Será?

Soube por e-mail que a crônica da semana passada seria publicada no feriado de Independência. Escrevi na segunda. O e-mail chegou na terça. Na quinta passei a tarde toda afastado do universo virtual. Só fui saber do ocorrido com Bolsonaro no início da noite. Nem sequer cogitei um ajuste, um post scriptum, um aparte que seja. A grande rede de um modo geral se prontificou a vomitar todo tipo de argumento e opinião. Uma a mais ou a menos não faria — e, para ser sincero, não fará — diferença. Creio que entre os poucos leitores que tenho, todos sejam suficientemente crescidos para identificar as melhores fontes antes de saírem por aí a cuspir suas próprias verdades.

Por isso, decidi que minha verborragia semanal teria como mote o Faustão. Um engodo que há trinta anos dissemina bobagens nas salas de estar da família (pôr ou não pôr umas aspas ali?) todo domingo. Na sua primeira aparição na emissora dona da maior fatia de audiência da tevê brasileira, o dito cujo pronunciou um retumbante palavrão, o que, à época, em se tratando do horário, era novidade. Quase um ultraje. Uma afronta. Pouco depois — lembro a ponto de sentir a ponta da língua queimada — minha tia tirou uma nova refratária cheia de pão de queiro do forno. Nossa memória é engraçada. O pão de queijo quentinho, possivelmente, seja a única justificativa viável para que, mesmo após trinta anos, ainda guarde essa lembrança. O que me foge à compreensão são as razões de haver um contrato vitalício — só pode ser, né? — entre o comunicador e a referida emissora, afinal, são três décadas incorporado tal qual um parasita à programação dominical da tevê brasileira.

Cacete!*

É uma vida.

Sei que tudo que expor aqui não necessariamente contará com a aprovação unânime. Nunca foi meu intento. Se existe quem assista e considere minimamente útil qualquer coisa vinda da boca do tal apresentador, que assim seja. Há uma lenda, a qual ainda acredito ser verdadeira, que o Brasil é um país onde a de prevalecer a democracia. Aliás, o mesmo vale para aquela outra lenda que diz que o Brasil é um país laico. Se alguém acha que assistir ao Domingão do Faustão se configura como um entretenimento capaz de selar com chave de ouro o fim de semana de quem quer que seja, quem sou eu para questionar. Na minha humilde opinião — agora sim — o Domingão do Faustão é uma das razões de o Brasil estar na situação deplorável que está.

A propósito, tem um clássico do besteirol americano, que eu até já devo ter citado em alguma das centenas de crônicas que escrevi para o blog nos últimos quatro anos, que diz em alto e bom tom que merda vende. É isso. Esse modelo de entretenimento pratica exatamente essa lógica. O processo de idiotização passa diretamente pela arte de vender merda e nisso, programas de auditório como o malfadado Domingão do Faustão são PhD.

No entanto, o mercado se constrói justamente por existir quem consuma aquilo que está à venda. O que menos importa é a qualidade do produto. Vale qualquer coisa para conquistar o cliente, o usuário, o abestalhado que bate palmas para a Dança dos Famosos. Quando não há opção, faz-se o quê? Testa-se o que é oferecido até se ter plena certeza de que não é necessário procurar — caso da tevê — outro canal.

Que o melhor é sossegar. Manter o nível de comodismo no mesmo patamar. Sem queixumes.

Enquanto isso e até receber a prova do meu primeiro livro de autoajuda, vou lá, no link da crônica publicada no feriado de Independência. Seleciono o título. Crt + C. Crt + V.

O Brasil não se leva a sério faz tempo.

Ora, são só uns famosos disputando uma competição de dança em horário nobre. São só uns jovens dançando no semáforo. Somos, afinal, uma democracia, um país laico.

Será?

Largatos: a quase primeira banda de rock de LEM

Em 1999 os aproximados 18 mil habitantes — talvez, nem isso — do povoado recém rebatizado de Luís Eduardo Magalhães guardava certa dúvida sobre o que a mudança de nome viria a representar num curto espaço de tempo. O processo que culminaria com a emancipação encontrava-se num momento crucial. O então novo distrito precisava provar que tinha condições de seguir independente de Barreiras. Enquanto o processo de convencimento de ACM seguia seu curso em Salvador e Brasília — a emancipação só se consolidaria no ano seguinte — na esquina da Rua Paraíba com a Avenida JK era instalada a Fibracan, empresa especializada em consertos em fibra de vidro e que viria a se tornar o “quartel general” de dois irmãos (opa, o mais velho deles, este que vos escreve) na faixa dos 17 e 20 anos, oriundos do interior do Rio Grande do Sul.

No afã de ter o que fazer como diversão decidimos montar a própria banda. Uma viagem à Brasília foi suficiente para aquisição dos instrumentos que faltavam: uma bateria e um contrabaixo. A guitarra tinha vindo junto no porta malas do velho e saudoso Fiat Prêmio. A espinha dorsal do grupo ficou em família, eu na bateria; meu irmão, Saymond, na guitarra e vocais e nosso primo, Guto, ou, Gutão, no contrabaixo. É preciso destacar que nossa experiência remota com a música tinha duas vertentes: uma bandinha de garagem de heavy metal que tivemos no auge da adolescência, no meu caso, como vocalista; e uma possível herança genética, oriunda do nosso avô, experiente músico de baile que, entre outras peculiaridades tocava um contrabaixo amarelo sem trastes e animava qualquer roda de amigos, ou não, com sua gaitinha de boca.

Assim, com parca experiência e técnica, a Largatos fez seus primeiros ensaios.

