#Tbt

Todas as quintas-feiras fico atento ao feed dos meus contatos nas redes sociais. Não sei porquê, mas a quinta-feira foi escolhida como o dia da nostalgia. Talvez porque a segunda-feira seja o dia de reclamar que a semana começou, a terça seja o dia do trabalho resignado, a quarta seja o dia de comemorar o meio da semana, a sexta-feira carregue o conhecido slogam de “sextou” preparando a maioria para desfrutar do descanso de sábado e domingo. Restou à quinta-feira a nobre missão de resgatar o passado.

Throwback Thursday (traduzindo: quinta-feira do retorno ou quinta-feira do regresso) ou simplesmente #TBT é uma brincadeira que consiste em o usuário postar uma foto antiga em alguma rede social na quinta-feira. Trata-se de uma brincadeira bastante séria, pois evocar memórias e lembranças é algo muito mais complexo do que o breve like angariado. Toda hashtag tbt nasce de uma saudade. E saudade é coisa séria.

Somos seres que vivem de memória. Nossas próprias memórias e toda uma ancestralidade de informações e sentimentos que nos tornam quem somos. Num passado nem tão distante, registrávamos tudo em livros, buscando colocar em palavras sentimentos e acontecimentos que merecessem ser recordados. Prova disso são nossos livros de história, os romances e porque não os quase-extintos diários. Mas não bastavam palavras, precisávamos registrar imagens, porque não dá pra confiar apenas no registro da memória. Surgiram fotografias e toda a sua escala evolutiva, passando por álbuns preto e branco, fotos coloridas até chegar nas “nuvens” que armazenam um sem-fim de imagens. Tudo isso para não esquecer.

Rubem Alves certa vez referiu-se às fotografias como “arquivo paralisado de felicidade perdida, que retornam quando de novo as vemos”. Creio que seja essa a melhor definição de saudade. O desejo de re-experimentar o que foi bom, feliz e especial com o intuito de fortalecer-se para enfrentar o presente, ou esperançar o futuro. A verdadeira experiência de espiritualidade brota do cotidiano, inclusive nos seus contornos mais digitais, quando nos consolamos com um rito virtual de ressuscitar a felicidade que um dia perdemos.

Botas vermelhas

Acompanhava o entra e sai do estande da Prefeitura Municipal na Bahia Farm Show, com atenção voltada para os delicados pés das moças. Sempre fui fã de pés femininos. Tive uma namorada que me proibia de olhar para seus pés, e fazia o possível, para que eu não tivesse nem três segundos de regozijo observando seus dedinhos rechonchudos. Era como se ela detestasse uma parte do próprio corpo e desejasse que ele não existisse. E eu só era autorizado a amá-la do tornozelo para cima.

Sério, nunca entendi.

Venerar o pé de outra pessoa, aparentemente, não é nem nunca foi uma atividade considerada normal. Tudo bem, tudo bem. É incomum. Eu que o diga. Aliás, é muito mais fácil, que ao descobrirem seu suposto fetiche por pés, estejam eles desnudos ou enfiados num par de All Star branco como um papel sulfite, sejas enquadrado e, de pronto, catapultado ao time dos rejeitados, dos anormais, dos estranhos.

Se queres mesmo saber, eu — particularmente falando — tô nem aí!

Naquela ocasião, minha atenção não estava voltada para os pés de unhas feitas e tatuagens de florzinha a percorrer o limite do dedo mindinho e o tornozelo, mas, para o calçado escolhido para a ocasião, isso mesmo, no singular, pois, a quase unanimidade do público feminino — que bem me lembre — tinha por opção o uso de botas, de todos tamanhos e gostos, desde as que mal cobriam a canela, àquelas que triscavam na rótula do joelho; umas com zíper, outras sem zíper; umas feitas de couro, outras de oncinha ou que apostavam na imitação da pele de uma vaca; haviam também botas de cor única, pretas, marrons, verdes ou extravagantes, como uma, de cor vermelha mergulhada no verniz.

Regozijo pleno. Raras vezes me deliciei tanto como aquela tarde.

