Ex-machista

A preposição latina ex– indica claramente que uma pessoa deixou de ser algo: ex-marido; ex-aluna; ex-alcoólatra e por aí vai. O processo de tornar-se “ex” é antecedido por uma grande ruptura, que pode ser natural via amadurecimento de ideias e transformação do ser ou de forma brusca, quando a pessoa é obrigada a abandonar crenças, relacionamentos de uma hora para outra.

Independentemente de como se dê o processo de tornar-se “ex”, o importante é sair transformado para melhor. Fato é que existem certos hábitos, vícios e maneiras de pensar que são tão arraigados e cotidianos que são muito difíceis de desvencilhar. O machismo estrutural é parte fundante de muitas culturas e sociedades. É um mal difícil de romper, pois esquadrinha e permeia nossa maneira de pensar, falar e agir.

Machismo é uma construção sociocultural que inculca nas pessoas uma supervalorização das características físicas e culturais associadas ao sexo masculino (eu disse: s-u-p-e-r-v-a-l-o-r-i-z-aç-ã-o), em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino, pela crença de que homens são superiores às mulheres. Não anula-se as diferenças entre homens e mulher. Evidencia-se que mesmo sendo diferentes, ambos os sexos devem ter os mesmos direitos e deveres.

É assombroso como a maioria das pessoas não tem noção da definição de ‘feminismo’. Tenho a sensação de que muitos ouvem essa palavra e já a demonizam. É assustador o que a falta de informação, leitura e conhecimento podem fazer! Vamos esclarecer? “Femismo” é a ideologia que prega a superioridade do gênero feminino sobre o masculino (é tão danosa e perigosa quanto o machismo). “Feminismo”, de modo muito simplista e resumido, é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens. É muito importante que as pessoas antes de debaterem asneiras na internet e criarem mil-e-uma fake news sobre feminismo compreendam o que significa essa terminologia.

Graças às ideias feministas, muitos homens (e mulheres) tem questionado sua maneira de ser e agir. Muitas empresas têm se dado conta e corrigido práticas injustas para com suas funcionárias. Leis têm sido revistas para garantir os mesmos direitos para homens e mulheres. Mulheres e moças tem sido empoderadas para tomar as rédeas da própria vida. O corpo da mulher deixou de ser objeto do homem e produto de escambo para oficializar casamentos e negócios. Famílias têm educado seus filhos para uma cultura de respeito à integridade da pessoa, independentemente da sexualidade.  Homens e mulheres dentro desse parâmetro deveriam orgulhar-se de nominarem-se feministas.

Felizes os que questionam a cultura machista e patriarcal na qual cresceram e foram educados. Felizes os que rompem com o machismo! Como um amigo que me ligou dizendo que não conseguiu terminar de ouvir uma música por causa de seu conteúdo misógino (“misoginia” significa o ódio contra as mulheres e está diretamente relacionada com a violência contra a mulher) que incitava o estupro. Parabéns meu caro! Você é um ex-machista. Ou melhor: Meu amigo, bem vindo ao grupo dos feministas!

#DeixaElaTrabalhar: Lugar de mulher é realmente onde ela quiser

Lugar de mulher é no gramado (de preferência batendo o escanteio e correndo pra cabecear)

Nos tempos áureos da minha vida, onde eu podia escolher o que queria fazer da mesma, eu seria a repórter esportiva do curso. Haviam outros que queriam seguir o mesmo caminho, mas não outras. Já começava por aí: com quem discutir sobre a maior paixão do brasileiro, no caso, o futebol? Com homens. Como fazer com que eles me respeitassem? Não sei.

Não demorou muito tempo, os campeonatos chegavam às suas retas finais e eu, claro, não perdia um. “Quando me formar, quero ser repórter de campo, ou quem sabe fotógrafa esportiva, ligada ao futebol”, eu dizia. Mas você sabe quantas repórteres adentravam o gramado para falar com jogadores? Nenhuma. A apresentadora que figurava entre a referência feminina na atmosfera do futebol era mais um sexy simbol do que uma comentarista. E isso, obviamente, não servia para mim.

Eu sempre quis ser o Tino Marcos, o Mauro Naves, o Abel Neto, o PVC, o Fernando Fernandes, o Nivaldo de Cillo ou até mesmo o Bruno Laurence. Nunca quis ser a “algum nome feminino”, porque não tive essas referencias femininas no esporte. E como eu disse, Renata Fan nunca foi referência para mim.

