Notas de cotidiano

Há algumas semanas, viajei para São Paulo a trabalho. Fiquei cinco dias lá, em meio a horas de trânsito, vários pedestres com semblantes sérios, bem vestidos, fumantes, clima instável, treinamentos e muito, muito barulho. Uma correria pura. Levei comigo um bloco de anotações vermelho que uso como uma espécie de diário, onde anoto pensamentos variados do cotidiano. Durante a viagem, utilizei o termo “notas” para referir aos detalhes que observava e achava interessante. “Notas de Hotel”, “Notas de Aeroporto”, “Rápidas”, “De Rodoviária”, “Notas da Estrada”, enfim, o que aparecesse eu escrevia.

Escrevi sobre o meu medo de viajar de avião (ainda mais com muita chuva e neblina lá em Barreiras); sobre o tédio no aeroporto após o vôo atrasar e, posteriormente, ser cancelado; sobre a antipatia de certos atendentes; filosofias de estrada como “o céu parece mais escuro quando se está longe de casa”; sobre a saudade da esposa; sobre conexões sem fio (se a conexão é sem fio, desconfio); e a minha preferida, que anotei depois de pagar exatos SETE REAIS por uma garrafa de água mineral: “algumas águas são melhores que outras”.

Alguns dias depois do acidente que minha mãe sofreu, folheei uma agenda que ela possuía, novinha em folha. Na página datada em 27/01, dia em que ela iria embora, ela anotou: “Voltando para casa”. Ela parou antes da metade do caminho. Desafiei-me a fazer o mesmo. No dia de voltar para LEM, escrevi como nota de hotel: “Voltando para casa”. Venci o desafio.

Alexander Supertramp, o rapaz aventureiro de “Na Natureza Selvagem” diz no filme (digo no filme porque não lembro se tal frase aparece no livro): “O espírito da vida humana vem de novas experiências”. Ou algo do tipo. Viajar é uma ótima experiência, mas melhor ainda é chegar em casa. Já a morte, não, mas tiram-se lições valiosas.

Por isso, como nota de hotel, escrevi (em inglês, porque achei que ficaria mais bonito): “there’s no place like home”. Esse texto poderia também servir como nota. O chamaria de Nota do Cotidiano. Ou Filosofia Barata do Dia-a-Dia. Fique à vontade para escolher.

Doce de maracujá

Uma moça de voz rouca cometeu a ousadia de me comparar a um doce de maracujá. Isso tem alguns anos. Fui um doce tão, mas tão azedo que ela preferiu lambuzar os lábios com outros sabores, claro, menos cítricos. Lembrei dela porque outra moça, dona de um simpático sotaque recifense, resolveu resgatar, não o doce ou o maracujá, mas, o azedo.

Assim:

— Um azedinho pode ser bem refrescante às ideias.

Me achei, claro.

Imagina, eu, refrescante. Pois, sim, sou azedo, não posso negar. Tem quem goste, tem quem não. Hoje de manhã, perto do meio-dia, decidi ligar a tevê. Sentei, estiquei as pernas e em dois minutos, pensei: “Meu Deus, como posso ser tão azedo?”

Quando era criança gostava de acordar antes das oito para dar tempo de tomar um generoso copo de nescau antes de assistir Os Smurfs. A tevê era mais legal. Okay que as vezes as moças que apresentavam os programas infantis exageravam nos trajes mínimos, mas os desenhos compensavam tudo. E ainda tinha as cartinhas. Milhares delas e a mesma moça de trajes mínimos sentada em cima da pilha jogando as cartinhas pro ar até escolher uma para ler. Era o máximo.

Hoje não tem mais desenho na tevê convencional. As crianças não precisam ficar grudadas na frente da tevê para ver se a sua cartinha seria lida, nem esperar a hora certa para ver A Caverna do Dragão. Tablets, celulares, Youtube e tevê por assinatura fazem isso por elas. Eu que não sou mais criança, olho com azedume de lacrimejar os olhos, a programação da tevê. Pobre de quem não tem opção.