Não me importa se daqui a pouco serei taxado como louco, tarado, machista, ou alguma coisa que me faça querer esquecer aquele desfile quase privado ou procurar tratamento psicológico para me curar ou facilitar meu caminho para a salvação eterna. Talvez, eu nem seja tão anormal assim, ora bolas, que mal há em considerar mulheres de botas um charme?

De novo: que mal há?

Hein?

Provável que eu continue alimentando aquela lembrança justamente pela tolice que ela carrega. Não sou uma besta selvagem que não pode, em hipótese alguma, ver uma mulher ou um coletivo de mulheres de botas a saracotear por aí. O riso que me escapa dos lábios ao ver uma mulher usando botas numa feira agrícola ou por conta do inverno rigoroso que acomete nesse exato momento o sul do país, não é possível de ser arrancado da minha cara abobalhada. Tenho para mim e torço por isso que toda mulher sabe o quão charmosas elas ficam devidamente calçadas com botas, mesmo que de coloração e modelo extravagantes como aquela vermelha mergulhada no verniz de anos atrás.

Se não sabem, já não é sem tempo.

E não só charmosas, como poderosas. Quem sabe aquela não tenha sido apenas a ocasião ideal para sua estreia, o que não significa que não existam passarelas para uma bota vermelha mergulhada no verniz. O mundo anda chato demais para que fiquemos ditando e repetindo e, pior, tentando tacar goela abaixo de todos as regras que o politicamente correto considera irrefutáveis.

Sou adepto de fazermos — homens ou mulheres — aquilo que nos faça bem. Que nos traga regozijo. Não creio que uma mulher use botas do mesmo modo que usa um par de havaianas. No fundo é justamente por saberem o poder que um par de botas exerce e possui. Que se cubra as canelas, que se escondam os joelhos, que tenham ou não zíper, que sejam salto agulha, que sejam do jeito que te fizer mais bela, mais charmosa e mais empoderada, que sejam iguais aquela: vermelhas mergulhadas no verniz.

Esses humanos feitos de açúcar são chatos pra caramba

Esperava na parada de ônibus quando um homem de cinquenta, mais ou menos, atravessou a rua. Usava chinelo, camiseta, um calção folgado parecido com um pijama — levantou o short umas duas vezes. Ele segurava um saquinho bem inchado de pipoca de micro-ondas. Devia estar quente, fumegando, os dedos pareciam uma pinça. Ao passar por mim, trocou o saquinho de mão, depois dobrou uma esquina e foi embora. Cinco minutos depois meu ônibus parou, eu entrei e fiz o mesmo.

A primeira frase dessa crônica era para ser outra, tinha até redigido, sem piscar ou olhar para o teclado do notebook, baita exemplo de datilógrafo, porém, o politicamente correto me impediu de prosseguir e por isso apaguei a frase. Não dá mais para brincar com essas coisas. Aliás, com nada. Tudo ficou sério demais, a não ser que você tenha conseguido vencer na vida fazendo stand up comedy ou sendo Youtuber. De resto, sempre tem alguém para não gostar. Reclamar. Escrever textão no Facebook. Não quero que ninguém escreva textão no Facebook para reclamar de uma frase que usei numa crônica.

Esquece.

Não vai rolar.

Sou, parafraseando Renato Russo, um animal sentimental que se apega muito, muito fácil. Ontem, numa dessas noites que tento pôr em prática meus raros conhecimentos de inglês, o debate era justamente sobre como nos comportamos diante de uma crítica. Eu tenho medo delas. Passo mal quando alguém aponta o dedo para o meu nariz, apontando minhas falhas. Nessas horas, sinto como se a vírgula fora do lugar estivesse sob julgamento, num desses telões de cinema, a sala lotada e uma voz semelhante à do Christopher Lee no papel de Saruman prestes a ordenar que um bando de orcs arranque minha cabeça num golpe só.

Preciso aprender a lidar com isso urgente.

