Mostra Cultural por Gabriela Fagundes

A Gabriela Fagundes é nossa parceira na Immagine, uma jovem fotógrafa muito talentosa e inteligente. No mês passado, aconteceu a primeira exposição de fotos suas abertas ao público e foi um sucesso. Ela descreveu pra nós como foi essa experiência e também a Mostra Cultural Creare, que aconteceu entre os dias 05 a 07 de novembro na escola em que estuda, o Cemac. A Mostra reuniu profissionais da área cultural e alunos do Cemac em uma programação incrível. 
Confira a crônica da Gabi:
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Sempre que entrava na adorável sala de artes da famosa “Titia” eu avistava aquelas esculturas e todos aqueles quadros empilhados nos quatro quantos.
-“Essas obras irão mofar e ainda não servirão pra alguma coisa.”
Quem disse?
Abordando a situação por outro lado, achava um tédio ter que desenhar e pintar os quadros que a Prof Rainha pedia. E a Dona Moça ainda fazia questão de deixar avisado -num leve tom de ameaça-
-“Vale nota de VA1 ouviram?”
-“Ah fala sério, será que vou ter que pintar quadros em uma prova de vestibular também?”
Uma semana depois, durante a manhã, só se via mochila nas costas e os benditos quadros e esculturas nas mãos, os uniformes de grande parte dos alunos estavam manchados e as unhas apareceram coloridas, o que me fez ter menos vergonha das minhas.
Parecia que a Louca da Professora havia pedido pra escola inteira fazer aquelas malditas obras que, nos dias 05, 06 e 07 desse glorioso novembro, realmente serviram pra alguma coisa.
Todos os quadros e esculturas foram expostas no pátio da escola, era inevitável parar pra olhar e até admirar algumas pérolas meio que malucas de certos alunos, como por exemplo um cemitério feminista. Estranho né? Eu também achei, mas só no primeiro momento. Depois parecia que havia levado umas tundas na cabeça com aquelas cruzes de madeira e minha mente tivesse, de fato, sido aberta para novos pensamentos e novas ideias.
E então estava rolando a tão citada Mostra Cultural CREARE CEMAC, com direito à palestras de grandes mestres, exposição de quadros, esculturas, fotografia e ao magnífico espetáculo do grupo NUCLEART.
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Ok, daremos agora uma ênfase na Exposição de fotografia e Espetáculo NUCLEART.
Porque a exposição era minha.
Isso mesmo que vocês leram, a exposição era minha.
Quando recebi o convite pra expor minhas fotografias eu não tinha a mínima idéia do que faria e muito menos de como seria. Depois de uma tarde inteira tentando chegar em algum tema pra minha exposição, a “Titia”, “Prof Rainha” e “Louca da Professora” sugeriu -agora como quem estivesse acabado de montar um quebra-cabeça de umas 600 peças-
-“Gabiiiii, e se você fizesse sobre O Criar da Arte? Você tira fotos dos ensaios, fotografa Fulano e Fulana dançando, Beltrano e Ciclano cantando e etecetera…”
-“Cara, finalmente essa mulher havia dito a minha língua.”
Então durante algumas semanas, passei tardes e até noites fotografando os ensaios dos alunos talentosos que na sexta-feira (07) apresentariam alguma coisa, cantando, dançando e declamando belíssimas poesias.
Fotografei tanto que a digital do meu indicador deve ter ficado desenhada de maneira permanente no botão de disparo da câmera. Mas eu estava feliz, muito mais que feliz, afinal estava fazendo o que mais amo e o que mais me entrego a fazer.
Os dias se passaram em um piscar de olhos e de repente era sexta-feira. Já eram 19h e 17min quando cheguei. Minhas fotos estavam expostas nas paredes com luzes direcionadas às mesmas e eu, com um sorriso enorme e as mãos soadas de nervosismo, parecia até que eu viria a desidratar de tanto perder líquido.
-“Olá, boa noite, fica a vontade, obrigada por ter vindo”
Eu só sabia falar isso, era como se eu estivesse ligada no automático. Algumas vezes tive a sensação de que eu estava derretendo -mas não de calor e sim pelo fato de ficar extremamente sem jeito- ao ouvir elogios dos visitantes.
Um dos elogios que mais ficaram marcados veio da minha professora de geografia.
-“Meus parabéns, que orgulho que eu tenho de você”
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Isso aí, ela tem orgulho de mim.
Bom, eu não me comporto tão bem na aula dela e não tiro as notas mais altas, então ela só pode ter orgulho de mim pela minha exposição. Mas o que mais eu podia querer naquele momento? Eu só queria que gostassem das minhas fotografias, afinal eram elas que estavam expostas e não meu boletim, né?
Imagina se em vez de todas aquelas obras expostas nos dias anteriores fossem expostos os boletins dos alunos. Bom, desnecessário.
Certa hora também ouvi uma mulher comentando com o marido:
-“Nossa, quem tirou essas fotos tem uma sensibilidade e um olhar pra fotografia…”
Fiquei sem jeito né, mas na minha. Eles não precisavam saber quem havia tirado aquelas fotos, eu que precisava saber se tinha conseguido fazer alguém sentir, olhando minhas fotografias, o mesmo que eu senti no momento que estava fotografando.
Aprendi que uma verdadeira instituição não vai dar ênfase em quanto você tirou na prova de matemática semana passada e sim no quanto você surpreendeu sem precisar de cálculo algum na semana seguinte.
Aprendi até a gostar de pintar quadros -apesar de manchar minhas roupas e até alguns panos de prato lá de casa-
Cada segundo foi prestigioso, foi gratificante e eu não teria conseguido se não fosse a professora Amanda Garcia, a maluca de pedra e descontrolada que citei no início, quer dizer, melhor professora de todos os tempos!
Por isso eu devo a ela toda a felicidade que eu senti na sexta-feira, 07 de novembro.
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Chateada, desapontada e desiludida

