Expulsar para nascer

Faz um pouco mais de três horas que foi expulsa do aconchego do ventre materno minha recém-nascida afilhada. Não lastimo sua expulsão da madre, visto que ela estava sendo ansiosamente aguardada aqui pelo pessoal de “fora”. Lastimo que ela chegue num tempo difícil e, por mais que eu queira ser positivo, penso que o porvir não será nada fácil. Então, dou-me conta de que respiramos ares natalinos e de certa forma me sinto alentado.

Natal é a celebração do nascimento, da vida que se renova, da vida que é expulsa para tornar-se íntegra. Natal, para a Cristandade é a festa do nascimento do menino Jesus, o messias aguardado pelo povo. É a festa da expulsão do menino-Deus dos altos céus para vivar menino-humano no meio da miséria humana.

Há que aprender a expulsar para nascer. Expulsar é abrir espaço para o novo. É gerar a possibilidade de transformação e renovação. Dever-se-ia cultivar tal hábito durante o ano, durante a vida como um todo.

Expulsar dos armários tudo que é supérfluo e doar peças para quem precisa… Gera-se vida para quem doa e para quem recebe. Chegar as estantes e passar adiante livros para quem tem sede de leitura… Abre-se possibilidade de novas leituras para quem doa e para quem recebe. Abrir gavetas e distribuir aqueles brinquedos que simplesmente estavam guardados… Gera-se alegria para quem doa e para quem recebe.

Final de ano é oportunidade para uma expulsão geral de tudo o que é ruim e foi se acumulando nos dias vividos. Por uma questão de re-nascimento, há que se expulsar pensamentos nocivos da cabeça e sentimentos ruins do coração. Talvez seja o processo mais difícil, porque temos uma necessidade muito grande de apegar-nos ao que nos faz mal (acredite, é verdade). Não queremos expulsar certos pensamentos, por uma questão de “honra” ao nosso rancor. E, toda vez que acumulamos ao invés de expulsar… morremos.

Por isso, querida Elena, já que o futuro não promete facilidades, lembre-se de expulsar para nascer. Faça jus ao teu nome: como tocha expulse sua luz para iluminar os dias de escuridão. Feliz Natal para ti Elena e para todos que desejam (re)nascer!

 

 

Nascer

Arrepiei-me ao ouvir o áudio dos batimentos cardíacos do pequeno bebê gestado por um casal de amigos. O pai fez a gentileza de me enviá-lo. Na profundeza uterina, uma nova vida despontava. O anúncio de tal gravidez não veio em momento oportuno. Doença na família, crise financeira e uma enxurrada de problemas pessoais, familiares, coisa que se espalhou pelo país inteiro. O anúncio da nova vida deu-se na reta final deste ano o que me fez ponderar muito. Talvez essa seja a dicotomia mais irônica: terminar um ano, celebrando o nascimento.

Terminamos muitas coisas ao longo desse ano. Em boa parte, enterramos a dieta que não deu certo, o relacionamento que nos decepcionou e feriu. Sepultamos pessoas que amávamos – porque a vida também engloba a morte. Sou do tipo que se entrega à melancolia de avaliar o ano vivido. Não é um processo triste. Acredito no que Fernando Pessoa, poeta português, dizia: “melancolia é a alegria de estar triste”. E se pudesse definir o que significou 2016, diria que houve muita tristeza revestida de alegria ou muita alegria com nuances de tristeza. O ano não foi fácil para ninguém.

E qual a novidade disso? A vida nunca é fácil. Dadas as festividades dos cristãos, penso na realidade do nascimento do menino Jesus. Aquele casal de galileus gestando um bebê numa época de crise. Sem rumo, sem amparo social, verdadeiros refugiados em terras estranhas (e não venha me dizer que a crise de refugiados é algo do século XXI) largados numa estrebaria para o nascimento de uma criança. E de novo: a vida irrompe de onde menos se espera. O bebê nasce na imundície de um estábulo. Pois é, a vida é irônica. A vida gosta de nascer onde o terreno é árido.

O Natal em parte nos lembra de que a vida nunca está pronta, mas de que no meio de todas as intempéries ela insiste em nascer. E é assim que a vida renasce: prometemos no réveillon a nova dieta, voltamos a nos apaixonar e acreditar no amor. Conhecemos novas pessoas e fazemos novas amizades. Eu creio que a vida precisa nascer constantemente. Não é um pensamento fácil de se cultivar com tantas vozes negativas e pensamentos cheirando a gorgonzola. Mas é isso que dá sentido à vida – saber que as tristezas e as dificuldades não são eternas. E mais: descobrir que da dificuldade é que nasce a oportunidade. Que das cinzas veem o broto… Da lágrima brota o sorriso… Da dor do parto vem a vida!

Desejo que os batimentos do coração da pequena criança nos lembre de que enquanto o coração bate a vida sempre nasce. Feliz Natal – como costumamos dizer e nos cumprimentar por esses dias – que possamos nascer para uma nova vida no fim deste velho ano.