Quando alguém não gosta do que outro alguém diz a seu respeito ou a respeito de algo que se defende: uma bandeira, um estilo de vida, talvez o direito de roer as unhas em paz ou optar por uma dieta a base de plantas, e ainda manter os sovacos cabeludos, revida-se. Sob uma estranha certeza de que qualquer coisa é passível de direito de resposta. Todos queremos ser o que bem quisermos e fazer o que bem entendermos, mas, ao mínimo sinal de reprovação ou argumento contrário, é como se nossa matéria prima deixasse de ser a carne e os ossos, para se tornar açúcar. E daí tornamo-nos intocáveis. Pior: insuportáveis.

Alguém sair por aí de pijamas com os dedos em pinça segurando um saquinho de pipoca de micro-ondas fumegante, foge à regra, ao status quo, ao tolerável. E eu, quem a de se opor, sou uma pessoa normalíssima, onde já se viu? A maioria de nós rende graça ao ar condicionado dos carros só para não ter de encarar o argentino que faz malabares no semáforo. Sempre há quem levante o cenho em reprovação ou custe a compreender. Aceitar.

Parece simples, né?

Aceitar.

Só que não é.

Às vezes eu queria ser o homem que atravessa a rua de pijama e com os dedos em pinça segurando um saquinho inchado e fumegante de pipoca de micro-ondas.

Ah, mas esses humanos feitos de açúcar são chatos pra caramba.

Doce de maracujá

Uma moça de voz rouca cometeu a ousadia de me comparar a um doce de maracujá. Isso tem alguns anos. Fui um doce tão, mas tão azedo que ela preferiu lambuzar os lábios com outros sabores, claro, menos cítricos. Lembrei dela porque outra moça, dona de um simpático sotaque recifense, resolveu resgatar, não o doce ou o maracujá, mas, o azedo.

Assim:

— Um azedinho pode ser bem refrescante às ideias.

Me achei, claro.

Imagina, eu, refrescante. Pois, sim, sou azedo, não posso negar. Tem quem goste, tem quem não. Hoje de manhã, perto do meio-dia, decidi ligar a tevê. Sentei, estiquei as pernas e em dois minutos, pensei: “Meu Deus, como posso ser tão azedo?”

Quando era criança gostava de acordar antes das oito para dar tempo de tomar um generoso copo de nescau antes de assistir Os Smurfs. A tevê era mais legal. Okay que as vezes as moças que apresentavam os programas infantis exageravam nos trajes mínimos, mas os desenhos compensavam tudo. E ainda tinha as cartinhas. Milhares delas e a mesma moça de trajes mínimos sentada em cima da pilha jogando as cartinhas pro ar até escolher uma para ler. Era o máximo.

Hoje não tem mais desenho na tevê convencional. As crianças não precisam ficar grudadas na frente da tevê para ver se a sua cartinha seria lida, nem esperar a hora certa para ver A Caverna do Dragão. Tablets, celulares, Youtube e tevê por assinatura fazem isso por elas. Eu que não sou mais criança, olho com azedume de lacrimejar os olhos, a programação da tevê. Pobre de quem não tem opção.

Primeiro, um papagaio de araque e uma senhora fazendo as vezes de super jovem discutindo trivialidades, depois uma ex-apresentadora do principal telejornal da tevê (será que isso é lá grande coisa?) ditando regras com convidados tão insossos quanto e enfileirando atrações de gosto duvidoso. Pra piorar, os que ficam cimentados no sofá — e na sala de espera dos consultórios, das lojas, dos escritórios, nos leitos dos hospitais — ainda tem o desprazer de assistir essa mesma ex-apresentadora demonstrando seus dotes de dança.

Senhor, que saudades dos Smurfs.

Conclui que diante da tevê meu azedume só tem a aumentar. Não sei o que as crianças de hoje — as que não tem tevê por assinatura — fazem pela manhã. Será que estão brincando nos seus quintais? Ou, enclausuradas e cabisbaixas diante de um aparelho celular assistindo Pepa Pig? E a programação virou o que virou por não haver mais crianças para assistir a tevê ou porque o número de adultos desocupados — ou desempregados — aumentou?

