Você está feliz

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A palavra “felicidade” move a indústria da moda, da beleza e do comércio. Boas campanhas publicitárias não vendem meramente produtos, mas atacam (realmente atacam!) o público alvo com a promessa de que mediante determinado produto alcançarão a felicidade. Lembro-me de uma propaganda de refrigerantes em que ao abrir a latinha da bebida ouvia-se uma voz dizendo “abra a felicidade”. Seria muito simples atrelar o sentir-se feliz à possessão de bens materiais. O paradoxo que muitas vezes se impõe é a ironia de que pessoas com muito, não são necessariamente são as mais felizes. Logo, felicidade não está em produtos.

Surgem cada vez mais best-sellers de autoajuda que prometem levar a pessoa à verdadeira felicidade desde que siga determinada metodologia proposta. Particularmente não tenho paciência para esse tipo de literatura porque sempre me soa a um tipo de charlatanismo barato em que uma pessoa (supostamente) feliz tenta ensinar outrem a ser feliz da maneira dela. Estar feliz é como CPF: único e intransferível. Você pode até ler sobre o assunto, buscar uma inspiração, um exemplo, mas precisa adaptar e conjugar isso à tua personalidade. Logo, felicidade não é receita de bolo ou uma passo a passo único e universal.

Dias atrás comemorávamos o ‘dia dos namorados’. Muitas declarações de amor. Muita gente projetando no cônjuge a responsabilidade sobre sua própria felicidade. Tirânico isso, não? Podemos escolher pessoas para dividir alegrias, compartilhar agruras; mas imputar sobre alguém a responsabilidade de te fazer feliz é algo atroz. Essa ideia de romantizar (excessivamente) o amor é perigosa. Amor tem tristezas sim. E colocar a felicidade sobre as costas de alguém é muita irresponsabilidade própria, além de ser um exemplo claro de “burrice emocional” (contraponto de “inteligência emocional”). Logo, felicidade não vem de ninguém de fora, precisa estar dentro de você.

As redes sociais são fundamentais na construção contemporânea de “felicidade”, pois não basta estar feliz, é preciso registrar na internet e mostrar para os outros a tal “felicidade” mediante fotos, stories ou quaisquer tipos de postagem. Convenhamos, isso é um tipo moderno de escravidão. Dificilmente alguém é feliz sendo escravo: Colocar a própria felicidade nas mãos dos “cliques” alheios é colocar a chibata na mão do capataz. Logo, felicidade é algo do mundo real – não do virtual.

Os verbos ser e estar tem significados bem diferentes, embora os usemos de maneira tão equivocada. Costumamos dizer que somos felizes, quando na verdade, estamos felizes. Entender essa diferenciação é muito importante para compreender a vida como ela é, porque efetivamente ser feliz é humanamente impossível; enquanto que estar feliz permite-me entender que a vida tem altos e baixos. Qualquer pessoa pode estar passando por um momento bem difícil em sua vida e estar feliz. Estar feliz é apenas um dos inúmeros estados de espírito que alguém pode experimentar. Se perguntarem-me sobre minha facilidade, tranquilamente respondo que estou (ou não) feliz. Logo, é muita presunção alguém afirmar que a é feliz.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.