Doce de maracujá

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Uma moça de voz rouca cometeu a ousadia de me comparar a um doce de maracujá. Isso tem alguns anos. Fui um doce tão, mas tão azedo que ela preferiu lambuzar os lábios com outros sabores, claro, menos cítricos. Lembrei dela porque outra moça, dona de um simpático sotaque recifense, resolveu resgatar, não o doce ou o maracujá, mas, o azedo.

Assim:

— Um azedinho pode ser bem refrescante às ideias.

Me achei, claro.

Imagina, eu, refrescante. Pois, sim, sou azedo, não posso negar. Tem quem goste, tem quem não. Hoje de manhã, perto do meio-dia, decidi ligar a tevê. Sentei, estiquei as pernas e em dois minutos, pensei: “Meu Deus, como posso ser tão azedo?”

Quando era criança gostava de acordar antes das oito para dar tempo de tomar um generoso copo de nescau antes de assistir Os Smurfs. A tevê era mais legal. Okay que as vezes as moças que apresentavam os programas infantis exageravam nos trajes mínimos, mas os desenhos compensavam tudo. E ainda tinha as cartinhas. Milhares delas e a mesma moça de trajes mínimos sentada em cima da pilha jogando as cartinhas pro ar até escolher uma para ler. Era o máximo.

Hoje não tem mais desenho na tevê convencional. As crianças não precisam ficar grudadas na frente da tevê para ver se a sua cartinha seria lida, nem esperar a hora certa para ver A Caverna do Dragão. Tablets, celulares, Youtube e tevê por assinatura fazem isso por elas. Eu que não sou mais criança, olho com azedume de lacrimejar os olhos, a programação da tevê. Pobre de quem não tem opção.

Primeiro, um papagaio de araque e uma senhora fazendo as vezes de super jovem discutindo trivialidades, depois uma ex-apresentadora do principal telejornal da tevê (será que isso é lá grande coisa?) ditando regras com convidados tão insossos quanto e enfileirando atrações de gosto duvidoso. Pra piorar, os que ficam cimentados no sofá — e na sala de espera dos consultórios, das lojas, dos escritórios, nos leitos dos hospitais — ainda tem o desprazer de assistir essa mesma ex-apresentadora demonstrando seus dotes de dança.

Senhor, que saudades dos Smurfs.

Conclui que diante da tevê meu azedume só tem a aumentar. Não sei o que as crianças de hoje — as que não tem tevê por assinatura — fazem pela manhã. Será que estão brincando nos seus quintais? Ou, enclausuradas e cabisbaixas diante de um aparelho celular assistindo Pepa Pig? E a programação virou o que virou por não haver mais crianças para assistir a tevê ou porque o número de adultos desocupados — ou desempregados — aumentou?

Talvez eu tenha me tornando azedo em excesso por nunca ter uma cartinha minha lida em rede nacional. Cá entre nós, nem sei se algum dia me dei ao luxo de enviar uma cartinha para a rainha dos baixinhos. É possível que o azedume venha daí, vai saber.

Lá pelas dez e até as onze, eu chutava a bola contra a parede e era um jogo de futebol do início ao fim.

Quem sabe deva comprar uma bola, chamar o Milton e ser — nós dois — um campeonato inteiro, todas manhãs. Melhor azedo (lembre-se: pode ser bem refrescante às ideias) desse jeito que tendo ânsia de vômito com a programação da emissora major do Brasil.

Se ao menos ensinassem os telespectadores a preparar um delicioso doce de maracujá.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.