Escrevi sobre futebol. Assuntos táticos, do coração, lógicos, poéticos, comemorativos, inúmeros artigos. Sentei em mesas de bar para discutir com homens que jamais souberam o quanto eu me dedicava a isso e, depois de uns dois anos, desisti da carreira. Por que? Falta de apoio e de espaço.

A mesma falta de apoio que eu senti quando expus a minha vontade de ser aquilo que nenhuma ou poucas conseguiram ser, até então, me fez desistir de seguir em frente. Foi por ouvir que “mulher só servia na hora do futebol para buscar a cerveja na geladeira”, ou que “mas você realmente sabe o que é um impedimento?”, ou até um “você só assiste futebol por causa do Neymar” que eu desisti. Por outras questões financeiras e logísticas também, mas que pesaram muito menos que todo esse desserviço prestado por aqueles que ainda acreditam que a mulher é totalmente incapaz de entender sobre o que nos fizeram acreditar ter sido feito exclusivamente por homens e para homens.

Hoje, formada e trabalhando em outra área, (mas ainda levando o futebol muito a sério), percebo o quanto ainda falta espaço para mulheres trabalharem dignamente e com respeito nesse meio. Não é incomum vermos matérias e vídeos documentando que repórteres femininas foram beijadas ao vivo, que receberam investidas de jogadores, etc. Isso acontece sempre e, sinceramente, não é legal. Como aconteceu no caso esta moça aqui, que após ser beijada por um torcedor quando estava exercendo sua profissão, resolveu se manifestar. (Leia sobre aqui).

As pessoas que desrespeitam uma mulher por estarem num ambiente taxado erroneamente de masculino, não sabem o quanto essas mesmas mulheres estudaram e batalharam para crescerem e se destacarem num mercado que é muito concorrido. Não sabem como é difícil se sobressair em uma profissão que prefere, desde sempre, homens. Não tem segredo: tratar as pessoas como profissionais é o caminho para resolver todos os problemas ou pelo menos evitar que eles comecem a aparecer. Mas você pode começar pensando e entendendo que mulheres sabem do que estão falando quando se propõe a fazerem algo, seja na cozinha, na sala de aula ou num gramado sintético cercado por linhas brancas e bandeiras de escanteio.

É engraçado dizer isso, mas eu, jornalista formada há não pouco tempo (mas já com belos 7 anos de profissão exercida), já fui impedida de trabalhar em locais simplesmente porque sou: mulher. Não faz sentido na sua cabeça? Pois é, na minha também não.

Entendam que o futebol (assim como a política e tantas outras áreas da nossa vida) foi feito para profissionais que sabem o que estão fazendo, sejam eles ou elas. Enquanto houver uma bola rolando no gramado, eu estarei assistindo, e cornetando, e torcendo, e escrevendo, e suplicando para que vocês, homens sem noção, entendam que: lugar de mulher é onde ela quiser. E eu, meus amigos, quero sim estar no futebol. Respeitem, pois nós sabemos muito bem o que estamos fazendo.

Março: o mês das mulheres – vamos recordar?

Chegamos ao final do mês de março de 2017, o “mês das mulheres”, pois nele está contido o Dia Internacional das Mulheres, celebrado no dia 8 de cada março desde 1975. Isso já passou, podem pensar vocês ao ler o título, mas optei por escrever no final do mês para lembrar que a luta pela vida e direitos para as mulheres deve ser uma pauta cotidiana.

Assim, o que conhecemos como versão oficial é a data em homenagem às trabalhadoras da indústria têxtil mortas em um incêndio e da instituição, pela ONU em 1975, do 8 de março como Dia Internacional das Mulheres. Infelizmente, o machismo espalha uma falsa história e busca apagar a luta de muitas mulheres ao longo do tempo.