Talvez eu tenha me tornando azedo em excesso por nunca ter uma cartinha minha lida em rede nacional. Cá entre nós, nem sei se algum dia me dei ao luxo de enviar uma cartinha para a rainha dos baixinhos. É possível que o azedume venha daí, vai saber.

Lá pelas dez e até as onze, eu chutava a bola contra a parede e era um jogo de futebol do início ao fim.

Quem sabe deva comprar uma bola, chamar o Milton e ser — nós dois — um campeonato inteiro, todas manhãs. Melhor azedo (lembre-se: pode ser bem refrescante às ideias) desse jeito que tendo ânsia de vômito com a programação da emissora major do Brasil.

Se ao menos ensinassem os telespectadores a preparar um delicioso doce de maracujá.

Essa vida cheia de truques

Há quem não dispõe do privilégio de um aviso prévio.

Simplesmente, vai e não volta e fica sem a oportunidade de uma despedida, de um acerto de contas, de um pedido de desculpas, de um perdão. O rancor é dos grandes males do ser humano não apenas hoje, mas em toda história. Faz mal e tem fede azedo. Pobre de quem insiste nesse pântano amargo.

Aliás, a vida é cheia de truques e adora nos pregar algumas peças. Eu mesmo, já escrevi algo parecido com isso, salvo engano, publicado em livro. Os truques e as peças simplesmente acontecem, como num piscar de olhos, de um segundo para outro, a mudança pode ser definitiva. O amanhã pode não mais existir.

Há alguns anos, pouco importa precisar com exatidão, protagonizei um leve acidente. Lembro de ter saído do carro ainda trêmulo. Estava com o pensamento longe, com pressa, não passava pela minha cabeça que aquela curva tão inocente poderia ser o que foi. Não me machuquei. Meu carro não virou uma lata velha. Nada disso. Errei no acelerador, o carro derrapou na área, ziguezagueei de um lado a outro e invadi o meio fio como um touro bravo que avança na direção do pobre toureiro. Sem ninguém por perto e nenhum veículo à frente ou às costas. Apenas eu e meu carro.

Desliguei a chave, abri a porta, olhei para os céus e pensei:

 

— Meu Deus, podia ter capotado.

 

Por uma bobagem podia ter ficado sem um novo amanhã.

Volta e meia me imagino preso ao cinto de segurança dando piruetas pelos ares e pouco depois internado em algum hospital, sabe-se lá em que estado de saúde.

Quiçá tivesse tamanha sorte.

Foi um erro, um deslize, uma bobagem, um apagão. Sei lá. Prefiro acreditar que tenha sido um aviso. Como se alguém, do alto de sua sabedoria, tivesse colocado suas mãos nos meus ombros e dito:

 

— Tenha mais calma meu filho!

 

A última semana me coroou com a mesmíssima mensagem. Estamos sempre com tanta pressa e impacientes e irritadiços que nunca nos damos conta de que precisamos dar uma pisada no freio. Maneirar um pouco. Por alguma razão é comum nos darmos conta dos erros ou excessos quando estamos, tão-somente diante do acontecido, imóveis, estáticos, perdidos.

Quando, infelizmente, já é tarde demais para mudar os rumos da nossa própria história.

Talvez se eu tivesse um pouco menos “chutado” e com pressa na vez do acidente, nada do que me aconteceu teria acontecido, e, fatalmente, continuaria a correr e correr e a andar no limite. Igualmente, talvez a última semana não tivesse sido o que foi, se antes, lá atrás, tivesse prestado mais atenção nos detalhes, aqueles quase insignificantes que quase passam desapercebidas.

É por isso e somente por isso que penso nos setes dias que findam nessa quinta-feira como um aviso.

Pense.

Exercite o cérebro.

Quantas coisas guardamos sempre à espera do amanhã, da semana seguinte, do próximo mês, ano ou década? Como rabisquei lá em cima, o amanhã pode não mais existir, antes mesmo que você tenha se dado conta disso. Resumindo: você pode não ter uma segunda ou terceira chance de fazer diferente, por exemplo. Pode ser a areia na pista, o excesso de velocidade, um descuido com a alimentação, com o bendito aparelho que mede a pressão.