Primeiro, um papagaio de araque e uma senhora fazendo as vezes de super jovem discutindo trivialidades, depois uma ex-apresentadora do principal telejornal da tevê (será que isso é lá grande coisa?) ditando regras com convidados tão insossos quanto e enfileirando atrações de gosto duvidoso. Pra piorar, os que ficam cimentados no sofá — e na sala de espera dos consultórios, das lojas, dos escritórios, nos leitos dos hospitais — ainda tem o desprazer de assistir essa mesma ex-apresentadora demonstrando seus dotes de dança.

Senhor, que saudades dos Smurfs.

Conclui que diante da tevê meu azedume só tem a aumentar. Não sei o que as crianças de hoje — as que não tem tevê por assinatura — fazem pela manhã. Será que estão brincando nos seus quintais? Ou, enclausuradas e cabisbaixas diante de um aparelho celular assistindo Pepa Pig? E a programação virou o que virou por não haver mais crianças para assistir a tevê ou porque o número de adultos desocupados — ou desempregados — aumentou?

Talvez eu tenha me tornando azedo em excesso por nunca ter uma cartinha minha lida em rede nacional. Cá entre nós, nem sei se algum dia me dei ao luxo de enviar uma cartinha para a rainha dos baixinhos. É possível que o azedume venha daí, vai saber.

Lá pelas dez e até as onze, eu chutava a bola contra a parede e era um jogo de futebol do início ao fim.

Quem sabe deva comprar uma bola, chamar o Milton e ser — nós dois — um campeonato inteiro, todas manhãs. Melhor azedo (lembre-se: pode ser bem refrescante às ideias) desse jeito que tendo ânsia de vômito com a programação da emissora major do Brasil.

Se ao menos ensinassem os telespectadores a preparar um delicioso doce de maracujá.

Essa vida cheia de truques

Há quem não dispõe do privilégio de um aviso prévio.

Simplesmente, vai e não volta e fica sem a oportunidade de uma despedida, de um acerto de contas, de um pedido de desculpas, de um perdão. O rancor é dos grandes males do ser humano não apenas hoje, mas em toda história. Faz mal e tem fede azedo. Pobre de quem insiste nesse pântano amargo.

Aliás, a vida é cheia de truques e adora nos pregar algumas peças. Eu mesmo, já escrevi algo parecido com isso, salvo engano, publicado em livro. Os truques e as peças simplesmente acontecem, como num piscar de olhos, de um segundo para outro, a mudança pode ser definitiva. O amanhã pode não mais existir.

Há alguns anos, pouco importa precisar com exatidão, protagonizei um leve acidente. Lembro de ter saído do carro ainda trêmulo. Estava com o pensamento longe, com pressa, não passava pela minha cabeça que aquela curva tão inocente poderia ser o que foi. Não me machuquei. Meu carro não virou uma lata velha. Nada disso. Errei no acelerador, o carro derrapou na área, ziguezagueei de um lado a outro e invadi o meio fio como um touro bravo que avança na direção do pobre toureiro. Sem ninguém por perto e nenhum veículo à frente ou às costas. Apenas eu e meu carro.

Desliguei a chave, abri a porta, olhei para os céus e pensei:

 

— Meu Deus, podia ter capotado.

 

Por uma bobagem podia ter ficado sem um novo amanhã.

Volta e meia me imagino preso ao cinto de segurança dando piruetas pelos ares e pouco depois internado em algum hospital, sabe-se lá em que estado de saúde.

Quiçá tivesse tamanha sorte.

Foi um erro, um deslize, uma bobagem, um apagão. Sei lá. Prefiro acreditar que tenha sido um aviso. Como se alguém, do alto de sua sabedoria, tivesse colocado suas mãos nos meus ombros e dito:

 

— Tenha mais calma meu filho!

 

A última semana me coroou com a mesmíssima mensagem. Estamos sempre com tanta pressa e impacientes e irritadiços que nunca nos damos conta de que precisamos dar uma pisada no freio. Maneirar um pouco. Por alguma razão é comum nos darmos conta dos erros ou excessos quando estamos, tão-somente diante do acontecido, imóveis, estáticos, perdidos.

Quando, infelizmente, já é tarde demais para mudar os rumos da nossa própria história.

