XY

Nascemos com o cromossomo XY e a partir disso, como homens, herdamos da sociedade uma série de características que não são apenas biológicas, mas representam uma faceta do que considera-se normativo em determinada época e cultura. Em grandes traços, o “masculino” é o principal beneficiado de uma cultura patriarcal que cultua o “macho” como fonte de força e inteligência, que goza de liberdades e benefícios em detrimento das mulheres. Muitas vezes respalda-se esse tipo de pensamento usando textos sagrados, tais como Bíblia e o Alcorão, usando de uma sórdida interpretação literalista com uma intencionalidade muito clara: Fazer do macho o todo-poderoso, o centro de tudo.

Criou-se um mito do que é seria “a masculinidade”. Na Grécia antiga, por exemplo, os heróis gregos apresentados na constituição do masculino referem-se aos mitos de Aquiles, Ulisses, Hercules, Teseu, dentre outros, cujos atributos que os identificam são a força, o poder, a coragem, a astúcia e a inteligência, excluindo-se o medo, a inveja e a raiva. O “endeusamento” do masculino nesse ideal de perfeição afasta-o de uma “humanidade saudável”.

Os homens alegam sentir-se perdidos porque não sabem mais ser homens, já que o modus operandi natural da macheza teria sido proibido pelo politicamente correto. Será? Penso que o dilema é bem mais profundo. Precisamos nos dar conta de a “masculinidade” não foi destronada pela pós-modernidade fluida; tampouco pelos avanços obtidos graças às lutas feministas são culpados por essa crise de identidade.

A chamada masculinidade tóxica é aquela que não suporta se olhar no espelho e ver-se diferente dos seus ideais. Nessa perspectiva, o machismo estrutural e a misoginia vão ser consequência do processo de transformar o mito em realidade. É desse pensamento tóxico que surge a ideia de que para ser homem é preciso ser assertivo no trabalho, ter a última palavra sobre as coisas, ser forte, ter boa performance sexual.

A crise da masculinidade é alimentar esse ideal de identidade viril que nunca existiu de fato. O masculino na atualidade é, portanto, um gênero atrás de si mesmo, à medida que tantos mitos caem por terra.

Você está feliz

A palavra “felicidade” move a indústria da moda, da beleza e do comércio. Boas campanhas publicitárias não vendem meramente produtos, mas atacam (realmente atacam!) o público alvo com a promessa de que mediante determinado produto alcançarão a felicidade. Lembro-me de uma propaganda de refrigerantes em que ao abrir a latinha da bebida ouvia-se uma voz dizendo “abra a felicidade”. Seria muito simples atrelar o sentir-se feliz à possessão de bens materiais. O paradoxo que muitas vezes se impõe é a ironia de que pessoas com muito, não são necessariamente são as mais felizes. Logo, felicidade não está em produtos.

Surgem cada vez mais best-sellers de autoajuda que prometem levar a pessoa à verdadeira felicidade desde que siga determinada metodologia proposta. Particularmente não tenho paciência para esse tipo de literatura porque sempre me soa a um tipo de charlatanismo barato em que uma pessoa (supostamente) feliz tenta ensinar outrem a ser feliz da maneira dela. Estar feliz é como CPF: único e intransferível. Você pode até ler sobre o assunto, buscar uma inspiração, um exemplo, mas precisa adaptar e conjugar isso à tua personalidade. Logo, felicidade não é receita de bolo ou uma passo a passo único e universal.

Dias atrás comemorávamos o ‘dia dos namorados’. Muitas declarações de amor. Muita gente projetando no cônjuge a responsabilidade sobre sua própria felicidade. Tirânico isso, não? Podemos escolher pessoas para dividir alegrias, compartilhar agruras; mas imputar sobre alguém a responsabilidade de te fazer feliz é algo atroz. Essa ideia de romantizar (excessivamente) o amor é perigosa. Amor tem tristezas sim. E colocar a felicidade sobre as costas de alguém é muita irresponsabilidade própria, além de ser um exemplo claro de “burrice emocional” (contraponto de “inteligência emocional”). Logo, felicidade não vem de ninguém de fora, precisa estar dentro de você.