 

A barulheira chamou atenção — claro, ensaiávamos de porta e janela aberta. Em pouco tempo, nossas tentativas de produzir música transformaram-se em pequenos eventos, com muita gente espiando da porta ou da janela do escritório da Fibracan, entre eles, os primeiros fãs, jovens que, como nós, ansiavam por algum tipo de lazer que o distrito não oferecia. Não tardou para o primeiro acréscimo na formação da banda acontecer. Fabinho (que depois veio a fundar a Unidade 8), assumiu a segunda guitarra, transformando a banda num quarteto. A essa altura, o repertório da Largatos era um misto de versões de clássicos do rock nacional, os primeiros esboços de canções autorais, entre elas “Vendaval”, “Poeta Medíocre”, “Bibêlo”, “Quatro Olhos” e “Caos Social Injetável”, além de trechos de músicas de bandas gringas como Black Sabbath — o solo de “Bibêlo” era descaradamente parte do solo de “Iron Man”, The Doors, Led Zeppelin, Beatles, etecetera.

Quando a banda chegou a três, quatro meses ensaiando as mesmíssimas versões muitas vezes aproveitando o horário de almoço, a vontade e o desejo de fazer o primeiro show — não necessariamente nessa ordem — fez a banda, pela primeira vez, colocar os instrumentos do lado de fora e ensaiar abertamente, tornando visível e convidativa a aproximação de mais e mais curiosos. Como um evento teste, queríamos ver como as coisas soariam, talvez, sentir se estávamos ou não prontos para um show de verdade. Acontece que locais para apresentações musicais, à época, eram — imagine Luís Eduardo Magalhães há quase vinte anos atrás — escassos e muitas vezes, só a boa vontade alheia poderia tornar algo do tipo possível.

O centro da nova cidade girava em torno da Igreja Matriz e da Associação dos Moradores do Mimoso do Oeste (AMMO), onde praticamente todas as festas, almoços, confraternizações, bailes de debutantes e velórios aconteciam. Numa dessas festas, a Largatos foi convidada para seu primeiro show, como atração secundária da atração principal da noite, a banda de pagode Os Bocas, de Barreiras. Apesar de uma passagem de som desastrosa — inexperiente, sofri para adequar o kit da bateria ao meu tamanho e jeito de tocar — o anúncio de que a atração principal faria um intervalo no seu show fez com as atenções se voltassem para nós. Até poucos meses antes, eu nunca tinha tocado bateria na vida. Apostava no feeling, na lógica do bumbo ditar o ritmo e precisar ser tocado antes da caixa. 

Lembro que numa rápida reunião antes de irmos para o show — decidimos fazer o trajeto entre a Fibracan e a AMMO a pé — sugeri começar com uma espécie de grito de guerra, que acabou se tornando marca registrada de todas apresentações seguintes da Largatos. Não queríamos apenas plugar os instrumentos e começar a tocar o nosso set list, o grito de guerra soaria como uma injeção de adrenalina para que a gente começasse (entre aspas) aquecidos. Prontos. Assim, numa madrugada qualquer do ano em que o mundo não acabou como queriam as profecias, do fundo do palco cimentado da AMMO, sentado na banqueta da bateria, gritei a pleno pulmão os primeiros…

 

Largatos, preparados!

Após as tradicionais três contagens com a baqueta demos início ao show. Quem era presença constante nos nossos ensaios foi para a frente do palco, quem não era — de certo modo — abriu espaço no meio do salão para as rodas que se abriram. O palco cimentado de pouco mais de meio metro de altura não foi empecilho para os moshes. Aliás, quisera tivéssemos sido um pouco mais sistemáticos e contado quantas vezes aquele palco recebeu moshes no auge das festas e shows lá realizados.  As quinze músicas que fizeram parte daquele set, provável tenham aberto a chancela e preparado terreno para todo frenesi dos anos seguintes. Das que minha memória consegue lembrar, além das autorais, aquele set contou com versões para “Eu Nasci Há Dez Mil Anos” e “Canceriano Sem Lar” de Raul; “Eu Sei”, da Legião Urbana, “Malandragem”, chupada da versão da Cássia Eller, entre outras. Terminamos, sob ovação. Mantivemos a rotina de ensaios e, principalmente, de composição. Em pouco tempo, o repertório da banda passou a contar, em sua maioria, com músicas autorais como as novas “Garotos Selvagens”, “Leve Desespero” e talvez a melhor de todas, “Castigo”, que infelizmente não teve nenhum registro de áudio ou vídeo.

O segundo show oficial da Largatos, novamente na AMMO, teve como cenário uma festa de gosto duvidoso, em que o palco foi transformado numa selva e entre as atrações musicais (nós e um cantor chamado Tony Moreno) garotas desfilavam de biquíni e com camisetas molhadas. Literalmente, tocamos quase que camuflados entre samambaias. O piso do palco estava encharcado e o risco de choque era iminente. Terminamos o show aliviados. Nenhum de nós foi eletrocutado, ou morreu, ou se transformou num mártir.

 

MUDANÇAS E MAIS SHOWS

As mudanças de formação foram várias. A primeira delas, a saída de Fabinho que deu lugar ao saudoso Fio (que hoje olha por nós do outro lado), que além de violão e guitarra fazia os vocais de apoio e até baixo tocou na banda, quando da saída do Gutão. Outros que integraram a Largatos até o encerramento das suas atividades foram Rogers, no baixo, e Michel, teclado e violão.

