Um alemãozinho de cavanhaque, um coice na canela, o não gostar e o preconceito

Anteontem, comentei numa conversa em vídeo pelo whatsapp, o quanto eu era e já fui preconceituoso. Isso lá pelos idos da graduação, que agora, posso oficialmente chamar de primeira, porque breve darei início à segunda. Falava da minha apresentação para a turma, no primeiro dia de aula, véspera da folia de momo e, grosso que só:

— Meu nome é Anton e não ousem me convidar para o Carnaval.

(Bom, foi mais ou menos desse jeito)

Assim como um coice na canela, bem esses, que deixam a perna roxa por alguns dias.

Não lembro quem era o professor, nem da cara que ele ou ela fez, mas é muito provável que tenha ficado assustado. Também pudera, do nada, um dos seus novos alunos, assume um ódio sem justificativas em relação ao Carnaval, logo o Carnaval.

Não fazia e — ainda não faz — sentido nenhum.

Os colegas todos, isso tenho certeza, ficaram assombrados.

Primeiro, todas as atenções se voltam para o alemãozinho de cavanhaque, humm, quem é esse galego ai? e logo depois, pá, esse mesmo alemãozinho de cavanhaque dispara um coice de mula empacada capaz de, no mínimo, provocar uma reação do tipo Meu Deus, quero distância eterna de você ou Cruz credo, esse cara acha que tem o rei na barriga.

O alemãozinho de cavanhaque, que, a propósito, é bem este que vos escreve, tornou-se grato, e muito, pela conjugação do verbo viver ser entrecortada por um dia e depois uma noite e vice e versa e por ter tido a chance de perceber o quão rasa foi sua atitude à época, carregada do mais vil e tacanho preconceito.

Gratidão, também, óbvio, por ter tido oportunidade de fazer com que nenhum dos colegas (ao menos é o que o alemãozinho de cavanhaque acha, né!) sentisse vontade de querer ou desejar distância eterna de minha pessoa ou ainda achar que sou do tipo que tem o rei, literalmente, na barriga.

Veja bem: eu fui e talvez ainda seja, de algum modo, preconceituoso, mesmo que não consiga, muitas vezes, perceber ou me dar conta.

E as vezes é importante que saibamos distinguir o não gostar do preconceito.

Quanto mais atenção damos ao que se passa, seja no mundo real ou nos confins mais sombrios do ciberespaço — fazia anos que não usava esse termo — mais é possível flagrar atitudes e comentários preconceituosos atirando para todos os lados e direções, muitas vezes, mas muitas mesmo, camufladas sob o pretexto da opinião.

Está em toda parte.

Não é preciso ir muito longe para perceber.

Tente.

Vá.

Aliás, é nessas horas — ou, deveria ser — que temos chance de olhar para o próprio umbigo e fazer uma autoanálise. Okay, há, hoje, uma contracorrente em busca de erradicar todo e qualquer tipo de preconceito da face da terra. E olhe, não é sem tempo viu?

Não quero justificar, que fique bem claro, os erros de ninguém, tampouco os meus. Eu sei o quão preconceituoso eu fui e ainda sou em relação a algumas coisas, e bem por isso, procuro melhorar e avaliar o que posso fazer para contornar determinadas situações, principalmente quando num primeiro momento não percebo que os pensamentos que nutro sobre algo estão carregados de preconceito. Continuo não morrendo de amores pela festa momesca, mas aprendi que é, no mínimo, uma falta de respeito agir do modo que agi, incoerente e agressivo.

É mais ou menos como você chegar pela primeira vez na casa de alguém e fazer xixi no tapete da sala para demarcar território. Nem seu animalzinho de estimação fará uma coisa dessa, então porque cargas d’água você fará?

Minha saudosa mãe sempre dizia: respeito é bom e eu gosto. Ora, todos gostamos e todos merecemos. É só uma questão de hábito. De bons hábitos. Eu posso, muito bem, continuar não sendo o maior fã do mundo de Carnaval, mas, se for convidado, entre aceitar e dizer não, no mínimo, serei capaz de responder ao convite de maneira elegante e respeitosa.

Não dói, vai por mim, aquele que um dia já foi, tão somente, um/o alemãozinho de cavanhaque.