As redes sociais são fundamentais na construção contemporânea de “felicidade”, pois não basta estar feliz, é preciso registrar na internet e mostrar para os outros a tal “felicidade” mediante fotos, stories ou quaisquer tipos de postagem. Convenhamos, isso é um tipo moderno de escravidão. Dificilmente alguém é feliz sendo escravo: Colocar a própria felicidade nas mãos dos “cliques” alheios é colocar a chibata na mão do capataz. Logo, felicidade é algo do mundo real – não do virtual.

Os verbos ser e estar tem significados bem diferentes, embora os usemos de maneira tão equivocada. Costumamos dizer que somos felizes, quando na verdade, estamos felizes. Entender essa diferenciação é muito importante para compreender a vida como ela é, porque efetivamente ser feliz é humanamente impossível; enquanto que estar feliz permite-me entender que a vida tem altos e baixos. Qualquer pessoa pode estar passando por um momento bem difícil em sua vida e estar feliz. Estar feliz é apenas um dos inúmeros estados de espírito que alguém pode experimentar. Se perguntarem-me sobre minha facilidade, tranquilamente respondo que estou (ou não) feliz. Logo, é muita presunção alguém afirmar que a é feliz.

Estranhas exceções

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou em Pindorama um projeto de criminalização da homofobia. Até aí tudo certo, afinal assim como negros, indígenas e outras minorias, a orientação sexual e a identidade de gênero não podem ser alvo de discriminação. Afinal, somos todos iguais e temos os mesmos direitos constitucionais, certo? Não. Errado.

Segundo o Senado, para todo e qualquer cidadão a homofobia é crime, exceto se você estiver na igreja. Resumindo essa estranha exceção: No Brasil, dentro de igrejas ou quaisquer templos religiosos você pode ser preconceituoso, homofóbico, machista e misógino. Estranhamente, as igrejas que defendiam o “amor ao próximo” citando o nazareno Jesus, o Cristo, lutaram e conseguiram o “direito” de cometer um crime: Ofender, discriminar e perseguir pessoas.

Enquanto isso, um grupo de crianças para adoção “desfila” em passarela de shopping. O evento tinha por objetivo, conforme os idealizadores, ajudar crianças e adolescentes a encontrar um lar com o intuito de serem adotadas. Essa estranha exceção dentro do processo burocrático de adoção, me remete aos tempos do Brasil colônia, quando os brancos iam às praças comprar seus escravos… Daí a pouco encontraremos nos jornais anúncios do tipo “Adota-se uma criança, com faixa etária entre 01 e 03 anos, cor branca para chamar de ‘filho’”.

A problemática dessas “exceções” desmascara uma estranha faceta da sociedade pós-moderna: Ainda não conseguimos compreender e aceitar a individualidade das pessoas. Ainda não conseguimos compreender a integridade de um indivíduo que tem todo direito de ser humano como qualquer um dos mais de 7,53 bilhões de habitantes do planeta terra. Ainda olhamos os outros como objeto de pertença, como produto de escambo, como artigo de manipulação. Infelizmente, valoramos e desvalorizamos as pessoas por sua cor, etnia, classe social, sexualidade – e essas estranhas exceções respaldam isso.

Toda exceção pode tornar-se algo muito perigoso quando cerceia o direito de liberdade, igualdade e dignidade. Por isso, o direito à vida deveria ser regra e não exceção.

Parecer

Quando Lulu Santos cantava em sua música “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”, ele tinha muita razão. Passam-se anos e o comportamento das pessoas não sofreu uma mudança paradigmática. Dei-me conta disso quando reassisti depois de 19 anos (sim, 19 anos!) o vencedor do Oscar dos anos 2000, o polêmico “Beleza Americana” que ficou famoso por questionar o “American way of life” – ou seja, o estilo americano de viver.

Os personagens da trama são muito densos, com conflitos muito pessoais, mas o que une todos é a necessidade de parecer: Cada personagem se transveste com máscaras para parecer ser um “bom marido”, “uma vendedora de sucesso”, “uma jovem sexualmente ativa”, “um machão”… Tudo parece, mas não é!

Para muitos pesquisadores da pós-modernidade, o que define nossa sociedade e o que valora o ser humano é a capacidade de ‘ter’: ter bens, ter carros, ter criatividade, ter emprego… Enfim, ter coisas palpáveis para valorar. Bens e valores que possam ser produzidos por obra. Penso que o “ter” tem perdido o lugar para uma categoria mais abstrata e que é nossa velha conhecida: o “parecer”.