Entre 2000 e 2004 fizemos algumas apresentações nos Domingos Culturais na Praça Matriz, com destaque para a vez em que o pedestal de um dos pratos da bateria despencou durante a execução de “Rock n´Roll” do Led Zeppellin. Em 2001, no Agribusiness Center, dividimos palco com uma banda cover do Creedence Clearwater Revival, vinda de Brasília, num dos shows mais marcantes dos primórdios da jovem Luís Eduardo Magalhães. Em 2002, numa das primeiras edições da Festa da Colheita — onde hoje estão a Câmara de Vereadores e o Fórum — um bêbado Fio, mandou abraço para os seguranças que eram quase maioria. Fomos obrigados a começar muito cedo, antes mesmo das 23h e por isso, a não ser nossos fiéis seguidores apenas os seguranças testemunharam o show. Infelizmente, a banda fez uma única apresentação em Barreiras, no Cais e Porto, num show de pouco mais de vinte músicas e totalmente acústico.

 

O QG DA GALERA E A ORIGEM DO CHÁ DAS CINCO

Em dado momento, a Fibracan transformou-se em atração e ponto de encontro. Uma espécie de QG da galera rock de LEM. Tanto que virou rotina colocarmos os instrumentos do lado de fora quase todos fins de semana. O público era cativo, um mini ramp de skate era atração e um freezer recebia o pagamento para participar do festerê: uma caixinha de cerveja ou o que fosse beber. Aqueles ensaios abertos deram origem ao Chá das Cinco, o clássico e inesquecível festival que anos mais tarde teve edições repaginadas e com presença de bandas até de outros estados, caso da Identidade em 2015 e uma, com direito a homenagem ao nosso pai, Aaron, que nunca pôs empecilho algum para todas maluquices que fazíamos, transformando-se num tiozão e as vezes até num segundo pai para muitos que preferiam passar o tempo na Fibracan. A Largatos não resistiu ao tempo. O sonho de furar a bolha e tornar todas aquelas canções conhecidas do grande público não vingou. O projeto de gravação do primeiro CD fracassou e o fim, acabou sendo o caminho inevitável.

 

AS CRIAS DA LARGATOS

Curiosamente, a Largatos deu origem a duas bandas que marcaram época em LEM: a Lobos da Estepe, formada pelos ex-integrantes dos Químicos com meu irmão no vocal e guitarra e a Unidade 8, a qual tive a honra de fazer parte da formação original que gravou o “Fobia” em 2004 e talvez tenha sido a banda local que mais perto de furar a tal bolha chegou. No entanto, estas são história para outra oportunidade. Uma das últimas aparições da Largatos se deu no I Encontro de Bandas de Rock, realizado na quadra de areia da AMMO, numa época que a cidade chegou a contar com pelo menos seis bandas ativas e o mais importante, parceiras em todos sentidos. A formação daquele show contou com Adilson Vieceli, integrante da Falso Sepulcro — a verdadeira primeira banda de rock do então povoado de Mimoso do Oeste, isso lá nos idos de 1996 e 1998. Histórico e daí do “quase” usado no título. No berço da Largatos foi construído um estúdio que ajudou muitas bandas na primeira metade dos anos 2000 e onde hoje bandas de toda região se apresentam, pois, é justamente onde está o palco do Chá das Cinco Pub. Na minha recente passagem por LEM, talvez, devia ter feito o teste, pois, quem sabe, ao encostar o ouvido no piso do pub ainda seja possível ouvir o velho grito de guerra da Largatos ecoar.

Preparados?

O Brasil não se leva a sério faz tempo

Semana passada passei em branco aqui no blog.

Cheguei a esboçar alguns começos, dar encaixe mínimo nas peças soltas que aguardavam forma na minha cabeça. Todas tentativas partiam do princípio de que o Brasil não se leva a sério (via de regra, uma quase sequência a um artigo que escrevi há anos e que — infelizmente — se perdeu no ambiente virtual sem que ninguém sentisse sua falta).

Para aquilo que não é palpável, creio, ser natural o pouco caso.

Por isso não lamento, hoje, a falta daquelas linhas. O Brasil continua a não se levar a sério e continuará não se levando a sério amanhã e depois e por todo o sempre.

Não se trata de pessimismo, mas de constatação.

Quinta-feira passada visitei dois andares com parte do acervo e legado do escritor gaúcho Érico Verissimo no centro de Porto Alegre. Memória. Um espaço aberto e disponível à visitação, mas que — salvo momentos esparsos, recebe a atenção que merece.

Quanto mais proximidade maior é a sensação de deixar para amanhã ou depois.

É como aquela bicicleta que guardamos na garagem mas temos preguiça de usar. Não desaprendemos a pedalar, mas sempre adiamos a retomada dos exercícios. O acervo está lá, sabemos da sua importância, mas temos mais o que fazer.

Comodismo. Preguiça. Chame como quiser.

Aliás, sempre “temos” mais o que fazer.

Setenta e duas horas depois do meu encontro com a obra e o legado do homem que escreveu O Tempo e o Vento, e o Museu Nacional do Rio de Janeiro é consumido pelas chamas. Duzentos anos de história vira cinza. Não tive oportunidade de visitar o museu — nunca fui ao Rio, por isso jamais pude apreciar in loco seu acervo. Pode parecer piegas e isso tudo apenas mais uma lamentação que em nada vai acrescentar ao debate ou, pior, ajudar a evitar que outras tragédias como essa aconteçam.

O Brasil não se leva a sério e não tem interesse algum em mudar essa realidade.

Em meio a toda consternação pelo ocorrido, apropriei-me de um post do escritor português Valter Hugo Mãe no instagram, em especial, no trecho que diz “só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem”. E mais: “fico com a impressão de que o Brasil está em guerra consigo mesmo”.

Está tudo errado. Virado do avesso.

Quantas oportunidades (governos) não passaram sem que providência alguma fosse tomada. É absolutamente embaraçoso pensar que agora, após o incêndio, brotará recurso e disposição pública para amenizar a tragédia. Por mais triste que seja, ei de concordar com o velho amigo, quando, categoricamente, afirma que no Brasil, ninguém liga para cultura, museu e biblioteca.