Até poucos dias atrás guardava uma sensação quase paranoica sobre a quase unanimidade que me tem como uma pessoa dramática em demasia.

Até poucos dias atrás.

Melhor.

Até encontrar alguém que parece galgar de um sentimento de dramaticidade ainda mais complexo e esquizofrênico que o meu.

Aparentemente não sou o único doido de pedra a fazer birra e cena em episódios chave neste mundo. Há quem também seja tão dramático (neste caso, dramática) quanto e, talvez, só não faça dessa premissa condição profissional por puro estrelismo.

Meu caso.

Tipo quando em uma fração insignificante de tempo, a pessoinha altera uma feição sorridente para uma cara fechada em vias de se transformar num biquinho e numa sobrancelha arqueada do jeito que só as mulheres sabem fazer.

– Estou chateada, desapontada e desiludida com você.

Sim.

Isso tudo.

Chateada, desapontada e desiludida.

Com tique e cena, talvez para me tentar fazer compreender que eu precisava desmarcar todos meus compromissos só pra estar presente onde a pequena prodígio queria que eu estivesse.

E mais tarde:

– Ainda não me conformei com “aquela situação”, mas deixando a tristeza de lado, como aluna, eu que agradeço pelo bate papo de ontem!

Tristeza!

Não bastasse o fato de estar chateada, desapontada e desiludida ainda estava triste, só porque eu disse que não poderia prestigiar a mostra de fotografia que ela faria na noite seguinte.

Falhei e, talvez soe até antiquado dizer que não fui à exposição da precoce, mas talentosíssima fotógrafa, por ter agendado desde muito tempo um encontro com seis senhores sexagenários tocando velhas canções de 40 anos atrás.

Patético?

Talvez, a depender do ponto de vista. O certo é que não nego e brado – se necessário – em carro de som, minha admiração ao talento da menina meiga de grandes óculos de armação, sorriso largo e aparelho nos dentes, tão doce quando caqui de chocolate e tão pequena que às vezes tenho impressão que posso desmontá-la com um abraço mais apertado.

A propósito, eu vi as fotos. Amei cada uma delas e digo e repito:

Sou seu fã.

Igualmente aos velhos dinossauros que 45 anos depois, ainda que cheio de olheiras e meio cambaleantes, conseguem oferecer diversão para uma multidão de trintões tocando coisas como “Strange kind of woman”, “The mule”, “Perfect Strangers”, “Space Truckin”, “Lazy” e “Black Night”.

Okay, a escolha foi minha e dramático que sou jamais admitirei que adoraria e talvez, num universo paralelo, até trocaria  a descarga de clássicos pela presença na exposição.

Gatinha, na próxima estarei presente tão dramático quanto tu, sob pena de ficar tão ou mais chateado, desapontado e desiludido.