Drive

Uma das melhores e mais rápidas leituras que fiz esse ano, “Drive”, de James Sallis, é um prato cheio para amantes de histórias sobre crimes, ambientes sujos, personagens enigmáticos e carros, muitos carros. O Piloto, personagem principal cujo nome nunca é revelado, é o centro da história.

Ele, que costuma dizer que “apenas dirige”, é o melhor no que faz. Durante o dia, trabalha como dublê de filmes. À noite, faz serviços fora da lei. E ele deixa bem claro que sua única função é conduzir o veículo até o local, esperar o ato e fugir dali. Só que tudo desanda quando um dos assaltos não ocorre como esperado e, a partir daí, a trama gira em torno do Piloto tentando salvar a sua própria vida.

Seguindo uma linha do tempo não-linear, a estrutura pode deixar o desenrolar dos acontecimentos meio confuso a princípio, sendo necessário retornar algumas páginas em certos momentos para compreender melhor em qual parte do tempo determinado capítulo está. Porém, isso não atrapalha o entendimento da história. E alguns deles centram-se em outros personagens, como o Doutor e o vilão, Bernie Gold, o que deixa o livro ainda mais interessante.

O texto possui um vocabulário bem coloquial, cheio de gírias, palavrões e um humor negro bastante refinado. Os locais são bem detalhados, e o leitor, de certa forma, entra no ambiente. E por se tratar de relações entre personagens cujas atitudes são bem questionáveis, o teor de algumas cenas é de bastante violência.

Assim como o livro que falei sobre no último texto, “Drive” também ganhou uma adaptação (bem elogiada e vencedora de prêmios, por sinal) para os cinemas. Ryan Gosling fez o papel do Piloto e, apesar de achá-lo um bom ator, sua atuação não me convenceu e as mudanças da adaptação em relação ao livro me incomodaram. Entretanto, a película é de uma fotografia e direção impecáveis, lembrando muito a estética de filmes noir.

Falando em modo particular, até tento, não consigo desassociar a obra literária da cinematográfica. Logo, o filme não é tão brilhante quanto o livro. Se o leitor consegue fazer tal distinção, os dois serão de todo agrado.

Poperinge

Bom dia!

No meu último post eu dei uma introdução sobre a Bélgica. Hoje quero introduzir uma cidade que conheço muito bem, tanto por ser a minha cidade natal onde meus pais ainda moram, quanto por ter trabalhado 8 verões no escritório de turismo da cidade. A Poperinge é bem pequena, e com certeza não aparece nos livros de turismo mais geral sobre a Bélgica, mas espero que com este post eu consiga convencer vocês que na verdade vale bastante a pena  visitar!
A Poperinge fica na fronteira com a França, 2 horas de trem do capital Bruxelas. O centro da cidade conta somente 12.000 habitantes, e junto com as vilazinhas em volta, tem um total de 21.000 habitantes. Então é pequeno, mas por ser bem cuidada, dá um ar de cidade mesmo, em vez de vilazinha. No centro tem uma praça central com barzinhos, tem umas ruas com lojas e mais barzinhos, e tem um parque da cidade bem nova ainda. Mas claro, tem cidades suficiente onde acha tudo isso. O que destaca a Poperinge e dá algo a mais à cidade, são estas duas duas características:  os campos de lúpulo e a história da primeira guerra mundial. Além disso, os visitantes sempre ficam encantados com a natureza em volta da cidade.

1. Lúpulo (e cerveja)
Para quem não conhece, o lúpulo é uma planta trepadeira, que começa a nascer na primavera e que é colhido em setembro. Já que é uma trepadeira, a paísagem da Poperinge é marcada por construções assim:

Uma construção para deixar crescer lúpulo

A partir de julho a planta começa ficar no tamanho máximo e começa a crescer uma florzinha, bem diferente e bonita:

Um campo de lúpulo

 

A flor do lúpulo

Esta flor tem um cheiro bom, então na hora da colheita, durante qual as flores são separadas (depois de tirar as plantas das construções), dá para sentir um cheiro bem gostoso passando do lado de uma fazenda de lúpulo. As flores são vendidas para cervejarias, que usam o lúpulo para dar sabor à cerveja.

Não tem mais muitas plantações de lúpulo na Bélgica, na verdade a Poperinge é uma das duas regiões que ainda tem estes campos. Assim temos bastante orgulho desta planta: o desenho da flor é o símbolo da cidade, a nossa cerveja mais famosa da cidade se chama “Hommelbier” (“cerveja de lúpulo”) e cada 3 anos temos um fim de semana de “Festas de lúpulo”, com um desfile no centro e bastante cerveja!