Já eternizei essas mesmas palavras em outras ocasiões, mas, é sempre bom lembrar, quiçá, rabiscando numa cartolina para colar no teto do quarto:

“Raras são as vezes que temos uma segunda chance na vida, então: se está muito rápido, desacelere; se tem vontade de ligar para alguém que está com saudades, ligue; se está pensando em mudar de vida, mas tem medo que possa não dar certo, respire fundo, messe as consequências, os prós e os contras e faça, arrisque, quem não arrisca nunca saberá se teria ou não dado certo”.

A vida é cheia de truques e adora nos pregar peças, quando menos se espera, menos se espera.

Que bom que a semana acabou, o amanhã virá e com ele novos hábitos.

 

No mais, grato pelo aviso.

Expulsar para nascer

Faz um pouco mais de três horas que foi expulsa do aconchego do ventre materno minha recém-nascida afilhada. Não lastimo sua expulsão da madre, visto que ela estava sendo ansiosamente aguardada aqui pelo pessoal de “fora”. Lastimo que ela chegue num tempo difícil e, por mais que eu queira ser positivo, penso que o porvir não será nada fácil. Então, dou-me conta de que respiramos ares natalinos e de certa forma me sinto alentado.

Natal é a celebração do nascimento, da vida que se renova, da vida que é expulsa para tornar-se íntegra. Natal, para a Cristandade é a festa do nascimento do menino Jesus, o messias aguardado pelo povo. É a festa da expulsão do menino-Deus dos altos céus para vivar menino-humano no meio da miséria humana.

Há que aprender a expulsar para nascer. Expulsar é abrir espaço para o novo. É gerar a possibilidade de transformação e renovação. Dever-se-ia cultivar tal hábito durante o ano, durante a vida como um todo.

Expulsar dos armários tudo que é supérfluo e doar peças para quem precisa… Gera-se vida para quem doa e para quem recebe. Chegar as estantes e passar adiante livros para quem tem sede de leitura… Abre-se possibilidade de novas leituras para quem doa e para quem recebe. Abrir gavetas e distribuir aqueles brinquedos que simplesmente estavam guardados… Gera-se alegria para quem doa e para quem recebe.

Final de ano é oportunidade para uma expulsão geral de tudo o que é ruim e foi se acumulando nos dias vividos. Por uma questão de re-nascimento, há que se expulsar pensamentos nocivos da cabeça e sentimentos ruins do coração. Talvez seja o processo mais difícil, porque temos uma necessidade muito grande de apegar-nos ao que nos faz mal (acredite, é verdade). Não queremos expulsar certos pensamentos, por uma questão de “honra” ao nosso rancor. E, toda vez que acumulamos ao invés de expulsar… morremos.

Por isso, querida Elena, já que o futuro não promete facilidades, lembre-se de expulsar para nascer. Faça jus ao teu nome: como tocha expulse sua luz para iluminar os dias de escuridão. Feliz Natal para ti Elena e para todos que desejam (re)nascer!

 

 

Os beijos que me roubaram nos festejos de Iemanjá

À sombra de árvores centenárias, bem no meio de uma rua em paralelepípedo, aguardava pelo pedido: peixe com alcaparras, ou ao molho de alcaparras ou com algum molho que tivesse alcaparras.

Tomava cerveja e também cachaça.

Pinga. Brejeira. Cana.

A dose era servida junto de um pratinho com pequenas fatias de caju. O ritual era quase o mesmo usado para beber tequila, porém, sem o sal. Primeiro, uma mordida na fatia de caju, segundo, um gole — único — na cachaça. Celebrava, se não me falhe a memória, as fotos recém tiradas dos festejos de Iemenjá, e ainda aproveitava para repassar as histórias ouvidas, vividas e testemunhadas e, as muitas pautas que fariam parte da edição seguinte da revista.