Talvez se eu tivesse um pouco menos “chutado” e com pressa na vez do acidente, nada do que me aconteceu teria acontecido, e, fatalmente, continuaria a correr e correr e a andar no limite. Igualmente, talvez a última semana não tivesse sido o que foi, se antes, lá atrás, tivesse prestado mais atenção nos detalhes, aqueles quase insignificantes que quase passam desapercebidas.

É por isso e somente por isso que penso nos setes dias que findam nessa quinta-feira como um aviso.

Pense.

Exercite o cérebro.

Quantas coisas guardamos sempre à espera do amanhã, da semana seguinte, do próximo mês, ano ou década? Como rabisquei lá em cima, o amanhã pode não mais existir, antes mesmo que você tenha se dado conta disso. Resumindo: você pode não ter uma segunda ou terceira chance de fazer diferente, por exemplo. Pode ser a areia na pista, o excesso de velocidade, um descuido com a alimentação, com o bendito aparelho que mede a pressão.

Já eternizei essas mesmas palavras em outras ocasiões, mas, é sempre bom lembrar, quiçá, rabiscando numa cartolina para colar no teto do quarto:

“Raras são as vezes que temos uma segunda chance na vida, então: se está muito rápido, desacelere; se tem vontade de ligar para alguém que está com saudades, ligue; se está pensando em mudar de vida, mas tem medo que possa não dar certo, respire fundo, messe as consequências, os prós e os contras e faça, arrisque, quem não arrisca nunca saberá se teria ou não dado certo”.

A vida é cheia de truques e adora nos pregar peças, quando menos se espera, menos se espera.

Que bom que a semana acabou, o amanhã virá e com ele novos hábitos.

 

No mais, grato pelo aviso.

Tempus fugit

Faz um tempo que me “acusaram” de ser pontual em demasia. Faz um tempo que venho pensando em todas as nuances dessa afirmação. Não foi uma crítica construtiva, daquelas que destroem e a gente finge que constrói para não ser deselegante. Foi simplesmente uma constatação de que ando na contramão da maioria das pessoas. Sim! Eu chego pontualmente até em festa de aniversário. E até agora, não me sinto nenhum pouco culpado por isso – exceto pelo aborrecimento de esperar todos os convidados e os donos da festa chegarem.

Faz muito tempo, desde que me conheço por adulto enclausurado na rotina do “crônus” que odeio e detesto esperar. Logo, valendo-me da regra da retribuição: Não deixo os outros esperarem, porque detesto que façam o mesmo comigo. A única que posso perdoar é a noiva. Mas isso é até uma questão de tradição, mas por favor atraso matrimonial de 15 minutos está excelente e cumpre os requisitos da tradição. Mais que isso é deselegância pura!

O que é a rotina do crônus? É a nossa famosa ordem sistemática de acordar e fazer a mesmíssima rotina guiada pelos ponteiros do relógio toda hora, todo dia, toda semana e por aí vai. Tal rotina oferece segurança e simultaneamente uma sensação de esvaziamento de vida.

Faz tempo que venho pensando que mau-uso o meu tempo: Deveria estar estudando mais, lendo mais… culpo-me, assim como inúmeras pessoas, pelo tempo ocioso. Mas o tempo ocioso é tão bom! Porque sentir culpa? Porque o tempo passa e temos a sensação de que deveríamos estar fazendo tudo e mais um pouco para alcançar plenitude.

Em contrapartida, faz tempo que penso que deveria levar uma vida menos cronometrada e sim, me permitir atrasos. Aproveitar uma rotina de vida mais biológica e menos mecânica – o que é um desafio enorme. Penso logo nas famílias com bebê ou até mesmo animais de estimação. É impossível não frear o tempo para aninhar e acolher as necessidades de quem depende de você. Frear o corre-corre e deixar-se invadir pelo ócio é sinal de saúde mental e psicológica – devemos estar loucos mesmo!

De todo tempo perdido ou ganho (depende da sua perspectiva), só sei que o tempo foge, nas palavras do saudoso Rubem Alves: “quem sabe que o tempo está fugindo, descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será”.

Até aí. Com licença. Estou atrasado – é meu novo mote de vida.