(Infelizmente) é fato.=A preocupação mor é com o revide, o combate, a luta, a guerra que insistimos em travar contra nós mesmos. Parafraseando a sempre brilhante Elaine Brum, “o Brasil perdeu a possibilidade da metáfora…o excesso de realidade nos joga no não tempo, no sem tempo, no fora do tempo”.

Somos cinza e nada mais.

Botas vermelhas

Acompanhava o entra e sai do estande da Prefeitura Municipal na Bahia Farm Show, com atenção voltada para os delicados pés das moças. Sempre fui fã de pés femininos. Tive uma namorada que me proibia de olhar para seus pés, e fazia o possível, para que eu não tivesse nem três segundos de regozijo observando seus dedinhos rechonchudos. Era como se ela detestasse uma parte do próprio corpo e desejasse que ele não existisse. E eu só era autorizado a amá-la do tornozelo para cima.

Sério, nunca entendi.

Venerar o pé de outra pessoa, aparentemente, não é nem nunca foi uma atividade considerada normal. Tudo bem, tudo bem. É incomum. Eu que o diga. Aliás, é muito mais fácil, que ao descobrirem seu suposto fetiche por pés, estejam eles desnudos ou enfiados num par de All Star branco como um papel sulfite, sejas enquadrado e, de pronto, catapultado ao time dos rejeitados, dos anormais, dos estranhos.

Se queres mesmo saber, eu — particularmente falando — tô nem aí!

Naquela ocasião, minha atenção não estava voltada para os pés de unhas feitas e tatuagens de florzinha a percorrer o limite do dedo mindinho e o tornozelo, mas, para o calçado escolhido para a ocasião, isso mesmo, no singular, pois, a quase unanimidade do público feminino — que bem me lembre — tinha por opção o uso de botas, de todos tamanhos e gostos, desde as que mal cobriam a canela, àquelas que triscavam na rótula do joelho; umas com zíper, outras sem zíper; umas feitas de couro, outras de oncinha ou que apostavam na imitação da pele de uma vaca; haviam também botas de cor única, pretas, marrons, verdes ou extravagantes, como uma, de cor vermelha mergulhada no verniz.

Regozijo pleno. Raras vezes me deliciei tanto como aquela tarde.

Não me importa se daqui a pouco serei taxado como louco, tarado, machista, ou alguma coisa que me faça querer esquecer aquele desfile quase privado ou procurar tratamento psicológico para me curar ou facilitar meu caminho para a salvação eterna. Talvez, eu nem seja tão anormal assim, ora bolas, que mal há em considerar mulheres de botas um charme?

De novo: que mal há?

Hein?

Provável que eu continue alimentando aquela lembrança justamente pela tolice que ela carrega. Não sou uma besta selvagem que não pode, em hipótese alguma, ver uma mulher ou um coletivo de mulheres de botas a saracotear por aí. O riso que me escapa dos lábios ao ver uma mulher usando botas numa feira agrícola ou por conta do inverno rigoroso que acomete nesse exato momento o sul do país, não é possível de ser arrancado da minha cara abobalhada. Tenho para mim e torço por isso que toda mulher sabe o quão charmosas elas ficam devidamente calçadas com botas, mesmo que de coloração e modelo extravagantes como aquela vermelha mergulhada no verniz de anos atrás.

Se não sabem, já não é sem tempo.

E não só charmosas, como poderosas. Quem sabe aquela não tenha sido apenas a ocasião ideal para sua estreia, o que não significa que não existam passarelas para uma bota vermelha mergulhada no verniz. O mundo anda chato demais para que fiquemos ditando e repetindo e, pior, tentando tacar goela abaixo de todos as regras que o politicamente correto considera irrefutáveis.

Sou adepto de fazermos — homens ou mulheres — aquilo que nos faça bem. Que nos traga regozijo. Não creio que uma mulher use botas do mesmo modo que usa um par de havaianas. No fundo é justamente por saberem o poder que um par de botas exerce e possui. Que se cubra as canelas, que se escondam os joelhos, que tenham ou não zíper, que sejam salto agulha, que sejam do jeito que te fizer mais bela, mais charmosa e mais empoderada, que sejam iguais aquela: vermelhas mergulhadas no verniz.

A oportunidade que você estava esperando

A ocasião faz o ladrão, diz o ditado popular, quem sabe, proferido num cochicho no meio da madrugada, assim se almeja, pelo anjo bom que repousa sobre nosso ombro direito.

O desejo de não se fazer ouvir, imagina-se, tem por objetivo impedir que algum desses MC´s de cabelo colorido, nome gringo no diminutivo ou qualquer bobagem que o valha, aproveite a pobre rima para acumular mais um milheiro de seguidores nas redes sociais e polpudas cifras na conta bancária.

Definitivamente, não.

Não é para isso a lembrança, então lá vai, trata-se de um anúncio, sim, um “Anúncio”.

“Procura-se”, talvez grifado com fonte de faroeste no cabeçalho e um rosto estampado no meio, mas de certo, não é o caso, não é um rosto especifico o que se procura, mas sim, algum rosto, o que é diferente. Algum que se encaixe no perfil desejado (prossiga com a leitura para mais informações).

Portanto, numa dessas, possivelmente seja pertinente trocar o enunciado do topo por algo como:

“Oportunidade”.

É, soa melhor, não deixa de ser uma oportunidade.

Uma baita oportunidade, diga-se.

Mas, claro, é preciso toda atenção ao que se segue, pois não é o tipo de oportunidade que vá formar filas de virar quarteirão.

É outro o tipo de oportunidade que se refere este anúncio.