Não preciso de dinheiro, mas tenho que parecer rico. Minha vida está em frangalhos, mas eu preciso parecer feliz. Eu não sei o que quero da minha vida, mas preciso parecer decido. Essa projeção de aparência vem para satisfazer a projeção da imagem dos outros, porque nessa “brincadeira”, ninguém sabe mais qual é a imagem real. De forma muito significativa, as redes sociais e suas imagens poluem o imaginário humano e nos impelem a entrar nesse mecanismo do viver de aparências.

O problema é que a tirania do “parecer ser o que não se é” oprime e gera muito sofrimento. Carregar máscaras para satisfazer a imagem perfeita drena muita energia e, ao contrário do que se pensa, gera muita infelicidade. De tanto aparentarmos, diluímos nossa potencialidade e deixamos de nos autoconhecer. Advogamos em prol da diversidade e, no fim das contas, queremos nos nivelar a partir dos outros, condicionando a própria felicidade à vontade alheia.

Passaram-se 19 anos e ainda queremos imitar o protótipo da família do comercial de margarina, tudo isso para parecer… Talvez precisemos andar com passos de formiga, com cautela, mas com muita vontade de fusionar o ser e o parecer. Porque bonito mesmo é ser feliz, não parecer feliz.

Divinamente fabuloso

Era uma mistura de sangue, feno, placenta, choro de bebê e alegria. Ela respirava aliviada, depois de alguns longos minutos de dor de parto, aninhava-se em seu seio aquele pequeno ser humano. Sua cabeça girava com tantos pensamentos e ter aquele pequeno ser em seus braços era o alento que lhe restava.

Muitos diriam que era loucura sair do conforto de sua casa dias antes do parto, mas essas pessoas não têm ideia do que é ter sua casa sitiada por milícias. Tais pessoas nunca ouviram tiros à porta de casa e bombas caindo como chuva torrencial sacudindo móveis, disparando alarmes e roubando mais uma noite de sono. Desejava que o filho nascesse em segurança. Em paz. Longe de tudo aquilo.

Os resquícios de esperança alimentaram a longa caminhada junto com pão seco amassado por gente ruim e água. Caminhar com o peso de 9 meses era praticamente um milagre que se mesclava no meio de tantos refugiados. Receber tantos ‘nãos” na cara e a recusa de um abrigo fazia-a sentir-se menos que um animal.

A exclusão ela já tinha sentido de inúmeras formas à flor da pele. Menina-mulher, negra, analfabeta e pobre. Grávida. Talvez esse fosse o maior problema. Desconfiaram de sua honestidade, afinal nem 330 mulheres são dignas de serem levadas à sério diante de uma sociedade patriarcal. Esse era o seu caso. Não poderia contar com a compreensão. Era mais fácil ser vista como vagabunda, mulher fácil, que “dá pra qualquer um”. Era mais fácil desistir de tudo aquilo. Ter deixado um feto sem ver a luz. Porém, contra tudo e todos, ela decidiu ser mãe.

Quando anunciou sua gravidez, tremia muito. Tremia e temia as reações. Quase que por um milagre de sonho, seu companheiro não a abandonou. Ele era carpinteiro, mas bem vivia de alguns bicos. Decidiu engravidar junto e tornar-se pai. Sabia que não poderia dar ao filho uma vida de luxos. Podia fazer-se presente, o que significava agora segurar a mão de sua companheira e cortar o cordão umbilical. Ele contemplava aquela nova vida ali, pronta para experimentar as dores e alegrias da humanidade.

Ela respirou fundo. Aquele momento de abandono era um privilégio. Aquele estábulo-abrigo era a casa que há muito havia sonhado: sem guerras, sem violência, sem coiotes, sem preconceitos, sem sociedade hipócrita. O estábulo era o que de mais próximo do Céu ela já havia experimentado. Como testemunhas apenas os animais em sua mansidão, talvez os únicos dignos de crédito. Ela guardava tudo aquilo em seu coração, como uma velada prece. Ainda não sabia para onde iriam depois, mas de uma estranha maneira, do jeito que só a fé pode atestar, ela sabia que tudo aquilo era divinamente fabuloso.

