Vínculo emocional

Pergunte-me o nome de alguma celebridade da internet e o melhor que vais conseguir como resposta é um não sei, ou, com muito esforço um ou dois nomes, desses que se memoriza de tanto se ver em postagens de terceiros nas redes sociais. Gente com milhares de seguidores (inscritos em seus respectivos canais) que, sendo sincero, não faço ideia sobre como se transformaram nos fenômenos que são.

Ano passado queimei alguns neurônios pensando na possibilidade de criar um canal no Youtube. Fiz curso. Criei um pseudo “cenário” e até negociei com um amigo mais inteligente que eu, a edição dos vídeos. Porém, havia um problema: descobri que não tenho saco para curtir, seguir e acompanhar os canais de quem tem potencial para se transformar num futuro seguidor.

Eu seria, bem provável, o maior mentiroso de todos os tempos, se tivesse levado à frente o meu canal, pois, não acompanho, não conheço e não me interesso em saber o que dizem essas celebridades da internet. Raras são as vezes que consigo superar os trinta segundos de um vídeo no Youtube. Tenho completa ojeriza a todo e qualquer storie com conversas fiada de influenciadores digitais (ou, quem se acha um) no Instagram. Como poderia, então, manter um canal no Youtube se nem ao menos me interesso ou conheço ou tenho paciência para ver e acompanhar o que dizem e fazem essas divindades virtuais?

Impossível. Por isso, desisti ao natural.

O Amyr Klink — que não é nenhuma celebridade da internet — me ensinou que precisamos ter um vínculo emocional com aquilo que a gente quer fazer da vida. Ser um Youtuber ou um influenciador digital, definitivamente, não estavam na minha lista de coisas que quero fazer da minha vida — ou o que resta dela.

Há muitos anos li Cem dias entre céu e mar, livro do Amyr. Não recordo de detalhes, parágrafos ou frases, mas, lembro que a mensagem como um todo era — e sempre será — positiva, de superação, conquista de um objetivo, foco, etecetera. Se fosse para resumir em uma única frase, poderia, muito bem, dizer que Amyr Klink é um realizador. O tipo de pessoa que superou o status de mero sonhador para se tornar um realizador. É isso que está nas entrelinhas das palestras que ministra dentro e fora do país e do que escreve em seus livros.

Os livros de Amyr Klink já ultrapassaram a marca de 500 mil exemplares vendidos e ao longo das últimas três décadas são mais de 2.500 palestras proferidas, no Brasil e no exterior. (Flickr/Amyr Klink)

No período que antecedeu a primeira expedição para a Antártida, Amyr dedicou-se à criação de um projeto, em que estavam previstos e imaginados todos os problemas que ele poderia vir a enfrentar quando sozinho em alto mar e nos treze meses de isolamento, literalmente, encalhado em gelo maciço. Detalhe: nada do que foi previsto se confirmou. Na prática, surgiram outros desafios, que, segundo ele, só puderam ser superados, por conta de todo cuidado que teve detalhando a viagem no papel.

Longe de mim, a partir desse exemplo, querer insinuar que um canal bem-sucedido no Youtube ou a brilhante carreira de um Influenciador Digital careça, necessariamente, de um projeto detalhado até as entranhas como o que o Amyr fez para sua primeira ida à Antártida.

A propósito, atualmente Amyr Klink empilha mais de 40 idas viagens para o continente gelado. Acontece que para que isso fosse possível foi preciso a regularidade, a rigidez e a disciplina de três horas de remo, todos os dias, durante seis anos, das quatro às sete da manhã. De novo, para não deixar escapar: sonho.

O começo, o pontapé inicial está no sonho.

Eis o ponto.

A realização de um sonho não virá com um estalar de dedos, é fruto de muito trabalho, muito empenho e muitas noites mal dormidas, porque não? O sonho de Amyr Klink transformou-se num projeto de vida. Não sei mensurar que relação isso possa ter com meu fracasso — ou descoberta — em relação ao Youtube e a internet e seus fenômenos, como um todo, mas, sei lá, talvez fique bonito e clichê terminar assim — vai que alguém se identifique.