E cabe aqui um parêntese, afinal, merece justificativa o dito sobre a ocasião fazer o ladrão. Apropriando-se de outro clichê, talvez o há males que vem para bem ajude a melhor compreender a oportunidade que se anuncia.

Agora sim, lá vai:

Atenção, atenção meninas, moças, mulheres, preferencialmente de pele morena, covinha nas bochechas (pode ser apenas em uma, não tem problema) um metro e…não, altura e peso não são tão importantes. O que, com toda certeza, em se conhecendo o responsável pelo anúncio, será decisivo para a escolha, isso sim, é o uso de óculos. Idade entre vinte e trinta e cinco, estudantes ou já formadas, nas áreas de farmácia, educação física e enfermagem, favor entrar em contato para fins de relacionamento, digo, namoro.

É sério, se você, garota, cumpre com os requisitos listados acima não perca tempo.

Oportunidade rara.

A seguir algumas características do anunciante, apenas para lhes aguçar (ou não) a vontade e o desejo e/ou as gargalhadas, a ira (quem sabe):

Homem, sorriso de dentes separados, barba grisalha, cabelos ralos, branco, geminiano, propenso à hipertensão, introvertido, observador, jornalista, escritor — por insistência e teimosia, dono de um vira-lata de nome Milton. Reside com o pai, diabético e hipertenso. Detalhe: cão e dono dormem na mesma cama, portanto, se isso for empecilho, favor desconsiderar esse anúncio.

Imprescindível que a candidata possua mínimo trato com a manipulação de medicamentos (as razões já foram explicitadas), aferição de pressão e glicemia (idem anterior) e desenvoltura para realização de atividades triviais como caminhadas pelo bairro e exercícios matinais na academia da praça. Antes que o espaço e a paciência acabem, mas, ainda mais imprescindível é que as candidatas tenham apreço pela leitura tanto do que o anunciante escreve quanto por literatura em geral.

Post scriptum: toda e qualquer exceção será avaliada com carinho e cuidado, desde que em conformidade com o descrito a partir de imprescindível, que abre o parágrafo anterior.

Início das avaliações curriculares a partir da próxima segunda-feira.

Obrigado.

A melhor macarronada que já comi na vida

A melhor macarronada que já comi na vida

Tenho pra mim que será cada vez mais raro aquele riso de dentes à mostra. De regozijo, de contemplação dos reais prazeres do bem viver. Que fique bem claro, acho tudo isso uma baita pena.

Estou numa fase dessas. De amostragem da minha diastema. Sei que é passageiro. Eis, o problema. Há um ditado a nos alertar desde muito que tudo que é bom dura pouco. Provável, que pra semana que vem, se muito a seguinte, retorne a rotina de cara emburrada. A campanha eleitoral se aproxima sem que seja possível um mínimo de esperança sobre o futuro.

Logo haverá um rompimento completo do período de transição do medo para o mais completo e irreparável pânico. Se rio – com o perdão do trocadilho – é, literalmente, para não chorar. Só não enxerga o retrocesso quase em vias de enfiar a agulha debaixo das nossas unhas quem não quer.

Antes fosse apenas impressão de quem está com os cabelos se despedindo.

Não é.

Nenhum lugar do mundo é capaz de se desenvolver sem que exista um mínimo de investimento em educação e pesquisa, no entanto, contrariando a lógica, aqui – em terra brasilis – a tendência é que sigamos em queda livre, como se após termos alcançado o vigésimo andar, por um descuido tolo, começássemos a despencar, com chances consideráveis de ficarmos irreconhecíveis e, talvez, sem condição alguma de recuperação.

Segunda-feira passada comi a melhor macarronada de toda minha vida, ainda embevecido pela oportunidade de discorrer sobre arte, literatura, escrita e o hábito prazeroso da leitura. Repeti como um velho LP riscado o quão grato me sentia e, mais, o quão delicioso estava o manjar. Por fim, parece-me que essas singelezas estão em vias de se extinguirem e não passamos de uma meia dúzia de rebelados tentando fomentar o que, nas entrelinhas, já está taxado como obsoleto por uma maioria em fúria.

Há um pássaro cantando lá fora. Devo ser o único atento a sua melodia. Quisera ter conhecimento para identificar a espécie. Estudado mais, prestando mais atenção as aulas de ciências, de biologia. Sei lá. A moça bonita de óculos que me acompanha também não sabe. É quase um sinfonia. O som dos carros engole tudo da janela para fora. Não há mais tempo para o simples. É preciso correr, pisar um pouco mais no pedal do acelerador.

Produzir.

Expediente fechado, sem direito a hora extra e um bocejo indesejado perto das vinte e duas, quando os dedos do pé e a meia de anteontem transformaram-se em um só. Uno.

Sufoco.

Apuro.

Engasgo.

Apneia.

Hoje pela manhã me lembrei do Renato. O cara da Legião Urbana. Cantei um trecho daquela velharia chamada “Que país é esse”. Perdi a conta de quantas vezes invoquei alguma de suas letras. Sua poesia.

Emposte a voz como o Russo, cante: “O Brasil vai ficar rico, quando vendermos todas as almas”, não só dos índios, mas, dos brancos, negros, amarelos, mestiços, altos, baixos, magros, gordos, xises e ípselones.

Queria que a cantoria do pássaro não cessasse, assim como, o riso de dentes à mostra, a esperança de um país onde se priorize educação e pesquisa, e, onde, seja possível lambuzar a ponta do bigode com a melhor macarronada que já comi na vida, todos os dias, sem medo, pânico, sufoco, apuro, engasgo ou apneia.