Notas de cotidiano

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

Pessoa de valor

Na sociedade pós-moderna, nós humanos passamos a valorar e ser valorados não mais pela nossa essência, por aquilo que é inerente ao nosso ser: nossa personalidade, nossas qualidades; mas sim por nossa capacidade produtiva, por nossa beleza, por nossos bens, por tudo aquilo que podemos sintetizar no verbo “ter”. Sendo assim, “quando temos, existimos”. Segundo o escritor Mark Manson, o dilema que se impõe é que para “ter” as pessoas acabam baseando sua vida em “valores escrotos”.  No popular, “escroto” significa chulo, negativo, ruim. Sendo sinceros conosco mesmos é impossível não ver o quanto a escrotisse (neologismo meu) tem feito parte das nossas ações, das nossas falas, da nossa suposta moralidade. Nomeio aqui apenas três valores que considero escrotisse pura.

Valorar a vida tendo o prazer como mola propulsora sem dúvida nos leva à consciência de quanto vazia e rasa a vida pode ser. Prazer é ótimo, mas é um péssimo valor para basear a vida, porque uma hora o prazer acaba. Na linguagem bíblica, o prazer é um falso deus, pois engana e pede sacrifícios cada vez maiores dos seus seguidores. Prazeres superficiais levam à ansiedade, à instabilidade emocional e à depressão. A felicidade não nasce onde pessoas se escravizam por padrões de beleza, por sexo, por glutonaria, por status financeiro ou qualquer outro prazer fugaz. Uma pessoa de valor sabe que o prazer não é a causa da felicidade, é efeito dela.

Sucesso material nunca garantiu a felicidade de ninguém. Curiosamente há muitos relatos de gente “podre” de rica (curioso usarmos essa expressão de podridão para algo que deveria ser bom) que sucumbe à solidão. Então, porque seguimos inculcando uns aos outros que dinheiro trás felicidade? Têm-se provas empíricas de que isso não é verdade. Há que desconstruir tal valor escroto se quisermos alcançar genuína felicidade, ou seja, travar uma luta árdua com os meios de comunicação que apregoam justamente o contrário. Uma pessoa de valor aprende a ser realistas e assume a responsabilidade por tudo o que faz, planeja, organiza, de forma que ela é dona do dinheiro e não o contrário.

O último valor escroto que cultivamos é uma mistura de jactância com ego, que simplesmente chamo de síndrome do querer estar sempre certo. Pessoas que se arrogam como perfeitas e sabichonas, além de irredutíveis, são… São escrotas! Uma pessoa que quer sempre estar certa não consegue aprender com os próprios erros e também não consegue absorver sabedoria que outras pessoas possam oferecer. Uma pessoa madura e feliz sabe lidar com a rejeição, tem a capacidade de dizer e ouvir um “não”. Além disso, uma pessoa de valor reconhece a própria ignorância e se dispõe a descobrir suas falhas e erros para que possam ser melhorados.

O ser humano precisa aceitar-se a si mesmo e aceitar os outros, o que às vezes custa árduo trabalho. Cada ser humano precisa achar sua identidade, descobrir um sentido, elaborar um projeto de vida com bons valores. O que é um bom valor? É o que promove o bem pessoal, interpessoal e coletivo. Família, escola, Igreja podem ser instrumentos de ajuda nesse processo, desde que não estejam contaminados pela escrotisse da vida moderna. Tornar-se uma pessoa de valor passa longe do prazer vazio, da conta bancária e do querer ser um gênio. Toda vez que a vida envereda esses caminhos, o resultado é catastrófico.

Animais

O que mais admiro nas religiões orientais e também na crença indígena é o respeito à natureza. É essa espiritualidade que consegue enxergar todos os seres viventes como uma grande comunidade global, onde cada ser, cada ecossistema, cada planta e animal está intimamente ligado ao Criador. Diante disso, toda vida é considerada sagrada, da formiga ao humano, da arara-azul ao elefante. O que me assusta é como o Cristianismo desenvolvido no ocidente transformou a natureza como um produto a ser desfrutado, consumido e extinto. Sim, extinto como tantas espécies já foram.

