A cultura indonésia

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Hoje é meu último dia na Indonésia e gostaria de compartilhar mais umas coisas com vocês sobre a cultura, que na minha opinião é uma cultura muito bonita e que consequentemente acabei gostando bastante.

O que com certeza vai ficar mais na minha memória é a bondade das pessoas aqui. Não sei se é algo da cultura da Indonésia, da cultura da Java (a ilha onde estou) ou da cultura muçulmana – o mais provável é que é uma mistura das 3- mas as pessoas são muito gentis, abertas e hospitaleiras. Já falei isso no meu primeiro post mas é algo que marcou tanto a minha experiência aqui e de qual vi todo dia prova, que com certeza vale repetir de novo.

Além de serem muito gentis, eles são muito humildes. Na verdade achei que eles são quase humildes demais quando se trata de estrangeiros. Só de você estar na casa deles, eles já acham uma honra. Eles te enchem de comida, botam um membro da família para dormir na sala para que você possa ter um quarto e na hora de despedir ainda pedem desculpa porque acham que talvez fizeram algo errado.

Também no meu aniversário, que foi bem no final do primeiro projeto que eu fiz, as pessoas do bairro – que eu só conhecia durante um mês então – organizaram uma festa surpresa para mim, com decoração, um bolo, as crianças da minha aula de inglês cantando Happy Birthday,… No final da festa a organizadora me disse ‘Muito obrigada!’, e eu fiquei, ‘como assim, muito obrigada? Sou eu que tenho que agradecer você!’ Aí ela respondia: ‘Não, obrigada à você por ter gostado!’ Eles realmente ficam felizes por conseguir deixar você feliz.



Eles também são muito alegres, adoram dar risada, brincar, cantar (adoram karaoke), conversar com todo mundo que encontra na rua, ir na casa do vizinho onde sempre terá um chá bem doce e alguma comida (bem provavelmente frita). O que admiro muito aqui é que, por causa da religião, eles não bebem álcool. Eles adoram reunir pessoas, mas quando fazem está sendo servido água, chá ou café, e nunca álcool. Mas pela tanta de alegria e risada que tem nos eventos assim, dá para ver que com certeza não faz falta!

Falando da religião – que foi um dos motivos por quais achei legal eu vir para Indonésia e mais especificamente a ilha Java, já que aqui o Islam é a religião dominante e me pareceu interessante a conhecer melhor –  gostaria de fazer algumas observações sobre esta religião que nestes dias é tão mal vista. Eu pessoalmente são agnóstica então as observações são feitas de um ponto de vista cultural/antropológica, não religiosa.

Os muçulmanos indonésios são bastante religiosos. Por exemplo, desde criança eles aprendem a ler árabe para assim conseguir recitar o Alcorão. Todo mundo aqui realmente consegue ler e escrever a escrita árabe, fiquei bem impressionada com isso. Eles também só comem carne halal e não comem carne de porco. Conforme mencionei num post anterior, as mulheres também seguem as regras de roupa muçulmana, se vestem com manga comprida, roupa sempre cobrindo os joelhos e usando um véu (somente tampando o cabelo, não o rosto).


Eles também seguem o ‘sholat’, as 5 rezas por dia. Pode ser dentro da casa, onde existe um quarto separado para isso, ou na mesquita. É um costume que também os jovens ainda fazem. Eu sabia deste costume de rezar 5 vezes por dia antes de vir para cá e na época me pareceu algo meio radical. Mas na verdade, assistindo estes momentos de perto, deu para ver que são simplesmente 5 momentos por dia que eles tomam um tempinho para si mesmo e que eles conseguem expressar o gratidão deles para a vida que eles têm. Na vida ocidental está sendo muito recomendado de fazer meditação e Yoga já que as pessoas têm uma vida corrida demais e precisam de técnicas para relaxar. Na verdade não vejo diferença entre alguém precisar de um momento de Yoga, ou ir correr por meia hora, ou de relaxar na frente da televisão para poder desligar a cabeça um pouco, com estes momentos de reza. Algo que confirmou isso para mim foi quando uma menina aqui estava me contando sobre um momento estressante que ela tinha passado e me falou ‘eu só queria rezar naquele momento’.


Ao mesmo tempo que eles são bastante religiosos, eles são muito diferente daquela imagem radical do Islam. Por exemplo, nestes dois meses somente uma pessoa tentou me converter a virar muçulmana, e 3 outras pessoas pediram desculpa por ela ter feito isso.

 

Claro que como em todo lugar do mundo existem pessoas mais radicais. Tem por exemplo uns partidos políticos que acham que o governo deveria se basear nos princípios da Islam e que nestes dias estão protestando contra o governador de Jakarta, que é um cristão. Mas as pessoas com quem eu conversei aqui sempre condenam qualquer forma de violência no nome do Islam e enfatizam muito o fato que o Islam ‘puro’ é uma religião de tolerância e de paz. Inclusive a palavra ‘Islam’ vem da palavra árabe ‘salema’ o que quer dizer ‘paz, pureza’.

Também a imagem da mulher ser subordinada ao homem não faz parte da cultura indonésia. Na família na qual eu fiquei – de qual a mãe inclusive é uma professora de religião – ficou bem claro que é a mãe da casa que mandava em tudo, e o pai ajudava a limpar a casa e a cozinhar, bem o contrário do estereótipo.

Eu fui avisada na hora de chegar aqui que eu talvez encontraria homens que não iam querer dar uma mão para mulher para comprimentar. Por isso me avisaram que como mulher é melhor nunca esticar primeiro a mão para comprimentar um homem (algo difícil de lembrar). Mas na verdade todo homem sempre me dava uma mão que eu acabei de esquecer desta possibilidade… até claro acontecer que eu estiquei a mão e o homem não quis aceitar. Na hora é uma sensação bem ruim, principalmente porque eu estava do lado de um outro voluntário masculino de quem foi aceito sim, como se eu valesse menos do que ele. Mas mesmo quando foi assim, o homem não me olhava feio. Ele sorria, pressionava as duas  mãos juntos e acenava com a cabeça como jeito de cumprimentar. Nestes dois meses só encontrei uns 5 homens que me cumprimentavam assim em vez de dar uma mão.

 

Então não vou dizer que as mulheres são totalmente iguais ao homens ou que não existem homens que acham que as mulheres valem menos, mas encontrei mulheres com uma função alta em empresas, entre os jovens os meninos tem amizades normais com as meninas, e as meninas vão do mesmo tanto para a faculdade quanto os meninos.

Então para mim a imagem do islam que a mídia está pintando estes dias e os preconceitos que seguem a partir desta imagem, foi mais do que refutada graças à cultura que assisti aqui na Indonésia. Fiquei bastante feliz de ter conhecido esta cultura muito bonita, que ainda contém aspectos de uma vida simples que já ficou um pouco perdido na Europa: se preocupar mais com as outras pessoas do que com dinheiro, ser grato pela vida que tem e principalmente ser feliz e alegre.
Ainda tem bastante coisas a contar sobre a Indonésia então também vou dedicar meu próximo post à Indonésia, mais específico sobre mais alguns costumes daqui e os lugares que visitei. Até!

Sou a Veerle, belga de nacionalidade, mas um pouquinho brasileira de coração, tanto por interesse profissional (sou graduada em Negócios Internacionais) como por lazer. Tento viajar o máximo possível e sempre conhecer novas culturas e novos lugares. Além de viajar, gosto de música, ler e yoga.