A ideia de um dia específico para marcar como um dia de luta e reflexão sobre a condição da mulher foi proposto pela socialista alemã Clara Zetkin no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas em 1910. E essa história não pode ser confundida com a de mulheres estadunidenses mortas em um incêndio numa fábrica lutando por direitos em Nova York em 1911. Essa associação começou a ser feita nos anos 1970, período da Guerra Fria e dos discursos contra os comunistas que de toda a forma terminou por invisibilizar a história daquelas mulheres. O resgate dessa história é importante para relembrar sua origem marcada por fortes movimentos de reivindicação política, trabalhista, greves, passeatas e muita perseguição policial. É uma data que simboliza a busca de igualdade social entre homens e mulheres, em que as diferenças biológicas sejam respeitadas mas não sirvam de pretexto para subordinar e inferiorizar a mulher.” (Eva Alterman Blay)

A história das mulheres é uma história de luta em todos os tempos. O 8 de Março é um dia que representa a luta por iguais condições de vida entre mulheres e homens. Este não deve ser um dia para o mercado vender flores e presentinhos para as mulheres. Esse é um dia que devemos refletir e estar prontas para agir por nossos direitos a uma vida digna.

Compreendo o 8 de março como uma data de reconhecimento das conquistas das mulheres, mas mais ainda de reivindicação por dignidade para todas as mulheres. Assim, em 2017, mais do que nos anos anteriores, a data foi resgatada através de uma articulação internacionalista de uma GREVE INTERNACIONAL DE MULHERES. No capitalismo, o trabalho das mulheres no mercado formal é apenas uma parte do trabalho que realizamos. As mulheres são também as principais realizadoras do trabalho reprodutivo – trabalho não remunerado que é igualmente importante para a reprodução da sociedade e das relações sociais capitalistas (trabalho doméstico e cuidado das crianças). A greve das mulheres destina-se a tornar este trabalho não remunerado visível e enfatizar que a reprodução social é também um local de luta.

Sem dúvidas, vivemos em um momento em que há um levante das mulheres em todo o mundo contra a perda de direitos, em defesa da vida das mulheres e pelo fim da desigualdade entre homens e mulheres. No Brasil, nós mulheres lutamos contra o machismo, a exploração e a retirada de direitos, como está previsto na reforma da previdência ao aumentar o tempo de contribuição das mulheres e na reforma trabalhista ao precarizar ainda mais as condições de trabalho das mulheres. É de “presente” no mês das mulheres, a reforma da previdência deve entrar na pauta de votação ainda esse mês.

Essa desigualdade é o principal problema na sociedade capitalista, que explora o trabalho feminino pagando salários menores do que aos homens numa mesma função, e nos remete aos tempos da revolução industrial, em que mulheres trabalhavam muito mais e ganhavam muito menos. Essa desigualdade se soma a desigualdade de direitos entre homens e mulheres, estabelecido pelo patriarcado, uma estrutura social de dominação masculina, ou seja, onde o que é masculino é considerado superior ao feminino.

Nessa sociedade, nós mulheres sofremos com o machismo, a manifestação em ações dessas desigualdades. Assim, recebemos menos que os homens, trabalhamos fora de casa e trabalhamos dentro de casa, acumulando a responsabilidade de cuidar da casa e das crianças, um trabalho que não é remunerado nem valorizado; sofremos violências físicas, sexuais, morais; somos mortas dentro de casa e na rua, somente por sermos mulheres (feminicídio); nos é negado o direito de escolher com quem é quando fazer sexo e se e quando ter filhos/as (direitos sexuais e reprodutivos).

Precisamos lembrar de nossa diversidade, somos MULHERES! Somos negras, índias, brancas, do interior e da capital, da cidade e do campo, jovens e idosas, heterossexuais, lesbicas, trans, bissexuais, baixas, altas, gordas, magras. Somos muitas, portanto plurais. Reconhecer e respeitar essa imensa diversidade é fundamental para o fim das desigualdades.

É preciso que fiquemos atentas em relação ao que o mercado faz com a data, buscando vender nossas lutas em produtos que nada tem a ver com nossas bandeiras em busca de condições de vida em segurança. Assim, o feminismo, movimento político, filosófico e social que estuda/analisa/busca eliminar a condição social de desigualdade entre homens e mulheres e mulheres e mulheres é o horizonte a ser mirado por nós como a melhor saída para todas essas relações de desigualdades expostas.

É fevereiro, é carnaval: e as mulheres?

Fevereiro é o mês da festa mais popular do planeta e da manifestação cultural mais celebrada no Brasil: o carnaval! É nesse período de festa, diversão e música, sobretudo no nordeste e na nossa Bahia, que as pessoas costumam se soltar, seja atrás do trio elétrico, das marchinhas e/ou dos blocos com fantasias e tudo está liberado.