Recentemente uma reconhecida e tradicional marca de roupas francesa decidiu, temporariamente, substituir o famoso crocodilo da marca em suas camisas polo por 10 espécies ameaçadas de extinção. Esse projeto chama-se “Save our Species” (Salvem nossas espécies). Serão 1775 camisas. A quantia específica não é por acaso: o número representa exatamente a quantidade destas espécies remanescentes na natureza. Assim, por exemplo, foram fabricadas 50 camisas com o Lêmure Septentrional, pois só existem 50 de tal animal vivos atualmente. Somente 20 camisas foram bordadas com a Vaquita, um mamífero marinho, e 240 com a Iguana de Anegada.

A humanidade tem assassinado a natureza, porque quando li a manchete dizendo “Baleia cachalote com 6 kg de plástico no estômago é encontrada morta na Indonésia”, não pude pensar em outra palavra: Isso é crime! Querem detalhes do crime? Eis a perícia: “Plástico rígido (19 peças, 140g), garrafas plásticas (4 peças, 150g), sacos plásticos (25 peças, 260g), chinelos (2 peças, 270g), pedaços de barbante (3,26 kg) e copos plásticos (115 pedaços, 750g)”. Tudo isso – produção bem humana – assassinou o animal.

O que esperar um animal racional que não defende nem a vida de seu semelhante? Que ele zele pelo bem dos outros animais?

Tento exorcizar meu pessimismo acreditando que existem pessoas que se importam, que há empresas que não usam animais para seus testes na formulação de produtos, que há abate digno dos animais que se doam para nos alimentar. Alegrou-me saber que o estado do Rio de Janeiro proibiu o uso de canudos de plástico –é um começo “redentor” muito tímido. Embora esteja bem presente na minha memória o perturbador vídeo de uma tartaruga marinha oliva sofrendo com um canudo plástico preso em sua narina.

Nós humanos seguimos sendo perigosos para os animais. Todos têm nas mãos o sangue de inúmeras espécies. Por isso, de uma coisa tenho plena certeza, “Se os animais tivessem religião o ser humano seria o Diabo”.

Alguém para ouvir

A noite tinha sido demasiadamente longa. Não pregara os olhos momento algum. Carregava no peito um aperto que lhe roubava o ar. No primeiro raiar de luminosidade levantou, colocou suas costumeiras roupas e após sorver alguns goles de café foi até sua vizinha. Bateu à porta, não tardou a vizinha aparecer. Sua face demonstrava surpresa, afinal para um domingo de manhã tal situação era inusitada. Ela disse: eu gostaria de conversar! A vizinha encabulada disse algo do tipo: você não quer voltar depois? Acabei de levantar e preciso arrumar algumas coisas…

Ela saiu às ruas e, caminhando em direção ao centro da cidade encontrou uma simpática senhora sentada no banco da praça. Tal senhora estava bastante perfumada e, a julgar sua roupa bem passada, devia estar fazendo hora antes de ir para alguma igreja. Ela disse: Eu gostaria de conversar! A senhora prontamente disse que sim e começou a falar da bíblia, de Jesus e de tantas coisas entre o céu e a terra que Ela não teve nem voz e nem vez. Por fim, a senhora olhou seu relógio, alegou estar atrasada e despediu-se apressadamente.

Ela seguia angustiada. Precisava verbalizar seu sentimento. Precisava dar voz à sua dor. Seguiu caminhando e, amanhecendo num bar de esquina encontrou um jovem que certamente tinha passado a noite divertindo-se. Pensou consigo mesma que talvez fosse alguém ideal para conversar. Ela disse: Eu gostaria de conversar! E, antes que Ela pudesse terminar de falar, o jovem passou a dissertar sobre sua vida, seus problemas, seus dilemas. O jovem dizia: Não fique triste com isso! Olha, eu já passei por coisa muito pior! Acredite tem gente numa pior!

Ainda sem ter encontrado um ouvido empático, Ela estava a ponto de sucumbir. Caminhou sem parar e chegando à plataforma de trem da cidade ficou pensando em arremessar-se diante da locomotiva já que não conseguia falar de sua dor. Enquanto divagava em seus pensamentos, um senhor que a observava de longe, segurou-a pelo braço e perguntou: Você gostaria de conversar? Ela respirou fundo e, com todo o ar que inspirara, disse um desesperado sim.