Homens e cavalos-marinhos

Fiquei observando os cavalos-marinhos: Além de sua similaridade com os equinos terrestres, o seu categórico imperativo de masculinidade me deixa perplexo. A Divindade foi muito injusta ao conceder somente às mulheres o dom de parir (Fica aqui o meu protesto!). A conexão entre criadora e criatura (aquela que gera e aquele que é gerado) é um laço insubstituível. Isso na raça humana. Diferentemente acontece no mundo dos Hippocampus que gestam seus filhotes. A “maternidade” tão associada à figura feminina, no fundo do mar sofre uma inversão: É o cavalo-marinho macho que gesta e pare os filhotes.

A tendência de caracterizar o masculino por muito tempo partiu da premissa de contrapô-lo ao feminino: homem não chora/mulher chora; homem é forte/mulher é fraca; homem é racional/mulher é sentimental. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? A modernidade com seus questionamentos trouxe à tona a discussão de gênero (Vale uma ressalva: Tem gente que só de ouvir a palavra “gênero” já tem um troço). Mas qual o problema de questionar a construção social do que é ser homem e do que é ser mulher? (Pois é isso que a discussão de gênero propõe).

Todo o diálogo sobre gênero e as diversas formas de expressar-se como homem ou mulher, criou sobretudo no homem pós-moderno uma crise profunda no sentido do que define a masculinidade. O sexo masculino, penso eu, tem mais dificuldade em assumir suas crises pois foi ensinado que “expressar sentimentos não é coisa de homem”. Ao questionarmos isso, a masculinidade nos seus antigos padrões é posta em cheque: o homem mantenedor da casa; o homem mantenedor/provedor da família; o homem viril. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? O homem é parte de uma família e também tem responsabilidade na educação dos filhos (não basta mantê-los!) e de igual forma, homem nenhum tem a obrigação se ser um “sex machine”.

Assusta-me quando homens precisam afirmar sua masculinidade depreciando o feminino. Relatos desse tipo se ouvem nos barzinhos da vida, que para muitos ainda é local de macho, assim como as borracharias e os estádios de futebol. E por aí vai… Mas quem disse que a regra é essa? Ainda bem que existem mulheres ocupando estes e outros espaços para mostrar que nenhum espaço geográfico é definido pelo sexo.

Assusta-me relatos de medo frente ao feminino e de qualquer coisa que remeta ao feminino: flor, laços, cor de rosa (porque ainda existem homens que dizem usar camisa cor “goiaba” pra não dizer cor-de-rosa). Homem não é sinônimo de machista. Pode-se usar cor de rosa, flores e até laços sem se sentir menos homem por isso. Acho que essa é a grande inversão dos novos tempos: Nos dizer que uma nova visão de masculinidade é possível. A começar agregando um plural: Masculinidades. Não existe só um tipo de homem – Masculinidades são possíveis. Obrigado Sr. Cavalo-Marinho por parir por mim!

 

Tão exibido quanto

Eu queria dizer, do fundo do meu coração, que eu não quis ver o piercing que ela tinha no umbigo. Tinha acabado de terminar a leitura de um conto de Raymond Carver e ainda refletia a respeito, quando ela entrou no vagão do metrô, e, por não ter lugar melhor para se acomodar, parou diante da porta, quase em frente de onde estava sentado.

É claro que minha atenção poderia ter se voltado para os joelhos, também libertos, pois a calça jeans que usava continha dois rasgos, um em cada perna. Mas, não, meu olhar decidiu que aquele umbigo e piercing era o ponto onde deveria repousar.

Minha visão era privilegiada, preciso admitir. A blusinha que vestia era laranja e ela ainda usava um colete jeans, de mangas esfiapadas. Os cabelos estavam presos com um rabicó também laranja, usava óculos de sol com lentes reflexivas, e não, não vi seus olhos.

O tênis que calçava era branco e estava limpo, de maneira impecável, diga-se. Pelo fechecler, entreaberto da bolsa era possível ver um pedaço mínimo de papel A4, o qual, deduzi posteriormente, ser parte do seu currículo. No trajeto de duas, talvez três estações, ela não parou um minuto sequer de conversar com outra pessoa, uma garota, mais jovem que ela, mas, que por estar de costas para mim e pela movimentação dos outros passageiros, não me chamou tanta atenção assim.

