13

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Seja uma desilusão amorosa, problemas financeiros, crise emocional ou qualquer outro motivo, não importa. É no fundo do poço que vários artistas conseguem extrair as suas obras mais honestas e poderosas, revelando uma face mais verdadeira e íntima ao público em geral. No caso do Blur, um conjunto de fatores desgastou a relação dos integrantes, e em meio a um ambiente turbulento saiu “13”, a obra mais marcante de toda a discografia do quarteto londrino.

Lançado em 1999, o álbum apresenta uma banda mais amadurecida musicalmente, inovando a sua sonoridade com novos elementos eletrônicos e modernos, além das letras de tom confessional do líder e vocalista Damon Albarn, arrasado pelo fim de um relacionamento de oito anos. Graham Coxon, o comandante da guitarra, também passava por um momento difícil e enfrentava sérios problemas com álcool, o que tornava as gravações ainda mais complicadas.

“13” é a reunião das principais referências de toda a obra da banda até então. Nele, conseguimos detectar o shoegaze presente em “Leisure” (1991), o pop e o rock inglês na “trilogia londrina” que começa em “Modern Life Is Rubish” (1993), passa pelo clássico “Parklife” (1994) e termina em “The Great Escape” (1995), além da forte influência do rock alternativo americano que ouvimos no disco auto-intitulado de 1997. Além disso, vejo o trabalho como dois álbuns distintos, separando-o ao meio. A primeira parte soa mais “pop”, mais acessível, e na outra metade o clima fica mais sombrio, com as experimentações ainda mais fortes, camadas e mais camadas de guitarras, baterias e sons eletrônicos mais presentes que o normal e o teor das letras com um tom bem depressivo.

O disco começa com aquela que seria o seu sucesso absoluto, “Tender”. Na canção, Damon escancara as feridas de seu coração em versos dolorosos e uma voz bem emotiva, que ganha uma bela ajuda de um coral gospel. “Coffee and TV” (lembra do clipe do leitinho?), escrita e cantada por Graham Coxon, é outro ponto alto dessa primeira metade do álbum. Percebe-se uma grande influência do rock britânico dos anos 60, e a voz preguiçosa de Coxon dá todo um charme à canção. A atmosfera começa a tomar outros rumos em “1992”, apresentando ruídos de guitarra com uma bateria marcante misturados à voz arrastada de Damon, quase como um sussurro. Um shoegaze nato e digno de atenção, já antecipando a segunda metade do disco.

“Tender is my heart,
I’m screwing up my life.
Lord I need to find
Someone who can heal my mind.”

“Sociability is hard enough for me.
Take me away from this big bad world
And agree to marry me,
So we can start over again.”

 

“…And you’d love my bed,
You got the other instead.”

 

Nos primeiros segundos de “Battle”, a minha favorita de todo o álbum, já se percebe a mudança de ambiente. Dos efeitos eletrônicos à hipnotizante e incansável bateria nos quase oito minutos de duração, “Battle” é a chamada para o ouvinte adentrar nesse novo universo de caos e confusão, com as palavras confusas de Damon Albarn ganhando um tom ainda mais soturno.

Here I love the bow.
See me walk on down to adorn myself.
It’s a new song glory
‘Cause see me, what do you think of now?”

 

“Mellow Song” e “Trailerpark” dão continuidade à atmosfera experimental e dolorosa, em versos lamentosos que chegam a supor até uma dependência de heroína e álcool no trecho “shooting stars in my left arm/an alcohol low”. Em seqüência, “Caramel” é um dos testemunhos mais fortes e honestos de todo o trabalho. As guitarras de Graham Coxon, alternando-se entre momentos caóticos e delicados, se aliam a efeitos eletrônicos que acompanham fielmente os sussurros de Damon Albarn. Ele precisa melhorar e seguir em frente e cogita até parar de fumar, mas nunca se esquecerá de sua amada.

Na mesma linha, “No Distance Left To Run” é o ápice da dor emocional do vocalista, e chega ao fim do disco tocando na ferida aberta, que insiste em não cicatrizar. É o relato mais confesso de Damon, a canção mais clara e que melhor traduz toda essa confusão de sentimentos que guiou todo o andamento do disco.

“I’ve gotta get over,
I’ve got to get better,
I’ll love you forever…”

 

It’s over, you don’t need to tell me.
I hope you’re with someone who makes you
feel safe in your sleeping tonight.
I won’t kill myself trying to stay in your life,
I got no distance left to run.”

 

Tive a sorte de achar um exemplar do álbum (em CD) em uma prateleira de promoções na saudosa Goval Discos, quando eu ainda morava em Minas Gerais. “13” é um disco “heartbreaker” de uma banda que experimentou o auge do sucesso e que, depois de anos, tentava superar seus dramas pessoais e sair da zona de conforto criativa. De maneira primorosa, eles conseguiram.

A banda atualmente

 

 

 

 

Guilherme, 1993, Minas Gerais. Nem crítico e nem jornalista, apenas apreciador. Como diria o Rob do Alta Fidelidade: 'Livros, discos, filmes - essas coisas importam. Me chame de superficial, mas é a verdade.