processo de participar em um projeto de trabalho voluntário normalmente não é difícil – por exemplo comparando com conseguir uma bolsa para estudar num outro país – pelo simples motivo que você está pagando para participar. É algo de que muitas pessoas não têm consciência e até acham estranho, mas para participar em um projeto voluntário, você quase sempre tem que pagar uma taxa de participação. No meu caso eu precisei pagar uma taxa para a organização belga e chegando na Indonésia também tive que pagar uma taxa por mês à organização aqui. Além disso, tem o custo da passagem de avião e do seguro de viagem e saúde que também são de responsabilidade do participante.

Concluí estes passos administrativos e financeiros e no dia 3 de janeiro cheguei na cidade de Semarang. A organização local, chamada IIWC of PKBI, estava me esperando no aeroporto e me deu um dia de orientação sobre a Indonésia e o projeto. Depois me mudei para a Nuansa Mandiri, a cooperativa onde eu ia efetuar meu primeiro projeto.

Nuansa Mandiri, literalmente traduzida “Tons de independência” é uma cooperativa de microfinanciamento com 200 membros. Os membros são mulheres da classe baixa – geralmente proprietárias de estande de feira – que não se sentem bem-vindas em banco (por causa do horário de abertura limitado, as taxas altas, os requisitos para conseguir um empréstimo…) A Nuansa Mandiri funciona como banco, oferecendo empréstimo e/ou conta poupança para os membros. Porém, a grande diferença é que em vez dos membros terem que ir até o local da cooperativa, as funcionárias da Nuansa Mandiri vão todos os dias visitar os estandes dos membros para receber o dinheiro que irá pagar o empréstimo ou que gostariam de colocar na poupança (quantias pequenas variando de R$ 1 até R$ 25).

Parte do meu projeto era ir junto com estas funcionárias às feiras para buscar o dinheiro dos membros. De volta ao escritório eu ajudava com a parte administrativa da cooperativa. Foi bem interessante ver o funcionamento de microcrédito, um sistema que estimula o desenvolvimento social e econômico e para qual o inventor, Muhammad Yunus, ganhou o prêmio nobel em 2006.

Além disso, a Nuansa Mandiri oferece certas atividades sociais para os membros, por exemplo, seminários sobre saúde, aulas de inglês, aulas de esporte…
Estas atividades eram a minha principal responsabilidade e assim eu dava aula de inglês para as crianças, aula de aeróbica e aula de yoga.


Em primeiro de fevereiro me mudei da cidade para uma aldeia, chamada Mogá, para iniciar um segundo projeto, que é organizado por uma organização local non profit, chamada Literasi Kampung (“Alfabetização da aldeia”).  O que gostei desta organização é que foi iniciada por um grupo de jovens locais (entre 20 e 30 anos), que decidiram estabelecer a primeira biblioteca da aldeia. Além de construir esta biblioteca fixa, eles também levam os livros para outras aldeias em volta, criando assim uma biblioteca móvel.

As minhas tarefas envolvem esta biblioteca móvel e também o intercâmbio cultural: visito as escolas das aldeias em volta daqui, tanto do ensino fundamental quanto do ensino médio, para contar um pouco sobre a vida na Europa e dar uma oportunidade às crianças e adolescentes de praticarem o Inglês.


Uma parte do meu projeto também se localiza numa outra aldeia, chamada “Tourism village of Cikendung”. É um lugar lindíssimo, no meio de plantações de chá, campos de arroz e bananeiras, que está tentando desenvolver o turismo. Lá dou aula de inglês para os guias (que são treinados para subir o vulcão “Mount Slamet” que fica aqui perto), e tenho a sorte que, em troca disso, a cidade me oferece atividades culturais que também são oferecidas às turistas. Assim estou aprendendo a tocar Gamelan e a dançar Menthelan, um estilo de música e uma dança tradicional.


Neste momento quase terminei meu segundo mês de projeto e depois de uma pequena viagem para Kuala Lumpur, o capital da Malásia, eu já estarei voltando para a Bélgica.

Com certeza foi uma experiência única que realmente recomendo a todo mundo. Claro que não é todo mundo que tem 2 meses para ir fazer um projeto voluntário, mas às vezes pode ser legal incluir um projeto de 2 semanas na sua trajetória, ou em vez de tirar um mês de férias para ir pulando de cidade em cidade, usar este mês para fazer um projeto voluntário. O que você “perderia” em ver lugares turísticos e famosos, vai ganhar em dobro de experiência cultural.

Sou a Veerle, belga de nacionalidade, mas um pouquinho brasileira de coração, tanto por interesse profissional (sou graduada em Negócios Internacionais) como por lazer. Tento viajar o máximo possível e sempre conhecer novas culturas e novos lugares. Além de viajar, gosto de música, ler e yoga.