Um beijo para não esquecer jamais

O acaso fez com que nos sentássemos, um do lado do outro, na sessão de autógrafos da última segunda-feira, no Dado Bier. Não haviam nomes colados no acolchoado das cadeiras ou sobre a enorme mesa de madeira em forma de C ou U, isso, claro, a depender do ângulo ou perspectiva de quem observava a movimentação toda.

A senhora que se aconchegou a minha esquerda rendeu, talvez, a melhor e mais marcante lição, dessas que nem no mais perfeito sonho poderia supor que um dia viveria, talvez, comparada à quando, por duas horas, conversei com uma das setenta e sete brasileiras que em 1944 defenderam o país na Segunda Guerra Mundial. Não, especificamente, da parte daquela sentada a minha esquerda, mas dos que foram a sessão de autógrafos por sua causa. Desnecessário conhecer a real idade, basta que imaginemos, e somos bons nisso, calcular com base exclusiva na aparência.

A surpresa acontece quando menos se espera e, talvez, tivesse escolhido outra cadeira para sentar, as impressões sobre aquela noite seriam outras. Entre autógrafos, parentes, amigos e desconhecidos, um grupo de três amigas em idade escolar, uma outra senhora, orgulhosa, entregou o livro para aquela à minha esquerda assinar. Sorrisos no rosto. Abraçaram-se. A que esperava pela dedicatória, sem rodeios, saiu-se com o que segue e, possível, o colega da direita e outros próximos tenhamos ouvido o mesmo:

— Ela é minha filha.

A senhora que autografava era filha da senhora que pedia o autografo. Ambas, orgulhosas, radiantes, felizes. Eis, a surpresa. Em uníssono, e foi assim, a parabenizamos. Quem ouviu e não poderia ter sido de outra forma e pouco importa se o livro em questão é sobre e para adolescentes. Mãe e filha rompendo barreiras, preconceitos, pois, ao menos a mim, aquilo pareceu inimaginável. Surreal, até. Em muito, por preservar pensamentos tacanhos, como se na terceira idade fosse proibido existirem mães e filhos, gozando a vida de modo tão pleno quanto os muito mais jovens que eles (as).

Se a novidade conseguiu o efeito de contagiar para o bem, o melhor ainda estava por vir, pois, tão radiante quanto, salvo engano, entre assovios, desta feita um senhor de cabelos tão brancos quanto uma folha de papel sulfite ou o cavalo de Napoleão, também solicitou a colega a minha esquerda que autografasse seu exemplar e, em seguida, despejou do modo mais simpático que há, um ramalhete de flores sobre a mesa.

— Pra você meu amor.

Mãe, filha e esposo. Em minutos vi, materializado ao meu lado, uma completa definição de amor, quiçá, para me fazer refletir tendo em vista a crônica passada, não sei. Há sonhos que demoram a se concretizar. Décadas, quem sabe. Eu não sei o que me espera o dia de amanhã, mas tenho convicção que a experiência da chuvosa noite de 23 de julho de 2018 fará o favor de me acompanhar por muito tempo. Posso soar exagerado, mas as vezes é preciso que sejamos dispostos à sutilezas como essas para compreender que há muito o que fazer e o que realizar. O tempo é um mero detalhe e, mais dia, menos dia, ele pode nos surpreender.

Ontem, uma das mulheres que mais quis que se tornasse um grande amor disse estar disposta a esperar o tempo que for possível para que consigamos colocar todos os pingos nos is da nossa história, incluso, o que não vivemos. Não sei o que dizer, o que esperar, nem se é possível esperar. Lembrei que ao se despedir da filha, a mãe virou-se para mim e disse:

— Não posso ir embora sem antes te dar um beijo.

Um dos melhores beijos que ganhei, assim, espontaneamente, sem dúvidas. Desses que se guarda na esperança de que no amanhã, tenhamos chance de fazer diferente, corrigindo nossas falhas e tentando ser, ao menos um pouco, melhores do que somos hoje.

Músico barreirense prepara série de álbuns conceituais inspirados nos elementos da natureza

Muito se fala sobre o prazer de vivenciar uma experiência até que ela se torne um hábito ou mesmo, lembrança de um tempo que gostaríamos de guardar para sempre em nossos corações e mentes. Pode parecer utópico, mas até pouco tempo experimentava-se o prazer — isso mesmo — de se ouvir um disco de uma hora ou mais, na íntegra, folheando o encarte do CD, acompanhando as letras das músicas, analisando cada detalhe da capa, a ficha-técnica e os agradecimentos dos músicos, escritos em letras tão pequenas que quase se precisava de uma lupa para conseguir ler, normalmente, na última página do livreto.

Na contramão da lógica atual que se pauta na instantaneidade, o músico barreirense Luciano Renan está prestes a lançar um desses discos que necessitam ser experimentados com o encarte em mãos e num aparelho de som capaz de traduzir toda grandiosidade da sua obra. Primeiro, de uma série de cinco discos conceituais inspirados nos elementos da natureza, “Aurora” — com previsão de lançamento em todas plataformas digitais e no bom e velho compact disc nesse mês de agosto — é uma ode à música brasileira, sem, claro, se privar do flerte com a música clássica e até com o Iron Maiden, como na fantástica “O Pássaro e o Labirinto”.

“Minhas influências musicais são diversas e penso que nada é descartável”, esmiúça, sem desprezar as diferentes fases da vida e as influências que moldaram cada uma delas. Aos 15 anos, Luciano começou sua trajetória na música tocando em bandas de heavy metal no oeste baiano. Mudou-se para São Paulo quando tinha 17 e desde então vem aprimorando sua técnica e estilo e, de certo modo, moldando o artista completo tatuado em cada acorde desse primeiro trabalho.

