Uma piscina cheia de fraldas recheadas

Concluí que precisava xingar alguém, então, aproveitei a chuva para refletir sobre o conto de fadas. Melhor que isso. Sobre quem seria seu inventor. Há quem atribua o feito aos Irmãos Grimm e ainda quem se apegue ao fato dos primeiros registros do gênero datarem de uma antiguidade tão remota que, possivelmente, Platão — muito, mas muito antes da alegoria da caverna — ainda chupava dedo.

Se houvesse a quem apontar o indicador e despejar veneno pelo canto dos lábios, faria questão de exaltar uma meia dúzia de palavrões, não esses, tipo sacripanta e energúmeno, mas aqueles que não podem ou deveriam ser publicados e que vem sendo ditos quase à exaustão e com doses extras de ódio e revolta.

Revolta, aliás, é uma boa palavra para ajudar a compreender minha repulsa.

Se há quem enxergue justificativa racional para uma pessoa que se diz de bem chicotear ou arremessar ovos em outra, logo, minha raiva para com os contos de fadas e seu inventor, também é digno, ou não?

Palavrões pipocam na boca suja de todo mundo e, aparentemente, ninguém mais se importa com patacoada nenhuma. É um oba-oba generalizado. Tornaram-se tão lugar comum que nem mesmo os ouvidos puros das crianças os pais ou responsáveis tem se prontificado a tampar.

Os contos de fada são uma farsa. Essa é a verdade. A minha verdade. Não te peço para concordar ou discordar. Estou farto da tua opinião. Dos teus comentários anônimos espalhados por toda internet. Do chicote e ovos de um, da militância cega e exagerada de outro. Nunca estivemos tão próximos de confirmar a velha falácia do se A se jogar numa piscina cheia de fraldas recheadas por bebês fofinhos e bem alimentados com leite materno, todo restante do alfabeto — de B a Z — fará o mesmo.

Odeio os contos de fada.

Ponto.

Um amigo de adolescência abusou tanto do verbo odiar que cheguei a crer que, o eu odeio, tu odeias, ele odeia, nós odiamos, seria retirado do livros de gramática. Estava enganado. Tem horas que acho que só existe o verbo odiar e todas suas conjugações estão na ponta da língua de todo universo, prontinhas, para ganhar o mundo igual os bebês fazem depois de uma boa mamada.

Não odeie coxinha e/ou pão com mortadela, apenas os males que a ingestão exagerada de um ou outro pode causar.

Os contos de fada existem para que acreditemos no impossível.

São uma farsa pois nos fazem acreditar no que não é real. No mundo perfeito. Inexistente. Eu já acreditei nessas bobagens todas e aposto que você também.

Quando se é jovem, por exemplo, somos movidos pelos sonhos mais absurdos. Precisamos deles para não fraquejar. É período de afirmação. Depois de um tempo percebemos que talvez só manter os dois pés no chão não será suficiente.

No entanto, oscilar é natural e provável seja o que melhor ou mais façamos ao longo da vida. O problema, repito, são os contos de fadas. Eles estão em toda parte e não há aviso ou orientação sobre seu uso. Não existe um estagiário atrás da moita contando o tempo que você passa deitado no gramado verdinho e fofo dos sonhos, olhando para a formato das nuvens e rindo das ene possibilidades do dia de amanhã.

Você é aquilo que faz, não o que gostaria de ser.

Entre um militante irredutível de bandeira vermelha e um dito cidadão de bem simpatizante do porto de armas até que não seria de todo mal ser atacado pelo lobo mau ou beijar um sapo crendo que ele/ela vá se transformar num príncipe ou princesa, ou, vais me dizer que preferes seguir o rebanho até o inevitável mergulhinho na piscina cheia de fraldas recheadas por bebês fofinhos bem alimentados com leite materno?