É nesse momento que se intensifica o machismo e o assédio de maneira “autorizada pela sociedade” através do que se chama “objetificação do corpo das mulheres”, principalmente dos corpos femininos jovens, magros e esculturais. As propagandas das academias antes do carnaval, incentivando um “corpo perfeito” em termos de padronização é um bom exemplo. No carnaval os corpos feminismos são usados como meio de divulgação, promoção e chamamento para a festa. Também acontecem os beijos forçados, os “passar de mãos” e situações de abusos sexuais (estupro), de maneira a ser culturalmente aceita nesse período. É como se a sociedade dissesse: no carnaval pode, porque no carnaval tudo está liberado!

Há alguns anos o beijo forçado foi tipificado como tentativa de estupro e diversas campanhas são realizadas para tentar sensibilizar e conscientizar a população, sobretudo os homens que tais práticas são violências por serem invasivas, já que algo sem consentimento não pode ser visto com bons olhos. Durante o período carnavalesco, é permitido e incentivado que essa objetificação se manifeste através dos corpos seminus ou nus, maiormente no carnaval no trecho Rio-São Paulo, transmitido para todo o país pela televisão.

Dentre esses corpos, o da mulher negra certamente é “a carne mais barata do mercado”, sendo hipersexualizado, considerado exótico e pecaminoso, da “cor do pecado”. É como se durante o carnaval houvesse um fetiche em relação aos corpos das mulheres negras e estes estivessem à disposição para toda e qualquer realização sexual. Durante muitos anos, a Globeleza foi um símbolo desse machismo institucionalizado na telinha do plim plim, com ênfase nos corpos das mulheres negras. Esse ano, a mudança nas vestimentas e a presença de homens representando o carnaval significam um avanço em relação à luta empreendida pelo movimento feminista brasileiro.

No entanto, mesmo assim o machismo se manifesta. Em 2016 o Instituto Data Popular realizou uma pesquisa como contribuição à campanha Carnaval Sem Assédio, do site Catraca Livre. A pesquisa realizada com 3,5 mil homens brasileiros com idade igual ou superior a 16 anos, em 146 municípios, resultando que 61% dos homens abordados afirmaram que uma mulher solteira que vai pular carnaval não pode reclamar de ser cantada e 49% que bloco de carnaval não é lugar para mulher “direita”. Para piorar, a sondagem revelou que na percepção de 70% dos homens, as mulheres se sentem felizes quando ouvem um assobio, 59% acham que as mulheres ficam felizes quando ouvem uma cantada na rua e 49% acreditam que as mulheres gostam quando são chamadas de gostosa.

Tal pesquisa trouxe à tona a naturalização do machismo na sociedade brasileira e o sentimento de posse sobre as mulheres, fato que precisa ser urgentemente encarado pela sociedade brasileira. Esse debate, muito necessário e atual precisa ser encarado de frente por nós e não basta apenas alegar exagero, mimimi ou coisa do tipo, muito comum na “modernidade líquida”. Os fatos estão expostos, basta colocar as lentes de gênero para conseguir enxergar. Bom carnaval, lembrando que violência não é e nem pode ser considerada diversão.

FEMINISMO, AFINAL DO QUE TRATA?

Diversas matérias analisando o ano de 2015 apontaram manifestações de caráter feminista como destaque na conjuntura nacional e internacional. A filósofa política internacionalmente reconhecida, Nancy Fraser, em palestra que tive a honra de assistir na Reitoria da UFBA, em novembro de 2015 em Salvador, apontou que a revolução do século XXI perpassará pelo feminismo.

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Sem dúvidas, esse fenômeno reaparece com força após a década de 60, agora em nossos dias, sendo inclusive uma das suas bandeiras (o combate a violência contra a mulher) tema da redação do ENEM em 2015. Todavia, mantêm-se muitas dúvidas de décadas atrás. Há muita gente que não sabe do que se trata, outras que tem medo ou outras que distorcem, por conveniência ou ignorância o real sentidohier do feminismo. Se o feminismo na década de 60 foi propagandeado como algo perigoso, ainda permanecem resquícios sobre esse provável “perigo” também em nossos dias. Um perigo real às hierarquias entre homens e mulheres, de fato!

Pense rapidamente: o que você sabe sobre feminismo? O que entende?  O que já leu sobre? O que já ouvir falar sobre? O que acredita que o feminismo defende? Após essa breve reflexão, de certa maneira complexa, prossiga a leitura com minha tentativa de ser didática e elucidar algumas dessas questões e conceitos pouco entendidos.