Uma dessas histórias dizia respeito a uma mulher que horas antes havia me pedido para que eu tirasse uma foto dela. Os olhos brilhavam, fiapos de cabelo escapavam na altura da testa e das orelhas e o suor acumulava-se acima dos olhos e dos lábios. Fiz as fotos e ela saiu, dançando e deixando-se perder, radiante e feliz, em meio à multidão que a exemplo dela acompanhava o cortejo. Pouco depois, à beira do cais, ela me interpelou, com os mesmos fiapos de cabelo escapando de um lado e de outro, o mesmo suor acumulado acima dos olhos e dos lábios e a mesmíssima felicidade que radiava:

— Pego as fotos contigo depois?

Atônito, encolhido, tímido, mas não necessariamente nessa ordem, respondi com o máximo de zelo possível, para não soar desagradável ou indiscreto ou sei lá o quê.

— Sim, sim, te passo depois.

Tentei, em vão, sair pela tangente. Evaporar. Sumir.

Não deu certo.

Aliás, confesso, não fui muito longe. Ela foi atrás. Insistiu. Uma, duas, talvez três, quiçá, cinco ou seis vezes. Me beijou. O rosto, as bochechas. Sem aviso prévio. Pura e simplesmente me beijou. Pá, toma aqui um beijão. Assim, smack.

Despistei de novo, ainda mais atônito, encolhido e tímido. E àquela altura, vermelho, muito vermelho. Fuji. O máximo que pude, crente que esconder-me à sombra daquelas centenárias árvores — enquanto esperava pelo peixe com alcaparras ou ao molho de alcaparras ou com algum molho que tivesse alcaparras — seria suficiente. Mas, não. Não foi suficiente. Como inço no mato, ela ressurgiu e outra vez se aproximou. E também, pela segunda vez e sem me dar um mínimo de chance de sequer reagir, respirar, me beijou outra vez o rosto, a bochecha, cravando, então, para a eternidade:

— Vou botar você na internet!

Exatamente isso. Vou botar você na internet!. Dançando ela se perdeu entre as ruelas da cidade histórica. Nunca mais a vi, nem quando retornei para Barra dois meses depois, a fim de registrar as estórias do velho Sócrates, o homem enciclopédia.

Guardei a foto, é verdade.

E mais: botei na internet.

Eu botei ela na internet.

Eu.

Talvez, nem sei dizer, para sempre lembrar dos dois beijos que um dia me foram roubados, em meio aos festejos de Iemanjá.

 

Blá, blá, blás de um fã de meia tigela

Quando o compact disc desbancou o long play, claro, promoveu uma revolução sem precedentes na maneira como consumimos música. A vida útil do primeiro, no entanto, foi menos prodigiosa do que se podia esperar, e o CD, esmagado pela era digital.

A música migrou para formatos mais práticos e acessíveis, bastando, nos dias de hoje, se muito, um fone de ouvido plugado num aparelho celular para se ouvir, em qualquer lugar, desde um b-side do Elvis até hits de vida curta como “Despacito”.

Sentir saudades das fitas K7 e dos aparelhos três em um com autoreverse, portanto, está fora de cogitação.

Aliás, não é uma ode à nostalgia ou sobre ser, ou não, mais divertido consumir música antes dos anos dois mil. Posso empilhar parágrafos cheios de argumentos fofos, que, provável, não consiga convencer ninguém nascido em meados da década de noventa que assistir a um show quando o celular era quase do tamanho de uma impressora, podia ser tão ou mais divertido do que é hoje.

Eu mesmo, tornei-me um fã de meia tigela.

Degringolei de assistir in loco os shows do The Who e do Bon Jovi, só para citar dois, porque a televisão me proporcionou tal experiência, com o adendo do conforto do meu sofá.

Também não é sobre isso: fãs de meia tigela.

Dizer que o show do Guns n´Roses no Rock in Rio 2017 foi decepcionante é muito mais fácil quando se vê pela televisão. Acontece que a tevê não substitui a experiência do “ao vivo”, do empurra-empurra, do cara de dois metros que para bem na tua frente e faz com que tu não consigas nem ver o que está rolando no telão, da vontade de mijar sabendo que se está no meio de vinte mil pessoas e sair do lugar significa “fim de festa”, do téte-a-téte com o artista mesmo que se passe longe de sequer triscar dele.

