Um beijo para não esquecer jamais

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O acaso fez com que nos sentássemos, um do lado do outro, na sessão de autógrafos da última segunda-feira, no Dado Bier. Não haviam nomes colados no acolchoado das cadeiras ou sobre a enorme mesa de madeira em forma de C ou U, isso, claro, a depender do ângulo ou perspectiva de quem observava a movimentação toda.

A senhora que se aconchegou a minha esquerda rendeu, talvez, a melhor e mais marcante lição, dessas que nem no mais perfeito sonho poderia supor que um dia viveria, talvez, comparada à quando, por duas horas, conversei com uma das setenta e sete brasileiras que em 1944 defenderam o país na Segunda Guerra Mundial. Não, especificamente, da parte daquela sentada a minha esquerda, mas dos que foram a sessão de autógrafos por sua causa. Desnecessário conhecer a real idade, basta que imaginemos, e somos bons nisso, calcular com base exclusiva na aparência.

A surpresa acontece quando menos se espera e, talvez, tivesse escolhido outra cadeira para sentar, as impressões sobre aquela noite seriam outras. Entre autógrafos, parentes, amigos e desconhecidos, um grupo de três amigas em idade escolar, uma outra senhora, orgulhosa, entregou o livro para aquela à minha esquerda assinar. Sorrisos no rosto. Abraçaram-se. A que esperava pela dedicatória, sem rodeios, saiu-se com o que segue e, possível, o colega da direita e outros próximos tenhamos ouvido o mesmo:

— Ela é minha filha.

A senhora que autografava era filha da senhora que pedia o autografo. Ambas, orgulhosas, radiantes, felizes. Eis, a surpresa. Em uníssono, e foi assim, a parabenizamos. Quem ouviu e não poderia ter sido de outra forma e pouco importa se o livro em questão é sobre e para adolescentes. Mãe e filha rompendo barreiras, preconceitos, pois, ao menos a mim, aquilo pareceu inimaginável. Surreal, até. Em muito, por preservar pensamentos tacanhos, como se na terceira idade fosse proibido existirem mães e filhos, gozando a vida de modo tão pleno quanto os muito mais jovens que eles (as).

Se a novidade conseguiu o efeito de contagiar para o bem, o melhor ainda estava por vir, pois, tão radiante quanto, salvo engano, entre assovios, desta feita um senhor de cabelos tão brancos quanto uma folha de papel sulfite ou o cavalo de Napoleão, também solicitou a colega a minha esquerda que autografasse seu exemplar e, em seguida, despejou do modo mais simpático que há, um ramalhete de flores sobre a mesa.

— Pra você meu amor.

Mãe, filha e esposo. Em minutos vi, materializado ao meu lado, uma completa definição de amor, quiçá, para me fazer refletir tendo em vista a crônica passada, não sei. Há sonhos que demoram a se concretizar. Décadas, quem sabe. Eu não sei o que me espera o dia de amanhã, mas tenho convicção que a experiência da chuvosa noite de 23 de julho de 2018 fará o favor de me acompanhar por muito tempo. Posso soar exagerado, mas as vezes é preciso que sejamos dispostos à sutilezas como essas para compreender que há muito o que fazer e o que realizar. O tempo é um mero detalhe e, mais dia, menos dia, ele pode nos surpreender.

Ontem, uma das mulheres que mais quis que se tornasse um grande amor disse estar disposta a esperar o tempo que for possível para que consigamos colocar todos os pingos nos is da nossa história, incluso, o que não vivemos. Não sei o que dizer, o que esperar, nem se é possível esperar. Lembrei que ao se despedir da filha, a mãe virou-se para mim e disse:

— Não posso ir embora sem antes te dar um beijo.

Um dos melhores beijos que ganhei, assim, espontaneamente, sem dúvidas. Desses que se guarda na esperança de que no amanhã, tenhamos chance de fazer diferente, corrigindo nossas falhas e tentando ser, ao menos um pouco, melhores do que somos hoje.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.