Pois bem, o feminismo é um movimento político, filosófico e social que estuda/analisa/busca eliminar a condição social de desigualdade entre homens e mulheres. Diante disso, o feminismo defende igualdade de direitos entre mulheres e homens, ou, nas palavras da Professora Doutora da UFBA, Cecília Sardenberg, o feminismo “objetiva erradicar a ordem de gênero patriarcal, ou seja, erradicar o sexismo, a discriminação, a exploração e opressão sexual do gênero masculino sobre o feminino”. Patriarcal? Sexismo? Gênero? Que linguagem é essa?

O feminismo surge em oposição à dominação masculina, chamada de patriarcado. Essa dominação masculina ou patriarcado é a “identificação e centralidade no gênero masculino, que implica na predominância de relações assimétricas e hierárquicas entre os sexos” (Cecília Sardenberg). O patriarcado se manifesta através do machismo, que são as ações no dia a dia, que a gente conhece muito bem (“mulher no volante, perigo constante, “ei, sua gostosa”, “você nem parece mulher com esse cabelo curto”, “com essa saia curta tá pedindo…”, “mulher não sabe exatas”, etc e tal)

O conceito de gênero é muito confundido com o conceito de sexo, MAS, gênero não é sinônimo de sexo! Sexo diz respeito aos aspectos físicos/fisiológicos que distinguem os machos das fêmeas da espécie humano e gênero se refere aos  processos de construção cultural de relações que não decorrem de características sexuais diferenciadas entre homens e mulheres, mas de processos construtores dessas diferenças, produzindo, nesse movimento, desigualdades e hierarquias (Sardenberg e Macedo).

O feminismo não defende inversão de relação de dominação; não defende que as mulheres dominem os homens, mas luta para que haja o fim de relações de dominação, garantindo oportunidades iguais para homens e mulheres. A dominação de um sexo sobre outro é chamado de “sexismo”. O feminismo não defende o sexismo!

Mas, afinal, por que o feminismo é necessário? Porque existem desigualdades de gênero que precisam ser combatidas. Por exemplo, as mulheres recebem em média salários 40% menores do que os homens em uma mesma função; porque as mulheres sofrem determinadas violências somente pelo fato de serem mulheres (vide a tipificação do FEMINICIDIO no Código Penal em 2015); porque as mulheres sofrem mais violência sexual/estupros do que os homens; porque apesar de sermos mais de 51% da população e do eleitorado, somos quase invisíveis nos cargos de representação política; e porque essas relações desiguais não são naturais, mas construídas socialmente ao longo do tempo, podendo então serem desconstruídas.

Ficou com alguma dúvida? Escreva-me: pvielmo@yahoo.com.br, que responderei com muita satisfação, pois contribuir com a desconstrução de equívocos é prazeroso pra caramba!

 

MULHERES: SOMOS TODAS HISTÉRICAS!

Artigo de estreia para o Blog da Immagine… que difícil escolher um tema. Tenho diversos assuntos para compartilhar com vocês, aliás será um desafio prazeroso, mas escolher UM para iniciar é o mais difícil. Mas como é preciso, vamos lá: falar sobre mulheres numa perspectiva feminista, mais precisamente sobre um comportamento dito feminino. Eis a minha escolha, espero que gostem.

Inicialmente quero deixar transparente que, para mim, coisa de mulher e coisa de homem, comportamento de mulher e comportamento de homem, roupa de mulher e roupa de homem, profissão de mulher e profissão de homem constitui-se uma construção social, portanto, passível de mudança.

No entanto, apesar de todas as mudanças que estão lentamente ocorrendo, de maneira mais explícita desde a década de 60, com a sistematização dos estudos sobre gênero e feminismo nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Brasil – o que acaba por repercutir na vida prática, haja vista que teoria e prática estão intrinsecamente ligadas – algumas questões permanecem pouco imutáveis.

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Frequentemente permeia a minha linha do tempo do Facebook textos feministas sobre diversas situações, inclusive sobre o comportamento feminino. Reflexões bastante interessantes que, no final das contas, concluem que não importa o que façamos, se fizermos algo fora do padrão determinado para o ser mulher em nossa sociedade atual seremos condenadas.

Somado a isso, conversava com uma amiga que terminou um relacionamento e recebeu o “carinhoso” adjetivo dito à milhares e milhares de mulheres: histérica! Quem nunca foi chamada de histérica? Só quem se submete dentro de todas as regras (im)postas. Histeria está ligada a exagero de emoções, sentimentos, expressões e está historicamente relacionada a quem? Acertou quem disse: às mulheres!