Aliás, é exatamente sobre chamar atenção que esses parágrafos tratam. Eu não consegui em nenhum momento desde que ela entrou no metrô tirar os olhos do seu umbigo e do piercing que lá estava. Era um piercing exibido, isso sim. Exposto. Escancarado e suplicante de alguém que o adorasse. Arrisco que qualquer um sentado na posição em que eu me encontrava também ficaria hipnotizado, pelo umbigo, pelo piercing e, claro, pela junção harmoniosa e perfeita de ambos.

Aqueles minutos que valeram o dia, a semana, quiçá, o mês inteiro me puseram a lembrar de uma vez, em que me disseram que devia provar do beijo de alguém com piercing na língua.

— Cara, tu precisas beijar alguém com piercing na língua, é surreal, coisa de outro mundo. Não vai querer beijar outra boca nunca mais.

— Sério? É tão bom assim?

— Prova cara, tu não vais se arrepender.

Bá, eu devo ter ficado tão inebriado com aquilo que, por pouco, não saí a caça de uma pessoa com piercing na língua para beijar. Provar. Ter. Acho que fiquei tão embasbacado com a vil possibilidade de um beijo surreal e de outro mundo que, mesmo vasculhando as mais íntimas memórias, não consigo, de modo algum, recordar se, de fato, beijei ou não alguém com piercing na língua um dia.

Acho que não. Se não me lembraria, afinal, teria sido um beijo surreal, de outro mundo e nunca mais haveria de querer beijar outra boca, sei lá, uma boca normal, com lábios normais e uma língua sem um pedaço de metal esterilizado enfiado lá no meio.

Continuei, tão hipnotizado e sem conseguir desviar o olhar daquele umbigo e piercing que por pouco não percebi sua saída do vagão. Antes ela ainda mexeu na bolsa, no papel A4, como uma última conferência para se certificar que estava tudo lá. A outra garota, que até então, não passava de uma reles passageira do trem se despede:

— Boa sorte — diz.

E, então, ela sai do vagão, do trem, do metrô, da minha vida. Ela, o umbigo e o piercing. Cogito retirar o livro do Carver da bolsa, retomar a leitura, pensar em outra coisa. Passageiros entram, passageiros saem. O trem, enfim, chega a estação, a minha. A outra garota continua lá e pela primeira vez, desde que ambas entraram no vagão, tenho a chance de vê-la de frente.

Eu que já andava pesaroso, tentando confabular um cenário crível para a garota — primeira — de piercing no umbigo, e, quase, desejando boa sorte também, de repente me pego sem conseguir o sorriso, que escapule, escapa, transborda. A outra — segunda — também tinha um piercing no umbigo, tão exibido quanto o anterior, tão exibido quanto.

 

***

Minhas escusas ao leitor que se sentiu incomodado com as TREZE vezes que utilizei a palavra piercing essa semana — ops, CATORZE. Prometo me conter da próxima vez, basta que não sejam tão exibidos.

 

Cansei de ser honesta

Cansei de ser honesta e respeitar os sinais de trânsito, enquanto tantos outros aceleram no amarelo e até no vermelho, empurram a gente em qualquer faixa, proferem xingamentos, especialmente às mulheres, passam por cima dos pedestres e boa parte das vezes não são punidos, sequer com uma multa. Cansei de ser honesta e pagar minhas contas em dia, inclusive a TV por assinatura que meu vizinho que fala mal do governo e da corrupção fez um “gato” esses dias e me deu o maior trabalho com a operadora para identificar o problema e corrigir.

Cansei de ser honesta e gentil, pagando mais ou menos um preço que considero digno e que cabe no meu bolso para minha diarista. Vejo tanta gente explorando absurdamente essas pessoas, às vezes até pagam o mesmo que eu, mas faltam negar às funcionárias a água de beber. São humilhadas a esfregar janelas e batentes até a ponta, sem a menor necessidade, mas não podem comer uma banana sequer. Usam 1.001 produtos tóxicos de limpeza pra esfregar e deixar brilhando o ego dos patrões egoístas.