O desfile durante as “Festas de lúpulo”

 

Hommelbier, a cerveja típica de Poperinge

Falando sobre cerveja, a Poperinge tem mais uma cerveja bem famosa, produzida na vilazinha Watou que fica no território de Poperinge: Sint-Bernardus. Esta cerveja é conhecida pelo sabor muito bom, o que não é surpreendente: a cerveja tem a mesma receita da cerveja trapista Westvleteren, que foi eleita já 3 vezes como melhor cerveja do mundo. A diferença entre a Sint-Bernardus e a Westvleteren é que a última é produzida dentro de um monastério, e a primeira somente numa cervejaria.

A Westvleteren ficou famosa não somente por ter ganhado este prêmio, mas também por ser vendido somente no bar que fica na frente do monastério (pelo menos, oficialmente, já vi a trapista em alguns outros bares). No bar In De Vrede dá também para comprar caixas de 6 cervejas para levar, ao máximo 2 por pessoa. Porém, nem sempre tem caixas disponível. Os monges  querem fabricar cerveja apenas o suficiente para poder viver, não para ganhar lucro. Assim, por ser difícil de encontrar, a cerveja ganhou mais fama ainda.

A cerveja trapista Westvleteren


2. A primeira Guerra Mundial
A primeira Guerra Mundial, que de 1914 até 1918 dividiu a Europa entre principalmente a Alemanha de um lado e a França e Inglaterra do outro lado, atingiu bastante a Bélgica. Na verdade a Bélgica queria ficar fora da guerra e se declarou neutra, porém, bem no começo a Alemanha decidiu que o melhor jeito de invadir a França era  passar pela Bélgica, e assim o país fez durante os 4 anos parte da guerra. O exército da Alemanha invadiu a Bélgica pela leste, e assim foi cruzando o país até que o exército britânico, francês e o restante do exército belga conseguiu pará-lo já bem perto da fronteira francesa. No mapa abaixo dá para ver a linha verde e amarelo, onde os dois exércitos inimigos ficaram 4 anos parados, lutando contra um e outro.

Mapa indicando a linha dos batalhas

Neste mapa também dá para ver a cidade de Ypres, bem em cima da linha, que fica 10 kms da Poperinge. Poperinge, ainda desocupada, virou um lugar de descanso e de cuidado para os soldados. Hoje ainda tem vários lugares na cidade para lembrar desta guerra, o mais impressionante sendo o cemitério Lyssenthoek. Este cemitério tem o mesmo nome do hospital que tinha durante a guerra do lado de lá, e os 10 mil mortos que estão enterrados, eram todos pacientes do hospital que não sobreviveram. Hoje o local virou um lugar de paz, onde familiares dos soldados, quase todos ingleses, ainda vem até hoje para deixar flores no túmulos.

O cemitério Lyssenthoek em Poperinge

Também a cidade de Ypres, onde tinha as batalhas, tem bastante lugares para lembrar a primeira guerra. O mais impressionante é chamado “Menin gate”, um “portão” de pedra branco onde tem os nomes escritos de todos os soldados de quem não sabem onde estão enterrados. Tem no total 55 mil (!) nomes gravados neste memorial. Em baixo deste “portão” tem até hoje uma cerimônia para honrar os soldados que morreram durante esta guerra. Todos os dias, às 20hs, 4 ou 5 trompetistas tocam uma música (sempre a mesma música) e são levados coroas de flores para colocar de baixo dos nomes. É um jeito para lembrar dos erros do passado e também deixar esta memória viva para as próximas gerações, para evitar que os mesmos erros acontecerem novamente.

  1. A natureza
    Não está convencido ainda sobre a Poperinge? Deixe eu te mostrar mais umas fotos da região em volta de Poperinge:

    Os campos de Poperinge

 

Os campos de Poperinge no inverno

 

Com sorte dá para encontrar um destes por-de-sol lindos!

 

Heuvelland, uma região do lado de Poperinge

 

Uma floresta em Heuvelland na primavera

Conclusão: Para quem vem visitar a Bélgica e tem um tempinho para de sair do roteiro típico de Bruxelas e Bruges, com certeza recomendo de pular num trem para a Poperinge! Vai caminhando um 1km da estação de trem para o centro onde tem vários hoteis, depois alugue uma bicicleta e vai passeando pelos campos de lúpulo, dando um pulo no bar In De Vrede para tomar uma cerveja Westvleteren (6 kms de Poperinge) e dando uma visita no cemitério Lyssenthoek. À noite dá para pegar o trem para Ypres (10 minutos) para assistir o Last Post às 20hs.

 

Quem sabe eu vejo um dia vocês lá na minha terra natal?

Até!