Fazendo uma busca rápida e pouco acadêmica no Google, a Wikipédia nos informa a origem do termo, do grego hystera, “que se referia a uma suposta condição médica peculiar às mulheres, causada por perturbações no útero”. Foi um equívoco da Grécia antiga, que repercute ainda em nossos dias. Também associamos logo a Freud, que estudou a histeria em uma paciente mulher, chamada de Ana O.

A histeria é um tipo de neurose, historicamente associada ao comportamento feminino. Essa palavra, bastante conhecida nas origens da psicanálise, não é mais sequer utilizada nos meios psiquiátricos por causa da dificuldade de diagnóstico e da carga de preconceito e estigma que possui. É o que disseram as minhas pesquisas.

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Por curiosidade, busco o significado de histérica no Aurélio: 1 Mulher que padece de histerismo; 2 Mulher caprichosa. Sigo curiosamente e busco histericO: 1 Relativo a histeria ou a histerismo; 2 Que ou aquele que padece de histeria; 3 Que ou aquele que revela desequilíbrio, grande perturbação ou excitação incontrolável. Percebem o machismo? A sutileza entre o histérica e histérico?

Retirando o gênero feminino ou masculino e buscando “histeria”, temos: 1 Doença nervosa, geralmente com manifestação de sintomas como convulsões, contraturas ou paralisias, antigamente associada às mulheres; 2 Tipo de comportamento com grande, intensa ou ruidosa manifestação de emoção; 3 Índole caprichosa. E novamente lhes pergunto: percebem o machismo? Será que era antigamente associada à mulheres ou está fortemente presente em nosso tempo?

Para perceber o machismo, é preciso saber que machismo é o que inferioriza as mulheres, e chamar nós, mulheres, de histéricas, atribuindo-nos tal adjetivo e comportamento é extremamente machista.

Não satisfeita, digito o termo na busca de imagens do Google. Tanto faz escrever histérica, histérico ou histeria, pois a predominância das imagens que aparecem são de mulheres! Histeria é exagero. Pessoas histéricas são pessoas sem controle e a característica de emotividade está como padrão feminino, logo, ser histérica é encarado socialmente como algo inato às mulheres. Será? Não mesmo.

Mas, se até para a medicina o termo está em desuso, por que ele permanece tão atual e constantemente utilizado? Porque histeria é exagero e o exagero é um atributo de comportamento socialmente dado às mulheres. É uma forma de rebaixar o que fazemos e o que dizemos. É uma forma de nos fazer sentir inferior ou envergonhada de nossos sentimentos e ações. Mais do que isso, é uma forma de caracterizar toda e qualquer mulher que ouse dizer o que não é permitido socialmente à uma mulher, que ouse fazer o que não é permitido socialmente à uma mulher e que ouse questionar o machismo social e sobretudo dos homens. Fazendo isso seremos tachadas de histéricas sem qualquer dúvida.

O desafio de ser mulher

Não é de hoje que ser mulher é um desafio. Sim, já conquistamos muitos direitos, aparecemos nas pautas e debates, estamos no mercado de trabalho, dentre outras situações que, ao longo de muito tempo, conquistamos – a ferro e fogo, diga-se de passagem. Atualmente, para muitas mulheres, já é possível ter mais liberdade e participação política do que as que nasceram poucas gerações antes de mim, nas quais os afazeres femininos ainda eram extremamente limitados à esfera privada.

Infelizmente, ainda hoje, enfrentamos situações nada agradáveis, que reforçam um machismo existente, o preconceito e até mesmo a violência contra a mulher. Não preciso citar alguns exemplos que logo vêm à nossa cabeça quando se fala nesse assunto, como o comércio e exploração sexual de meninas, dentre outras práticas ‘justificadas’. Não, não é preciso ir muito longe.  Quantas frases desconfortáveis e de assédio não já recebemos travestidas de “cantadas”? Sinto náuseas só de lembrar vagamente de algumas que, infelizmente, não foram completamente apagadas da minha memória, como outras tantas já foram. Cantada na rua não é elogio, é grosseria. E dizer que quem não gosta disso é “mal amada” não é argumento: é reforço da agressão. Elogio, admiração, é muito diferente e não gera constrangimentos.

