Todo e qualquer momento revolucionário que tenho na vida acontece nos lugares menos poéticos

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Comecei 2017 pensando¹: “Poxa, quais livros que o pessoal irá gostar de ver aqui? Qual estilo amam mais? Será que estão curtindo? Esta contribuição os faz vir até aqui só para conferir a coluna? Quantos textos preciso produzir para ficar tranquila alguns dias? Será que vou passar todos os feriados até abril trabalhando de novo? Qual é o horário da minha tutoria mesmo? Preciso terminar aquele curso do terceiro setor… Putz, trinquei meu relógio de pulso, vou ter que acordar amanhã cedo e ir no centro. Affs”.

E assim terminei minha última semana de janeiro, julgo, última semana de férias da Immagine e a primeira semana no meu trabalho formal. Depois de vários dias fora e de cabeça para a lua parece que perdemos a conjuntura e o ritmo.

Olhar o calendário já me proporcionava algum tipo de gastura. Fixada nas datas e prazos, tentava visualizar o que será da minha vida uma vez que calculo tudo em horas. Horas que preciso para isso, horas que gastarei para fazer aquilo e, como encaixarei tantos compromissos, desejos e sonhos em míseras dezesseis horas diárias².

E assim, em meio a uma crise do que fazer primeiro que cheguei ao nosso livro desta semana, um livro repleto de crises:

Tá todo mundo mal – O livro das crises

Autor: Julia Tolezano da Veiga Faria
Editora: Companhia das letras
Páginas: 196
Preço: R$16 – 30,00

Julia Tolezano da Veiga Faria nasceu em 1991, em Niterói, Rio de Janeiro. Fez jornalismo na PUC-RJ e alguns outros cursos brevemente com a desculpa de que “ser criativa e gostar de escrever eram boas justificativas para fazer mais um curso do qual ‘ela’ não gostava”. Apresento a vocês, Jout Jout, prazer.

Algumas ressalvas precisam ser colocadas sobre esta leitura:

  1. Para quem é chegado em crônicas.
  2. Aos que estão procurando de uma leitura leve. Muito. Leve.
  3. Ou aqueles que desejam iniciar 2017 com estilos literários novos.

O livro ‘Tá todo mundo mal’ é mais um livro de crônicas como tantos outros que existem por aí. Escrever que ele possui algo grande e avassalador, diferente de todos os outros que li seria uma grande mentira. Quero ser sincera com vocês. O que me fez traze-lo hoje aqui foi meu simples gosto pessoal. Eu gostei dele. E ponto.

Acredito que a leveza de como escreveu sobre alguns assuntos ‘meio tabus’ tornou a leitura engraçada ao mesmo tempo que te mostra o quanto temos padrões pré estabelecidos nas pessoas e suas decisões.

“… Eis que chegamos no sensível ponto que afeta toda pessoa que gosta de alguém do mesmo gênero que é: a lenda de que essas pessoas se atiram em qualquer ser do mesmo sexo para fazer um sexo gostoso no meio da rua, sendo esta vitima gay ou não. Uma lenda, claro…  Ela mostra toda sua revolta com a suposição de que ela iria se interessar por qualquer mulher que cruzasse seu caminho. No final de seu discurso, fala: – Você acha que eu vou olhar para a sua mãe e ficar (insira aqui uma simulação de siririca bem enfática). Nós rimos por duas horas. ”

Como todos os livros de crônicas, as histórias escritas por Jout Jout são sobre algum momento de sua vida desde adolescente até a fase adulta. O comum entre todas elas é o que se espera de um livro neste formato: o aprendizado. E são estes aprendizados e total sinceridade sobre os fatos e sentimentos que me fez criar um amorzinho por esta obra. E quem sabe, desejar que mais adiante ela continue a escrever.

O título de todas elas começam com “a crise”. E assim temos 46 crises, das mais diversas tolas problematizadas a questões um tanto sérias-‘inhas’ – inhas para deixar claro que não será seu livro psicólogo – o livro mantém a leveza em meio a passagens que te tira sorrisos de canto de boca até aquele riso que sai meio que pelo nariz.

Temos ‘a crise de quando fui cadeira’, ‘a crise da ausência de talentos’, ‘a crise do agora não dá’ e ‘a crise de não saber lidar com a morte’ que é tão direto como deve ser: morte é foda. Pensando em como eu poderia escrever sobre ‘a crise da liberdade tardia’ chego à conclusão que todas nós – mulheres – estamos presas eternamente em um ciclo vicioso de nos esconder. O prazer de uma libertação tardia quanto ao nosso corpo é revelador.

“… Pensei em todas as vezes que peguei um casaco, uma manta, um cachecol ou qualquer pano que estivesse à mão para poupar o mundo das minhas celulites… Pensei em como passei pelo menos dez anos repetindo este movimento… É engraçado como chegamos a conclusões muito diferentes quando questionamos um costume que já está arraigado em nossas entranhas. ”

Ou ‘a crise de ausência de talentos’. Quem nunca se viu rodeadas de amigos cheios de vocações extraordinárias – ao menos para você – e se sentiu o cocô do cavalo do figurante? É… Uma comparação amigável do que você sabe fazer versus o que seus amigos sabem fazer já é um motivo de crise. “A questão é que, enquanto todo mundo parecia ter uma verdadeira vocação, ou pelo menos alguma facilidade para alguma coisa, eu me via em frente a um computador assistindo séries sem fim para esquecer o fato de que eu não tinha vocações”.

E assim, o livro Tá todo mundo mal vai te apresentando as neuras de uma pessoa em seu cotidiano tirando grandes sacadas delas, ou não tão grandes assim, fazendo na mesma proporção refletir sobre detalhes miúdos que de alguma forma te moldaram ao que és hoje.

Com menos de 200 páginas, a leitura é rápida, gostosa e na maioria das vezes engraçada. Você não encontrará aqui crônicas profundas e cheias de incógnitas. É para dias leves. É para sair do cotidiano. Mudar um pouco o rumo das coisas.

Obs.:

¹ Quando se está de férias no mês de janeiro, o ano só começa após o término da mesma. E o relógio foi para cirurgia.

² Nem vem questionar minhas oito horas de sono.

³ Entrei em crise sobre a minha profissão enquanto devorava o livro. No fim, não passou de um: será que é isso mesmo que eu quero? O bom é que a resposta foi afirmativa e tudo voltou a ficar ok. Como escreveu Jout Jout “talvez – e Deus queira que sim – esse tabu só esteja na minha cabeça”.

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Teimosa de doer e de personalidade forte, eu sou a Caroline e evito pronunciar meu sobrenome completo porque nunca acertam. Amo demais o meu trabalho e a rotina louca que todos os meus compromissos me proporcionam. Livros, gato, whisky, vinho e o churrasco do papai são minhas paixões.