Tanto quanto

O feriado de São João começou, ao menos pra mim, com uma pergunta, até certo ponto, constrangedora:

— Quem é Cristiano Araújo?

Por um instante cheguei a suspeitar que fosse eu o único a não conhecer o cantor, desaparecido em um acidente automobilístico na madrugada daquele mesmo dia no interior do Estado de Goiás. Quando me deram a notícia até fiz cara de espanto e tentei, de todo jeito, encontrar alguma referência mental que me fizesse, ao menos, não soar tão deslocado e insensível diante do fato.

Não adiantou.

Só fui descobrir quem era ele via redes sociais e, mais tarde, porque resolvi trocar de canal e assistir o programa do Datena na BAND — aliás, o único canal da TV aberta que ainda assisto esporadicamente. Olha, preciso confessar: 10 minutos foram suficientes. Talvez porque lá pelas tantas um entrevistado comparou o acontecido com o sertanejo ao ocorrido com os Mamonas Assassinas, 20 anos atrás.

Sim. Ipsis leteris.

Lembro que naquela ocasião o país parou para ver o cortejo fúnebre e acompanhar o enterro do quinteto. Soube que ocorreu o mesmo agora na despedida ao cantor sertanejo, com direito a Rede Globo de Televisão cancelar a tradicional Sessão da Tarde para cobrir o pós-morte do músico.

Da primeira vez, adolescente que era, embarquei na onda de comoção e chorei, provável que ainda anestesiado por ter assistido a um show do grupo cerca de um mês antes da tragédia. Desta, resguardei-me a insignificância do silêncio e do respeito, embora, também ao direito particular de questionar os critérios e circunstâncias que tornam um artista/celebridade — seja ele quem for — capaz de gerar tamanha comoção, ou mesmo, de forçar uma gigante da comunicação a modificar sua grade de programação em função de sua inesperada passagem.

Impressiona e assusta o poder invisível da televisão e agora das redes sociais e aplicativos de celular, em massificar e moldar uma informação ao seu bel prazer.

Porque de um lado somos quase obrigados e hipnotizados a crer que Cristiano Araújo e os Mamonas Assassinas eram o suprassumo e talvez a tábua de salvação da música brasileira, fazendo-nos imbecilmente crer que devíamos ter dado oportunidade a eles quando ainda eram vivos e por isso preservar na ponta da língua a letra de “Bara bara” ou a melodia de “Pelados em Santos”.

E de outro, retrocedemos a tempos imemoriais de batalhas até a morte em coliseus, e assim, rindo e arfando como fanáticos, gritos histéricos e braços arqueados aos céus, compartilhamos as imagens da tragédia do segundo, tendo a plena certeza que só não fizemos o mesmo com o primeiro porque há 20 anos não havia como, a não ser para um grupo seleto de acesso à internet e sites de gosto duvidoso.

De todos os ângulos, ao longo dessa semana, senti-me um completo imbecil.

Tanto quanto aqueles todos que compartilharam as fotos e vídeos do sertanejo no IML;

Tanto quanto os responsáveis pela programação da TV aberta brasileira;

Tanto quanto todos que desaprenderam o significado da palavra respeito e se acham suficientemente capazes de propagar suas opiniões pelos quatro cantos doa a quem doer, tanto quanto nossos ancestrais bestializados nas arenas assistindo a carnificina dos gladiadores;

Tanto quanto a Fátima Bernardes, que matou um jogador de futebol.