Eu já mudei minha rota do colégio pra desviar de um psicopata, já tive amigas perseguidas por desconhecidos nas ruas, já chorei de ódio depois de ouvir agressões verbais, sei de mulheres que foram vítimas de estupro, algumas que ainda tiveram que escutar um ‘você se descuidou’ ou ‘duvido que você não foi por conta própria’. Já praticamente parei de usar saias e vestidos em algumas situações, como no ônibus, porque não bastasse o incômodo que é sempre ficar procurando uma “posição mais segura” no transporte, seja de calça ou saia, ainda tem o risco de alguém filmar ou tirar fotos das nossas partes íntimas. Já vi muitos caras forçarem a barra com as mulheres com a desculpa que estavam ficando, logo, ele não estava fazendo nada demais. E nem se fala no assédio sexual que acontece com estagiárias e profissionais do sexo feminino em qualquer profissão.

Já ouvi que “tal tarefa” é para mulheres, que mulher não devia estar na política, sem contar os olhares preconceituosos e machistas ao extremo quando dirijo – e essa foi uma das razões que me obrigaram a colocar insulfilm em meu carro -, mesmo sendo boa motorista e cuidadosa no trânsito.  Ainda tem as perguntas de porque você ainda está solteira (como se o casamento fosse a salvação da mulher) e a sensação deprimente e constrangedora de “ser comida com os olhos”. O lugar para frases ou expressões de cunho sexual é, sem dúvida, o de uma relação a dois, em momentos de êxtase, como expressão de amor/desejo/paixão. Fora disso não há espaço.

Eu não sou refeição, nenhuma mulher é. Porque quando sou devorada com os olhos me sinto um frango e não uma mulher admirada. Eu não sou a mulher-objeto das propagandas de cerveja e outros produtos, e me sinto ridicularizada e agredida como mulher quando vejo adesivos misóginos da Dilma, tendo como cunho uma agressão sexual. Qualquer um pode discordar do governo, não aprovar as políticas do país, mas ninguém pode agredir uma presidente pelo fato de ser mulher – e aqui incluo não apenas os adesivos agressivos, mas as expressões como ‘vadia’, ‘prostituta’, ‘arrombada’, dentre outras escandalosas e desrespeitosas que já ouvi.


E isso não se estende a homens, mas também a muitas mulheres que também são porta-vozes do machismo e de preconceito. Um clássico exemplo disso é a censura de outras mulheres por sua sexualidade ou maneira de vestir, bem como o julgamento de comportamento, como acontece frequentemente nos casos de traição, onde a ‘culpa’ quase sempre é da mulher, que ‘deu em cima’, ‘incomodou’, e é uma ‘assanhada’, pra não dizer outras palavras.

Quando os pais educam meninos e meninas de forma diferente, com duas medidas, há também uma perpetuação dessa prática. Outro exemplo é questionar que uma mulher foi bem sucedida na carreira por beleza ou ‘favores’ e não por competência e esforço, bem como pensar que uma mulher tem direito de não casar ou ter filhos. Acreditar que um marido/companheiro ganhe menos do que uma mulher é inaceitável ou que um homem sensível é fraco também revela um preconceito, um juízo de valor machista. Além dessas, outras tantas atitudes que endossam a ideia da incapacidade feminina.

É duro pensar no tanto de advertências e cuidados que as mulheres crescem ouvindo porque são mulheres. Rodeadas de conselhos, cuidados, vigilância, precauções que os meus irmãos ou primos, sem dúvida, não ouviram. Ser mulher é um desafio. Não falo isso com pesar, acredito que todas as mulheres precisam lutar contra esses preconceitos, por ações afirmativas, contra o machismo e a violência, que muitas vezes aparecem travestidos de cortesias, carinho e obrigações, quando na verdade são mais maneiras de opressão. É uma longa caminhada.

Para ler mais sobre o assunto, acesse os links abaixo.

Imagens: reprodução.

A violência contra a mulher no Brasil:

Feminismo para homens, um curso rápido:

O limite da cantada:

E aí, gostosa?

Não, a culpa não é sua

Mais escolarizadas, mulheres ainda ganham menos e têm dificuldades de subir na carreira

MPT em Quadrinhos (Cartilha sobre assédio sexual)

Cavalheiro ou canalha?

Cavalheirismo é machismo

Mulher brasileira é vítima de seu próprio machismo, diz historiadora

O cavalheirismo é nocivo às mulheres!