Cansei de ser honesta e trabalhar todos os dias, inclusive após o expediente e em finais de semana, nada remunerados, muitas vezes por um senso de necessidade e de responsabilidade. Tanta gente que fala em ética, caráter, honestidade, corrupção vive de atestados médicos para matar expediente – e isso ganhando salários muito altos. Além disso, acumula cargo, ocupa computador do serviço público para ver blogs de games enquanto os processos e demandas se acumulam. Humilham os demais colegas de trabalho e subordinados, não tem noção de liderança, são seres cuja ganância os limitou a serem apenas mesquinhos. Querem um governo e um emprego que, na verdade, só aumentem o salário pessoal de cada um. E o resto que se dane.

Cansei de ser honesta e estacionar nas vagas para todos. Tanto marombeiro jovem que estaciona nas vagas de idosos e de deficientes físicos que eu sinceramente não compreendo como não se sentem mal. São a geração “eu mesmo, agora e sempre”. O mundo nasceu do meu umbigo e é a partir dele que se movimenta. Meu carro, minhas viagens, meu bem-estar, minhas conquistas, meu tênis da Nike, meu carro importado, aquele show do ano naquele festival famoso. O resto não interessa.

Sinceramente, cansei de ser honesta. Porque não era para ser difícil, pesado, para dar trabalho. Mas confesso que vendo um pouco disso e de tantos outros exemplos no dia a dia me sinto nadando contra a maré. A gente começa a se perguntar quando é que o mundo virou… Será que virou ou eu que sempre vi errado? Será que ainda tem jeito de mudar?

 

Crônica | Camisa de botão

Não costumo usar camisa de botão. Aliás, são raras as vezes que as uso. Na maioria, prefiro a básica camiseta velha de guerra. Questão de preferência pessoal mesmo. Talvez, baseada naquela máxima que diz ser melhor vestir-se com aquilo que te faz bem, independente do que os outros vão dizer a respeito.

E o fato é que camisetas me fazem bem. Simples assim. Camisas de botão, por outro lado, nem tanto, embora, precise, esporadicamente, tirar uma delas do guarda-roupas, pois, infelizmente certas ocasiões exigem e a vida adulta ensina que uma camiseta com a estampa do Grace Under Pressure, quando você menos esperar, vai ficar bem melhor na morena de cabelos cacheados que um dia dormiu ao seu lado.

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“Eis a capa que um dia foi estampa de uma camiseta que acabou ficando bem melhor naquela morena de cabelos cacheados”.

Dia desses tirei uma dessas camisas de botão do meu guarda-roupas. Susto. Estranheza. Após certo período interagindo com as mesmas pessoas todos os dias, a exceção provoca reações dispares. Como se uma camisa de botão pudesse me catapultar para outro patamar, bem diferente, daquela quase impressão de despojado que as básicas camisetas da maioria das vezes dão a entender.

Senão, reparem:

— Humm, tá bonitão hoje?

(Será, que nos outros dias, quando a preferência pelas velhas camisetas fala mais alto, estou menos ou nenhum pouco “bonitão”)

— Tá diferente, com um ar mais sério.

(Diferente, ok, mas “com um ar mais sério”? Então, como estou nos dias da básica camiseta? Menos sério? Engraçado? Largado? Relaxado?)

Essas foram apenas algumas das reações que ouvi, depois de, num dia de sol desses qualquer, trocar a básica camiseta velha de guerra por uma camisa de botão de manga longa.

E…

Uau!

Chega a ser impressionante.

Conclui, sem muito esforço, que um homem “bem” vestido com uma camisa de botão mexe — e muito — com o imaginário feminino. A mudança no olhar e até mesmo nos gestos é/foi notória. A feição do rosto pareceu ganhar um acento próximo ao canto dos lábios. Uma dose de marotice, quase imperceptível, mas ainda assim, escancarada nas entrelinhas de um sorrisinho bobo.

Nada disso, no entanto, foi ou um dia será capaz de me fazer substituir as básicas camisetas velhas de guerra por novas camisas de botão. Prefiro o que me faz bem. Ponto. Hoje pode ser aquela nova camiseta com a estampa do Grace Under Pressure, adquirida depois que a morena de cabelos cacheados levou embora a primeira; amanhã uma camisa de botão.

Tanto faz.

A reação que um barbudo degenerado vestindo uma velha e surrada camiseta e uma camisa de botão bem passada conseguem provocar é o que realmente importa.

