Tão exibido quanto

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Eu queria dizer, do fundo do meu coração, que eu não quis ver o piercing que ela tinha no umbigo. Tinha acabado de terminar a leitura de um conto de Raymond Carver e ainda refletia a respeito, quando ela entrou no vagão do metrô, e, por não ter lugar melhor para se acomodar, parou diante da porta, quase em frente de onde estava sentado.

É claro que minha atenção poderia ter se voltado para os joelhos, também libertos, pois a calça jeans que usava continha dois rasgos, um em cada perna. Mas, não, meu olhar decidiu que aquele umbigo e piercing era o ponto onde deveria repousar.

Minha visão era privilegiada, preciso admitir. A blusinha que vestia era laranja e ela ainda usava um colete jeans, de mangas esfiapadas. Os cabelos estavam presos com um rabicó também laranja, usava óculos de sol com lentes reflexivas, e não, não vi seus olhos.

O tênis que calçava era branco e estava limpo, de maneira impecável, diga-se. Pelo fechecler, entreaberto da bolsa era possível ver um pedaço mínimo de papel A4, o qual, deduzi posteriormente, ser parte do seu currículo. No trajeto de duas, talvez três estações, ela não parou um minuto sequer de conversar com outra pessoa, uma garota, mais jovem que ela, mas, que por estar de costas para mim e pela movimentação dos outros passageiros, não me chamou tanta atenção assim.

Aliás, é exatamente sobre chamar atenção que esses parágrafos tratam. Eu não consegui em nenhum momento desde que ela entrou no metrô tirar os olhos do seu umbigo e do piercing que lá estava. Era um piercing exibido, isso sim. Exposto. Escancarado e suplicante de alguém que o adorasse. Arrisco que qualquer um sentado na posição em que eu me encontrava também ficaria hipnotizado, pelo umbigo, pelo piercing e, claro, pela junção harmoniosa e perfeita de ambos.

Aqueles minutos que valeram o dia, a semana, quiçá, o mês inteiro me puseram a lembrar de uma vez, em que me disseram que devia provar do beijo de alguém com piercing na língua.

— Cara, tu precisas beijar alguém com piercing na língua, é surreal, coisa de outro mundo. Não vai querer beijar outra boca nunca mais.

— Sério? É tão bom assim?

— Prova cara, tu não vais se arrepender.

Bá, eu devo ter ficado tão inebriado com aquilo que, por pouco, não saí a caça de uma pessoa com piercing na língua para beijar. Provar. Ter. Acho que fiquei tão embasbacado com a vil possibilidade de um beijo surreal e de outro mundo que, mesmo vasculhando as mais íntimas memórias, não consigo, de modo algum, recordar se, de fato, beijei ou não alguém com piercing na língua um dia.

Acho que não. Se não me lembraria, afinal, teria sido um beijo surreal, de outro mundo e nunca mais haveria de querer beijar outra boca, sei lá, uma boca normal, com lábios normais e uma língua sem um pedaço de metal esterilizado enfiado lá no meio.

Continuei, tão hipnotizado e sem conseguir desviar o olhar daquele umbigo e piercing que por pouco não percebi sua saída do vagão. Antes ela ainda mexeu na bolsa, no papel A4, como uma última conferência para se certificar que estava tudo lá. A outra garota, que até então, não passava de uma reles passageira do trem se despede:

— Boa sorte — diz.

E, então, ela sai do vagão, do trem, do metrô, da minha vida. Ela, o umbigo e o piercing. Cogito retirar o livro do Carver da bolsa, retomar a leitura, pensar em outra coisa. Passageiros entram, passageiros saem. O trem, enfim, chega a estação, a minha. A outra garota continua lá e pela primeira vez, desde que ambas entraram no vagão, tenho a chance de vê-la de frente.

Eu que já andava pesaroso, tentando confabular um cenário crível para a garota — primeira — de piercing no umbigo, e, quase, desejando boa sorte também, de repente me pego sem conseguir o sorriso, que escapule, escapa, transborda. A outra — segunda — também tinha um piercing no umbigo, tão exibido quanto o anterior, tão exibido quanto.

 

***

Minhas escusas ao leitor que se sentiu incomodado com as TREZE vezes que utilizei a palavra piercing essa semana — ops, CATORZE. Prometo me conter da próxima vez, basta que não sejam tão exibidos.

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.