É preciso passar por tudo isso para se concluir que talvez seja mais interessante assistir pela tevê. Em dois mil e dez eu sai de Porto Alegre para São Paulo — numa epopeia de dois voos, ônibus lotação, metrô, táxi, fila para pegar o ingresso na bilheteria, explicações para o segurança sobre o porquê de eu carregar um guarda-chuva se não havia previsão alguma de São Pedro chorar — para assistir ao show do Rush no estádio do Morumbi. O conjunto da obra durou muito mais de doze horas, mas foi inesquecível. Nem sempre fui fã de meia tigela, que fique claro.

A era Spotify/Youtube — devem haver outras plataformas que o fã de meia tigela, aqui, desconhece — dá ênfase ao hit, o single, no caso do segundo ao lyric video. Ninguém quer saber das músicas novas do Titãs. O disco é item de colecionador. Vá lá, alguém tenha comprado a edição comemorativa de trinta anos de lançamento do “Cabeça Dinossauro”. A experiência de se manusear um álbum, com direito a regozijo com o chiado da vitrola o cheiro do encarte novo é causo que se conta numa reunião de amigos trintões numa sexta-feira à noite.

Logo, de uma meia dúzia.

Mais: uma meia dúzia que não vai ao Rock in Rio para ver o Thirty Seconds To Mars antes do Red Hot Chili Peppers e talvez nem aguente acordado pra ver e ouvir “Give it away”.

O fato é que muito se reclamou sobre o público da recém encerrada edição do festival estar mais preocupado com as selfies do que com a música. Mas é óbvio que está. E sejamos francos, é até natural. O Rock in Rio não é um festival feito para fãs, da mesma forma, que não é um festival que priorize o estilo que carrega no nome. É, quando muito, um evento para se ostentar o fato de se ter ido, mesmo, que não seja mais preciso comprar uma camiseta preta escrito “eu fui” com letras garrafais nas costas.

Ninguém chiou que o The Who tenha deixado para a trupe de Sir. Axl Rose a honra de se tocar “The Seeker”. E isso, minha gente, é crime.

Sem mais.

Sem vergonha

Vergonha: Alguns têm em excesso. Outros sequer sabem o que é. Alguns se ruborizam. Outros nem mudam de expressão. Alguns a sentem diante de desconhecidos. Outros até mesmo diante de pessoas íntimas. Alguns a sentem porque erraram; outros porque nunca vão admitir o erro.

No processo de tornarmo-nos seres sociais, a vergonha é um bom cânon. É uma medida para perceber o quanto podemos ou não ser importunos, inapropriados e inconvenientes. Chamaria até a “vergonha” de mecanismo de defesa para evitar gafes para pessoas com bom senso. Porém, em se tratando da raridade de bom senso reinante, a vergonha tem sido usada como força opressora.

Ensinaram-nos a ter um tipo de vergonha opressora e nós aprendemos!

Ensinaram-nos a ter vergonha do corpo quando envelhece ou quando engorda. Ensinaram-nos a ter vergonha de ir à praia quando se está acima do peso. Sem-vergonha (quando o hífen transforma as palavras no sinônimo de “canalha”) é a pessoa que critica a corporeidade de outrem.

Somos educados a ter vergonha de colocar uma roupa que chamam de “indecente”. Porém, criam-nos indecentes quando vendem nossos corpos para satisfazer padrões estéticos e nos convencem de que isso é normal. Disso, até agora nunca vi ninguém sentir vergonha.

A gente aprende a sentir vergonha de expor sentimentos, por ser sincero consigo mesmo e com os outros. Em contrapartida, tanta gente que deveria ter vergonha de ferir, magoar, maltratar, sequer se sensibiliza. Lembro da frase de Benjamin Franklin que diz: “Tudo o que começa com raiva, acaba em vergonha” – atualmente, arrisco-me a dizer que a maior parte das situações que começam com raiva, terminam com dissimulação.

