Estamos ferrados

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Parece-me que um sachê de ketchup motivou um assassinato dia desses. Deu na tevê. Não assisti. Ouvi dizer. Numa aula. A profe comentou: se um escritor põe num livro que um personagem matou o outro por causa de um sachê de ketchup, ele está ferrado. É. Acho que essa foi a palavra. Ferrado. Fiquei imaginando se há alguém nesse país que não esteja.

Sinceramente.

Pense aí?

Particularmente, nunca pensei que viveria para assistir um ex-presidente ser preso. Imagine! Só num universo puramente fantasioso haverá quem comemore algo do gênero. Onde já se viu? Fogos de artifício são para Copa do Mundo e Réveillon. Quem há de ser louco para soltar fogos em comemoração à prisão de um ex-presidente. Capaz.

Não!

O Leonardo Di Caprio logo aparece para dizer tudo que estamos vivendo não passa de um sonho. Quem sabe dê pra trocar, mano a mano, o “Que tiro foi esse?”, da Jojo Todynho por “Non, Je Ne Regrette Rien” da Edith Piaf. Tenhamos fé.

Um sachê de ketchup não pode — em hipótese alguma — ser o catalizador de um assassinato na ficção, mas, na vida real, na lanchonete que tu frequentas depois da academia, talvez possa, e mais, existe uma chance considerável de uma notícia como está não te fazer mínima cócega.

Parece que nos acostumamos a manter distância segura de tudo que possa nos afetar, como se estivéssemos constantemente lendo o aviso fixado na traseira de um caminhão carregado de porcos.

Comodismo?

Enquanto os protagonistas do caso do sachê de ketchup forem apenas um número, uma estatística, um alguém sem rosto, sem nome, sem rotina, sem sonhos, sem medos, tudo bem?

Só faz diferença quando há empatia?

Na ficção — dizem — é preciso que os personagens causem exatamente isso, empatia. Deve vir daí o alerta da profe, que um escritor está ferrado se cria uma cena onde um personagem atenta contra a vida de outro por causa de um insignificante sachê de ketchup. Um especialista em literatura vai gritar do fundo da sala: “Alto lá, isso não é verossímil”. Acrescente também: estranho e duvidoso. Misture até engrossar.

Voltando ao sachê de ketchup, motivo torpe que diz, né?

O sachê de ketchup é o absurdo transformado em algo normal.

Quando se está ferrado perde-se um pouco o bom senso, não se sabe para onde ir, que porta abrir, que estação parar. Ninguém gosta de admitir que está perdido e não sabe o que fazer.

Dói. Angustia. Enclausura.

Mais cômodo mentir com um sorriso amarelo.

A gente finge que está bem.

Compartilha notícia falsa.

Repete os palavrões da moda.

Vai (sobre) vivendo de um jeito cada vez mais estranho e sem sentido, como as torcidas organizadas se espancam gratuitamente nos arredores de um estádio, antes e depois de um clássico.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.