Um bêbado que não acerta a chave na fechadura

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Quando visitei a capital argentina tinha duas missões: comer um tradicional bife de chorizo e conhecer o mítico estádio do Boca Juniors. O que viesse além disso seria como um regalo, um brinde, aquele pãozinho com chimichurri que os restaurantes argentinos servem de entrada e que na primeira vez te deixam com cara de bobo, na dúvida entre chamar o garçom e torcer para não ter uma surpresa quando chegar a hora de pagar a conta.

Ir a Buenos Aires e não ir à La Bombonera é como ir ao Egito e não visitar as pirâmides.

Você não vai à São Paulo para fazer uma tour pelo estádio do Palmeiras. Talvez inclua o Pacaembu por conta do museu do futebol, mas, olhe lá.

La Bombonera, pelo contrário, é atração turística.

Parte do itinerário.

Se bem me lembro, o português foi a língua que mais ouvi nas ruelas circunvizinhas à imensa “caixa de bombons” azul e amarela, independente, do quão próximo o estádio esteja do Caminito, outra parada obrigatória em se tratando de Buenos Aires.

Por mais que roguemos um ódio estúpido em relação à Argentina, grosso modo, parece que sentimos prazer em mantê-los próximos, quem sabe, desejosos de um dia conseguirmos compreender os porquês que nos fazem tão convictos em relação a esse sentimento. Pergunte para quem quer que seja — para si mesmo, talvez —, “por que você odeia tanto os argentinos?” e provável o máximo que vais conseguir em resposta é um “porque sim” meio constrangedor, uma vez que não há, de fato, justificativa plausível para tamanha birra.

Logo após o vareio croata pela segunda rodada da Copa da Rússia um sentimento quase libertador tomou conta de uma parcela considerável dos brasileiros, como se aquilo, a derrota, o fracasso argentino, fosse uma espécie de prêmio de consolação e nós, com o dedo indicador apontado para milhares de fuças borradas de lágrimas e tinta guache azul celeste repetíssemos, com voz infantil: “bem feito, bem feito, bem feito”.

O cobrador do ônibus que pego todas quintas repetiu o resultado de três a zero para todos passageiros que passaram pela roleta. Aposto que se pudesse abriria a janela para gritar vai tomar naquele bendito lugar Argentina, Messi e companhia. A propósito, Lionel é a personificação da passividade, dotado de carisma zero é como um maestro que nunca compareceu aos ensaios da orquestra e tem certeza que sozinho dá conta do espetáculo. Na arquibancada o antigo regente da companhia, Don Armando, precisa de amparo e passa a impressão que a qualquer momento irá desfalecer ou protagonizar alguma bizarrice, como dar o dedo para a torcida adversária e no momento seguinte dançar com uma nigeriana como se nada tivesse acontecido.

A Seleção da Argentina é tipo aquele bêbado que ao chegar em casa — sabe se lá como — decide dormir com os cachorros porque não conseguiu acertar a chave na fechadura.

 

Está sempre por um triz.

 

No limite.

 

Há tempos deixou a condição de seleção para se transformar naquele time de bairro que se reúne somente aos fins de semana e joga por uma grade de cerveja. Ficaram no quase nas eliminatórias e na fase de grupos da Copa, não conquistam um título com a seleção principal há mais de vinte anos, internamente, o país está numa pindaíba (qualquer semelhança com o que anda acontecendo no nosso próprio quintal não é mera coincidência), no últimos 15 meses três greves gerais foram realizadas em protesto à política econômica de Maurício Macri.

A seleção deles é como o Boca Juniors ou o River Plate e talvez isso nos incomode tanto já que o escrete canarinho está longe de sequer se assemelhar a Flamengo, Corinthians ou qualquer outro time de brasileiro de massa. Onde quer que eles estejam é como se estivessem dentro de La Bombonera, já nós pagamos aluguel para os ingleses e batemos palmas para um Maracanã padrão FIFA com cópias autorizadas na Rússia e, dentro em breve, no Catar.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.