“O início foi bem difícil porque era preciso conseguir desapegar de coisas que deixei na minha cidade e criar tudo isso num cenário novo: amigos, família, namorada, rotina”, lembra. “Quando cheguei em São Paulo vi que tinha muita coisa para aprender, minha cabeça ainda estava muito fechada e foi com base nas minhas experiências, estudos, vivências durante esses anos que pude me tornar o que sou hoje”, comenta o multi-instrumentista, grato pelas dificuldades vividas, pois, de acordo com ele, somente através delas foi possível evoluir.

Composto de 16 canções, sendo quatro delas instrumentais, Aurora propõe uma série de reflexões sobre a vida, seja por meio de metáforas, fábulas ou mensagens que tentam dialogar com questões do mundo contemporâneo e outras, internas do ser humano que busca encontrar seu caminho interior. “Para escrever as letras eu fui para um retiro nas montanhas. Lá fiquei absorvendo as energias do lugar, sempre sentado no chão, na grama. Escrevi metade do disco lá, quando voltei, continuei o processo em parques aqui de São Paulo”, esclarece Luciano, que já tem um esboço de todos demais quatro álbuns do projeto (Água, Fogo, Ar e Éter). “Para o segundo (Água) o conceito está todo ele desenvolvido, mas só vou trabalhar a fundo cada um deles quando for seu momento”, completa.

Por se tratar de um trabalho tão amplo, soa quase como uma incoerência eleger apenas um ou outro destaque individual no disco. A faixa de abertura e que dá nome ao disco possui alguns elementos de trilha sonora e introduz brilhantemente o ouvinte na viagem que a obra propõe. Na sequência, “A Semente” mergulha no universo interiorano de um Brasil continental e de riquezas paradoxais, enquanto que “A Flor” nos convida a fechar os olhos e apreciar seus pouco mais de dois minutos, sempre com a certeza que a experiência que o disco promove vale cada segundo. Na quarta canção do trabalho, “O Homem e o Mundo”, é impossível não lembrar do grande Milton Nascimento, nesse que talvez seja o mais grandioso momento do disco (ao menos para esse jornalista, escritor e apaixonado pela arte que vos escreve). A propósito, ela foi a escolhida para o primeiro vídeo clipe de Aurora, ainda sem data de estreia.

Quem conheceu o Luciano Renan nos tempos de Barreiras, ainda que não vá encontrar nenhum riff ou solo de guitarra ao longo dos mais de sessenta e seis minutos de audição, além da quase homenagem acústica ao Iron Maiden em “O Pássaro e o Labirinto”, certamente, verá com bons olhos e ouvidos o quanto o Angra, em especial da época do atemporal Holy Land fez escola, vide as precisas “O Olho Cruel e o Sorriso”, “O Carvalho Azul” e “Ocaso (Yin)”.

OBRA ATEMPORAL E SHOW CONCEITUAL

Avesso aos modismos que tanto incham o mundo da música nos dias de hoje, Luciano aposta no longo prazo, como diferencial para sua arte. “Existe sim uma saturação de produtos da mídia que atingem um grande público, mas essas coisas são realmente passageiras. Eu estou pensando em algo mais duradouro e que possa trazer uma contribuição maior para o mundo tanto na parte musical em si, quanto visual e trabalhando em cima de um conceito que aborda temas importantes que precisam ser falados”, avalia, para deleite de todo e qualquer apreciador de boa música.

Para o futuro próximo, a proposta é montar um show conceitual e apresentar Aurora na íntegra. “Quero fazer algo completo, com projeção, desenho de luz, cenografia, ter toda uma ambientação criada para o público ter uma experiência de imersão. A influência para isso é algo nos moldes do The Wall (Pink Floyd), claro com suas devidas proporções”, diz. Feito isso, a ideia de acordo com Luciano é conseguir levar o show para a maior quantidade de cidades possíveis. “Com a abertura do SESC em Barreiras será uma ótima oportunidade de conseguir levar o show para a região oeste”, avalia.

Grosso modo, “Aurora” é um disco maduro e que, certamente, faz jus à rica história cultural e artística de Barreiras como nascedouro de grandes talentos. O trabalho de Luciano Renan é, sem sombra de dúvidas, merecedor de todo reconhecimento e aplausos, pois, parafraseando uma das estrofes de “O Simples”: “é nas coisas simples que a felicidade está”. Mais: que ouvir um disco conceitual como este pode ao mesmo tempo se traduzir numa experiência simples, mas, de pleno regozijo. “Quando você é autêntico e sincero naquilo que se propõe a apresentar, as pessoas vão sentir isso”, decreta, sem antes revelar que o título do disco presta também homenagem, primeiro, a tetravó, Aurora, e depois ao tataravô Antônio Aurora. Além do mais, em um sentido figurado o termo representa as primeiras manifestações de qualquer coisa, o princípio. “Como é o meu primeiro álbum, minhas primeiras manifestações, achei que o nome encaixou como uma luva”, finaliza.

Para mais informações sobre o trabalho do músico Luciano Renan:

Site: www.lucianorenan.com.br
Facebook e Instagram: @luciano.renan
Youtube: LucianoRenanOfficial

 

Oficina: Do hábito da leitura à escrita criativa

Agosto começará com uma oportunidade imperdível para os amantes da escrita em Luís Eduardo Magalhães. Na quarta-feira, dia primeiro de agosto, véspera de feriado, o jornalista, escritor e colunista do blog, Anton Roos, ministrará a oficina “Do hábito da leitura à escrita criativa: primeiros passos” a partir das 18h45 na sede da agência.