 

Por falar nisso, não vi nenhum político corrupto dizer às câmeras que se sente envergonhado pelo dinheiro desviado, pelas extorsões cometidas. Tenho vergonha do nível de hipocrisia que vivemos, onde os mais sem-vergonha nem sequer ruborizam a face. Diametralmente, recordo-me da polêmica que se gerou ao dizer que mulheres não deveriam amamentar em locais públicos e que mostrar o seio durante a amamentação é um ato vergonhoso.

Vivemos a inversão da vergonha: Os que deveriam, não a sentem; enquanto os demais são vitimizados por ela.

Sem-vergonha todo corrupto. Sem-vergonha quaisquer opressores. Sem-vergonha os que mentem. Sem-vergonha os que espalham ódio.

Sem vergonha da própria corporeidade. Sem vergonha para vestir o que gostamos. Sem vergonha de expressar nossos sentimentos. Sem vergonha de amamentar. Sem vergonha de admitir erros. Sem vergonha de amar. Sem vergonha de ser feliz!

 

Às vezes a gente melhora, mas passa

Assistindo, pela segunda vez, Relatos Selvagens, a espetacular película argentina, sucesso absoluto de crítica e público, percebi que o episódio do casamento, último do longa, é quase — veja bem, quase — uma analogia do que  são e se transformaram os “textões” na internet, em especial, claro, aqueles vomitados como verdade absoluta no Facebook — vide, a maioria.

No episódio em questão, em tradução livre para o português, Até que a morte nos separe, uma noiva descobre, no dia do casamento, que é traída e que a amante do futuro marido está entre os convidados da festa.

A sucessão de eventos, no entanto, consegue transformar a pasmaceira tradicional de uma cerimônia de casamento no mais absoluto caos. Isso mesmo, agora em caixa alta: CAOS. O fracasso da relação, escancarado até as tripas, para todo olhar reprovativo e julgamento precoce. Igual — salve esteja ficando maluco — ao que se propõem quem posta textão na internet. Este, aliás, está preocupado apenas e tão somente com o próprio umbigo. Mais: quer chamar atenção a todo custo.

Se a relação é mentirosa então que todos saibam.

Se é barraco o que se quer, barraco é o que se terá.

Não quero, nem pretendo, justificar as razões que fizeram a noiva retratada pelo cinema argentino tomar as decisões que tomou, mas, parece óbvio que a inconsequência parece estar presente em ambos, no filme e nos textões — ainda que não necessariamente os textões na internet versem exclusivamente sobre os perrengues a dois.

Reparem.

Vale o esforço.

De uma hora para outra, tudo virou razão para se empilhar parágrafo atrás de parágrafo e enter.

Pimba.

Como num passe de mágica o desabafo vira a única realidade/verdade possível.

Ter um textão viralizado virou objetivo de vida.

E por isso reclama-se e fala-se e cospe-se qualquer coisa, com um enfeitezinho aqui e acolá, tudo em prol de angariar uns quantos milheiros de curtidas e compartilhamentos.

Está chato.

E, muitas vezes — na maioria — constrangedor.

Tudo, qualquer coisa, virou razão para empilhar parágrafo atrás de parágrafo, enter atrás de enter. “O que você está pensando?” Opa, lá vem textão.

O dedo na ferida que já está até cicatrizada. Mil vivas à selvageria.

Os textões na internet são exatamente isso.

Relatos Selvagens.

No ambiente virtual, no entanto, perdura uma crença desvairada de que tudo é permitido. Válido. Ainda. Como se o reclamante estivesse falando num megafone e todos, em absoluto, tivessem de concordar ou crer ou aplaudir.

Tomar para si as dores.

Compartilhar.

Apropriando-me de aspas da incomparável e única, Lygia Fagundes Telles, “o mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora, mas passa”.

Só parece que não avisaram as redes sociais.

Que passe. Às vezes a gente melhora. Às vezes.