A geração mimimi

By  |  1 Comment

De alguns anos pra cá – não sei precisar, mas creio que cerca de uma década ou um pouquinho mais -, emergiu o debate sobre o que se chama opressões, tais como opressões de gênero, étnico-racial, sexualidade e classe social. Ao mesmo tempo, o acirramento entre as distintas posições de manter as discriminações por um lado e de transformá-las por outro, criou uma argumentação bastante conhecida, sobretudo nas redes sociais, chamada de “geração mimimi”.

O que você considera que seja geração mimimi?

Já me questionei inúmeras vezes sobre isso e concluí que trata-se de pessoas que não aceitam mais caladas as discriminações que ocorrem de inúmeras e irrestritas maneiras: “piadas”, expressões, imagens, estereótipos, violências, invisibilidades.

Para uma sociedade e gerações educadas na base de todos esses elementos acima e centrada em uma sociedade que valoriza a cultura europeia da colonização, portanto, branca e que desvaloriza as demais culturas como a negra e indígena; que valoriza as características masculinas e que desvaloriza as consideradas femininas; que valoriza  somente uma sexualidade (heterossexual), desrespeitando as demais; que explora o trabalho e vende a imagem da riqueza material como algo a se alcançar com mérito, me parece compreensível, porém inaceitável.

A ascensão dos movimentos sociais negros, feministas e LGBT por todo o mundo e também pelo Brasil, a ascensão das pautas de outros segmentos sociais minoritários em termos de direitos, como as pessoas com deficiência, indígenas ou religiões periféricas, alterou a correlação de forças e as discriminações antes aceitas, já começaram a ser questionadas.

No entanto, não é raro que em debates que busquem desvelar ainda mais essas discriminações, ainda não percebidas por muitas pessoas, de diversas gerações, faz com que haja uma desqualificação do debate através da adjetivação do “mimimi”.

O mimimi é o que é considerado besteira, dispensável, desnecessário. Mas será que de fato quando as questões de reflexão sobre a realidade são levantadas, a melhor alternativa é não pensar sobre e chamar de mimimi? O que é besteira nessa sociedade totalmente injusta em que vivemos? Tenho as minhas respostas, mas quem chegou a ler até aqui, deixo as provocações para pensar, terminando com uma frase de meu poeta preferido: Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem (Bertolt Brecht).

Baixinha retada que mora em Barreiras, velho oeste da Bahia, pedagoga, servidora pública federal, educadora por formação e opção, geminiana típica, comunista por escolha ideológica, feminista por necessidade e hiper militante em prol de causas sociais coletivas.

  • Justino Cosme Santos

    Muito bacana o artigo de opinião e interessante a desconstrução dessa nova palavra, “que já ver armada antes deu nascer”. Mas acontece que ela vem caindo no senso comum, aí então, muitas pessoas a usa como meio de velar seus preconceitos e discriminações. Antes assumir o “mimimi”, do que ter opinião crítica a respeito dos fardos que carregam as minorias.