Sentados num banco da estação de trem, o senhor ouviu Ela com toda paciência e atenção. Ela não precisava de conselhos. Ela não precisava ter sua dor relativizada ou comparada. Ao que tudo indica aquele senhor não disse nada, nem precisou, pois Ela precisava apenas falar e sentir que alguém a ouvia de verdade.

Carl Rogers, psicólogo humanista, dizia: Quando percebem que foram profundamente ouvidas, as pessoas quase sempre ficam com os olhos marejados. Acho que na verdade trata-se de chorar de alegria. É como se estivessem dizendo: “Graças a Deus, alguém me ouviu. Há alguém que sabe o que significa estar na minha própria pele”.

O sufixo -ismo e as eleições

Há muitas palavras que são formadas com o sufixo -ismo. Esse sufixo greco-latino possui diversas  possibilidades de significado: Fenômeno linguístico (rotacismo), sistema político (parlamentarismo), religião (judaísmo), doença (acefalismo), esporte (hipismo), ideologia (marxismo). Além destes, o sufixo –ismo revela um fenômeno curioso que têm se delineado cada vez mais às vésperas das eleições presidenciais deste ano: Nunca respiramos ares de tamanho extremismo!

Acompanho vez e outra as “grandes” filosofias e reflexões de ditos “sabichões” nas redes sociais. Cada qual defendendo com unhas e dentes o seu candidato, na certeza extrema e absoluta que o seu candidato é a salvação para o país (messianismo). O clima é tão tenso, que é impossível criar um espaço sadio de diálogo sem troca de ofensas. Não tente discordar, argumentar ou perguntar! Não se deve questionar, pois este ato já te coloca no outro lado do ringue. Portanto, sintetizaram tudo em duas opções extremistas: ou você é de extrema direita (fascismo) ou de extrema esquerda (comunismo).

Enquanto candidatos vestem esta carapuça e vendem sua imagem ‘supostamente’ imaculada – criando um ilusionismo que maquie interesses pessoais e vantagens políticas – uma plateia alienada e pronta para defender o seu candidato vai somando cada vez mais inimizades, acreditando que depois das eleições tudo volta a normalidade. Lembro da única fábula bíblica, o ‘apólogo de Jotão’, que narra o diálogo das árvores em busca de um rei. A oliveira, a videira e a figueira negam (os mais capazes não aceitam liderar!), mas o espinheiro (aquele que não dá sequer sombra e que fere com seus espinhos) prontamente se proclama rei das árvores. Conclusão: Nem a maioria das árvores soube escolher um bom líder!

Somos a nação que muito ladra e pouco morde. Adoramos vestir verde e amarelo, buzinar nas ruas, falar bonito nas redes sociais (na verdade, mais ataques de ódio considerados patriotismo). E tudo termina onde? No abismo, em nada, porque definitivamente as pessoas não mudam. Não penso que a solução venha da troca de presidência, seja qual for eleita. A começar que tal e qual árvores do apólogo de Jotão, a maioria não tem condições, nem sequer conhecimento adequado para avaliar um bom candidato. Valores supérfluos como camaradagem, troca de favores obstaculizam a escolha sóbria de um bom candidato. Além disso, a “massa” é muito volúvel, hoje ama, amanhã odeia; a massa é muito suscetível por isso existem técnicas e técnicas de manipulação de massas desde a psicologia até o marketing. O povo, a maioria não é detentora da verdade. Sim, eu disse isso: A maioria não sabe o que é melhor.

O conceito de democracia que desenvolvemos no Brasil está bem longe de sua gênese. Os gregos designavam um regime político especificando o número daqueles que exerciam o poder. Assim, criaram a palavra “monarquia” que significa um só (mon) à cabeça (arche). Do mesmo modo, a “oligarquia” significa alguns (olig) à cabeça (arche). Logicamente, se os gregos quisessem evocar a ideia de que todos governam, ou “o povo exerce o poder”, teriam falado de “demarquia“. Não foi, no entanto, a palavra que escolheram e isso não foi um acidente. Na democracia, o povo não é necessariamente governante. O povo é a condição do poder ou a finalidade, mas em nenhum dos casos, o poder propriamente dito. Essa é nossa confusão. Portanto, não importa quem ganhe as eleições. Não adianta mudar o governo, porque o povo ainda é o mesmo. Essa democracia de –ismos não nos levará muito longe.