Aliás, nós, homens, temos reações parecidas quando, por exemplo, vemos uma mulher que normalmente usa calçados sem salto, num belo dia, resolver abalar o mundo com um onipresente salto alto.

O acento no canto dos lábios é o mesmo. A diferença, se muito, reside entre o uso do batom e a preservação de uma robusta barba.

Porcos

Porco é sinônimo de sujeira. Ontem, hoje e sempre. Experimente, por exemplo, vomitar no carpete da sala do parente que só se vê uma vez ao ano ou do colega de trabalho chato que resolveu fazer um happy hour com todos da repartição para ver de que animal serás chamado. É óbvio. Porco. Essa será a palavra gritada em coro, quiçá, com algumas caras de nojinho tentando desviar o olhar, quase sufocadas pelo mau cheiro que, provável, a de tomar conta do ambiente.

Embora as probabilidades de um vômito como o citado acima acontecer sejam mínimas, será que o individuo que descarta o papel de bala no chão, ou a latinha de refrigerante pela janela do carro em movimento não merecem igual reconhecimento, por serem tão ou mais nojentos e sujos que você, que não teve tempo de correr para o banheiro, antes de eliminar os restos mortais da feijoada comida horas antes da famigerada golfada pública?

Se queres mesmo uma resposta, ei-la:

Claro que sim.

Óbvio, lógico e evidente.

E merecem tanto quanto eu e — novamente — você que não dá a mínima para os panfletos deixados no seu carro — esses que vendem, de comida fast-food, a lava-jato (o meu e o seu carros devem estar sujos) até serviços de cartomancia — no longo intervalo, entre o chegar ao trabalho e o voltar pra casa, ou, descartando-os ali mesmo ou acumulando-os dentro do veículo, quando sua consciência ambientalista estiver um dedinho ou dois mais aflorada que o normal, ainda que, você não saiba exatamente onde e como se desfazer daquele monte de papel reunido nos bancos e no piso do seu quatro rodas.

Porcos. Os que fazem multiplicar os panfletos e todos demais que os descartam, se muito, após cinco segundos de observação. Grosso modo, não sabemos o que fazer com o lixo que produzimos. Usamos e abusamos de sacolas plásticas e copos descartáveis, quase que unicamente despejando esse e todo lixo a mais que produzimos, seja no ambiente de trabalho, no boteco, na balada do final de semana, ou em casa, apenas se desfazendo do que não nos presta mais. Em linhas gerais, duas ou três vezes por semana, levamos pilhas de sacolas plásticas para fora de casa, pois, sabemos que alguém (caminhão de lixo) irá passar e pegar nosso lixo para, posteriormente, descartá-lo em outro lugar.

Literalmente, vivemos no lixo. Ponto. Vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana, trinta dias num mês e trezentos e sessenta e cinco dias num ano.

Lixo. Palavra paroxítona, duas silabazinhas apenas. Éle, i, xis, ó. LIXO.

Como porcos falantes e que cantam com os Titãs e ainda riem da própria desgraça.

A lógica é muito simples. Somos consumistas e compulsivos. Desde crianças ensinadas a viver para ter um trabalho que nos garanta condições financeiras para gastar aos montes e ter uma vida com um mínimo de qualidade. Por isso e só por isso compramos e acumulamos todo naipe de bugiganga possível, transformando nossos lares em depósitos de velharias, às vezes nem tão velhas, mas estereotipadas a se tornarem defasadas num curto espaço de tempo.

Não temos prática com o desapego e nos dias de hoje ainda delegamos a falta de tempo o fato de mantermos tanta quinquilharia acumulada. Outro agravante: o descarte irá para onde? Para um terreno baldio que virou depósito de dejetos? Porque não praticamos a reciclagem? Falta tempo também? Vontade? Interesse?

Em resumo: laboramos com tanto afinco única e exclusivamente com o intuito crasso de consumir, consumir e consumir. Um sapato, uma bolsa, um batom, um novo telefone, um carro, um computador. Tudo e no fundo apenas, lixo, lixo e mais lixo. O novo de hoje é o velho de amanhã. Tudo que é novo nasce fadado a ser velho e, por lógica, desprezado, substituído e por isso tendo como destino a lata de lixo. De novo: vivemos no lixo, talvez, somente iludidos pela tentativa em se promover uma caricata sensação de novidade.