“Sempre fui um entusiasta da arte, já tive banda de rock, aceitei o desafio de participar de um curta-metragem e há quatro anos mergulhei na literatura, publiquei livros e participei de algumas coletâneas. É a primeira vez que retorno pra LEM desde que me mudei, então, nada mais justo que além de rever os velhos amigos, oportunize esse espaço para debater a escrita, a literatura e o hábito de ler”, diz Anton que há quatro anos escreve para o blog.

Na região oeste, Anton foi repórter e editor do jornal Classe A e da extinta Revista A, além de ter atuado com Assessoria de Imprensa nos setores público e privado. Em 2014, lançou seu primeiro livro de crônicas “A gaveta do alfaiate”. Na segunda Mostra de Moda Arte e Decoração (MMAD), em 2015, lançou o segundo livro, “A revolta dos pequenos gauleses”. Mudou-se para o Rio Grande do Sul no final de 2016. É autor ainda do romance “Quando os pelos do rosto roçam no umbigo”. Participou da antologia “Fragmentos”, toda ela feita por autores de LEM e da coletânea “A natureza das coisas breves”, lançada em outubro de 2017 em São Paulo. Recentemente, no último dia 23, participou do lançamento da coletânea “Contos de Mochila”, pela editora Metamorfose de Porto Alegre/RS.

Após ter participado de oficinas com autores como Marcelino Freire, Daniel Galera e Natália Borges Pollesso, Anton acredita que o ato de escrever por ser traduzido de muitas maneiras. “Há quem diga que escrever é uma atividade solitária e também há quem defenda que escrever seja, tão-somente, resultado do duo: talento e inspiração. Independente de qual teoria se adotar para definir o ato da escrita, é preciso sempre, levar em conta a importância do aprendizado, da prática e, claro, do hábito da leitura”, resume.

A oficina terá duração de aproximadamente 2h30. Na programação, dicas de escrita, além de abordagens sobre gênero, estilo, criatividade, e alguns exercícios, tanto de escrita, quanto de leitura. As vagas são limitadas e o custo de participação é de R$ 20. Reservas e mais informações pelo whatsapp  (77) 9 9971-7341.

 

O QUÊ: Oficina “Do hábito da leitura à escrita criativa: primeiros passos”

QUANDO: Quarta-feira, 1º de agosto

HORÁRIO: Das 18h45 às 21h

ONDE: Sede da Agência Immagine, bairro Jardim Paraíso

Comédia romântica

Para início de conversa, é bom que se tenha claro: o que temos são dois irmãos. O mais velho, a escuridão, o mais novo a luz, inferno e céu, negativo e positivo. Barroco e arcadismo.

Um dia o caçula disse para o mais velho, “ela ainda é apaixonada por você”. Durante ano e meio tentou convence-lo, quase que diariamente. Na primeira vez, o primogênito deu uma risada, dessas de canto de boca. Na segunda, também. Na terceira, fingiu-se de bobo.

Disse que não.

Que era impossível.

“Ela só pode me odiar e é bem capaz de, no caso de um reencontro casual, me ignorar ou me bater ou me xingar até aquela geração que nunca vai existir”.

Insistente, o mais novo tentou todo tipo de artimanha e argumento:

“Ela só está esperando que você tome a iniciativa, chame ela para sair, marque um encontro, comente o post do Instagram, anuncie na Gaúcha, na ZH*”.

Em todas, como se já fosse parte do ritual, o outro, primeiro riu, depois repetiu o mesmo discurso terra arrasada de sempre:

“Não, é impossível, ela me odeia, vai me bater, xingar, me dar um coice na canela”.

Em dezembro fará oito anos que o irmão mais velho e a morena se conhecem. Oito. Um tempão. O irmão enamorado da escuridão, do inferno, do negativismo, dos princípios barrocos, numa tentativa de redenção, escreveu sobre ela. Aqui ó. Deixou eternizado, para que não restem dúvidas, que o culpado era ele e mais ninguém.

Por mais clichê que possa parecer, o mundo deu centenas, talvez milhares de voltas fazendo questão de colocar ambos frente a frente outra vez. Oportunidade para se corrigir os erros. Fazer com que esse, mais velho, vire o rosto de lado e diga, sem medo:

“Pode me bater, eu mereço”.

Às vezes não é preciso entender os motivos. Vá lá, nem existam.

Há duas semanas, como faz todas quintas, o irmão mais velho desceu na parada costumeira do bairro Menino Deus, na capital gaúcha. Deu dois, talvez três passos. Ouviu a voz. A mesma voz de outrora, cheio de nés, guris e tchês. A morena riu. Pareceu cena de comédia romântica, só faltou abrirem os braços e ambos correrem ao encontro um do outro.

Por mais surreal que seja, o reencontro casual aconteceu. O mesmo que um dia o irmão mais velho considerou impossível. Os dois se abraçaram. Duas. Três Vezes. Abobalhado, o irmão mais velho quis fazer aquele momento durar mais e mais, talvez, por sentir que precisava ali, naquele instante, desfazer todos erros do passado. Ficou tão atordoado que é provável que tenha gaguejado. Quis ser o Mel Gibson naquele filme que ele ouve o pensamento das mulheres.

Por Deus.

Seguiu em frente, exibindo os dentes separados. Falando baixinho, como um louco:

“Ela não me odeia, não me bateu, não xingou, tampouco me deu um coice na canela”.

Quando soube, o irmão abriu um sorriso e, antes que tivessem se dado conta, comentou:

“Eu sabia, eu sabia”.

E depois, sem resistir à pergunta:

“E então, chamou ela pra sair?

O mais velho, como num passe de mágica, retraído outra vez, devolveu com toda escuridão e negativismo que lhe é peculiar, pois, aparentemente, é só que sabe fazer, teimoso, birrento, barroco:

“Não, ela ainda me odeia”.

 

*Respectivamente, emissora de rádio e jornal de maior circulação do RS