Um dia acaba a paciência e a cabeleira

Na soleira da minha entrada para o segundo grau, além de esvoaçantes cabelos loiros que passavam do ombro, camisetas pretas do Iron Maiden e um tênis Reebok surrado, havia uma professora que chamávamos de “vassoura”. Não recordo se por muito tempo, mas cabia a ela a missão de, literalmente, enxotar os alunos que insistiam em permanecer em sala de aula no intervalo, normalmente aprontando alguma.

Claro, eu entre eles, embora sempre tenha sido um aluno de boas notas e comportamento digno. Costumo dizer que a verruga na ponta do nariz — ao menos do meu — foi a oitava série — hoje, nono ano. Nessa época, fui um dos alunos rebeldes que teimavam em permanecer em sala no intervalo, às vezes, atiçando um pobre colega, egresso de um anexo da escola que estudava, nitidamente com déficit de aprendizado e que além de não ter os dois dentes da parte superior de sua dentada, carregava na mochila um dicionário enorme, que volta e meia voava janela a fora, a exemplo de cuspes e outras coisas mais, as quais é melhor guardar em segredo.

Por essas e outras, lembro de uma vez em que vazou entre os meninos a informação de que uma colega — alguns anos a mais que todos nós e encarada por todos como a musa instantânea da turma, muito embora ela não tenha terminado o ano letivo conosco — guardava uma calcinha na mochila. Muito mais que a algazarra provocada, a simples menção à peça íntima minou, ao menos naquela manhã, qualquer chance de assistirmos a aula com alguma decência.

É provável que a professora “vassoura” tenha, uma vez mais, adentrado a sala no intervalo deste dia e nos feito descer, quase com o rabo entre as pernas, mesmo que pelas minhas lembranças, tenhamos — por instantes — nos apossado da peça íntima, minúscula, branca com detalhezinhos em vermelho e renda por toda borda. Qualquer semelhança com algum episódio de South Park não é mera coincidência. Éramos tão bobos quanto, talvez pela inocência ou pureza da falta de aparelhos celulares, que o máximo de recordação da minúscula calcinha foi ela dependurada por alguns minutos no ventilador de teto da sala.

Fato é que apenas lembrei-me desta professora em especial esta semana, pois, novamente estive imerso no universo escolar, e pude constatar ou comprovar ou alguma coisa do tipo, o quanto devíamos ser insuportáveis e difíceis de lidar. Meu Deus, não esquecerei tão cedo o semblante da diretora, a polvorosa de todos, o sinal a tocar, o vai e vem.

Sei lá por que razão nos tornamos mais exigentes com o passar do tempo, mas a partir dos 18 e depois os 20 e vinte e poucos e os 30 e assim por diante, simplesmente, aquilo que se costuma chamar de amadurecimento, torna-se também sinônimo de seleção e South Park apenas o desenho cult que você assiste nas horas vagas porque não tem filhos e nem paciência para a TV aberta.

Com o tempo você também acha conveniente escolher os locais aonde ir e permanecer. Bem diferente dos tempos de cabelo longo, camisetas com estampas do Eddie, tênis sujos e professora “vassoura”, quando este era o melhor resumo possível do seu universo particular e os vinte e poucos e 30 anos pareciam pontos inalcançáveis.

Numa bela noite você simplesmente não suporta mais sentar ao lado de um grupo de adolescentes falando alto, percebe que não tem paciência para permanecer por muito tempo dentro do ambiente escolar e que cabelos longos, hoje, é quase uma mentira porque no teu tempo não havia celulares, nem selfies e por isso, quase nenhum registro que provem a existência da cabeleira.