A novidade, a propósito, aliada à propaganda vende até merda, quem dirá um novo modelo de celular sensível ao toque ou um vestido que será usado quando muito no casamento da prima de segundo grau. Acostumamo-nos, deste modo, influenciados pela perversa mente dos publicitários que criam as propagandas que assistimos na televisão a acumular itens supérfluos em nossos lares, nossas carteiras, no porta-luvas do carro, onde quer que seja. Carregamos nossos lixos descartáveis por todo canto. Compramos por instinto, em muito, sem necessidade alguma. Apenas pelo prazer do novo. Da superação do velho. Datado, superado e vencido.

Como a feijoada vomitada no carpete do parente distante ou do colega chato da repartição. Porco. Todos nós.

 

Inversão

O advento das Olimpíadas desperta em muitos a paixão pela competição, do torcer para que sua equipe ganhe. Busca-se a excelência de corpos e performances. O esporte exige muito. Vai-se ao limite para ganhar. Poucos sabem, mas foi um pastor dominicano, amigo do barão de Coubertin, chamado Henri Didon, que criou o lema olímpico: Citius, Altius, Fortius. Traduzindo do latim: “mais rápido, mais alto, mais forte”.

Perdoe-me o pastor, mas detesto esse lema. Primeiro porque sempre estive do lado perdedor, não houve sequer um jogo de queimada (alguém aí já jogou?) do qual pudesse me vangloriar de vitória. Jogava pela simples alegria de jogar, sem exigências, sem cobranças por perfeição. Segundo, o lema pode ser motivador para um super atleta, mas para os seres humanos, a inversão desse lema é muito mais interessante.

Mais rápido? Não! Quero desfrutar cada momento dessa vida que já é curta por si só. Quero divagar ouvindo música, vendo um bom filme, lendo um bom livro. Quero paciência para conversar, não quero ter pressa para rir, chorar e jogar papo fora. Não quero ter de trabalhar que nem um louco correndo para cumprir prazos “pra ontem”. Não quero ter que correr desenfreadamente atrás da felicidade, quero recebê-la de forma preguiçosa e lenta – porque na rapidez deixamos muita coisa boa fugir. Agilidade na medida certa para não esmorecer, mas que a respiração fique ofegante pelo que realmente faz sentido e não por mera pressa de terminar o que precisa ser fruído l-e-n-t-a-m-e-n-t-e.

Perdemos muito tempo sonhando com a altura, com o pódio, com o lugar mais alto, mais evidente, mais em destaque. A altura carrega efemeridade – é impossível estar sempre por cima. Poupo-me do sofrimento da queda. Não trata-se de avaliar a vida em subidas ou descidas, mas sim de pôr os pés no chão e curtir a caminhada. Pensa-se tanto na “altura” que acabamos esquecendo a realidade. Eu e mais um monte de gente anda sedenta de chão: alguém em quem confiar, um trabalho que te sustente dignamente, um hobby que te faça sentir vivo, comida na mesa, alguém para compartilhar a caminhada… Que sejamos íntegros, não prostrados à baixeza, não subservientes à “fossa”, mas com os pés no chão, com mais humildade, verdadeiramente humildes-húmus-chão: Não no alto, mas ser humano-ser húmus.

Associa-se facilmente força com agressividade e até violência. Fomos doutrinados a acreditar que os mais fortes é que vencem… Me pergunto: Medir forças pra quê? Quero a força do amor, que é suave, delicada. Não quero forçar ninguém a nada e não quero ninguém me exigindo nada à força. Quero ser fraco: quero poder chorar, me lamentar. Quero ser forte para persistir diante dos obstáculos, não desejo força para oprimir ninguém. Quero a força de reconhecer os meus erros. No mais, quero despir as armaduras e, assim frágil, sentir verdadeira empatia por quem está perto. Que hajam palavras delicadas, gestos delicados de acolhimento. Menos força e mais resiliência – capacidade de voltar à integridade apesar da força contrária exercida sobre nós.

Mais devagar, mais humildade e mais delicadeza: Eis um lema pelo qual eu topo competir – Lentius, Humilius, Subtilius.