Sobre ser brasileiro e o complexo de vira lata

Você já ouviu falar sobre o complexo de vira lata? A expressão foi criada pelo dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, e inicialmente se referia ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pela Seleção do Uruguai na final da Copa do Mundo em pleno Maracanã. Dado tal fato, o Brasil só teria se recuperado do choque em 1958, quando ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez.

Tal expressão foi relida por outros escritores e jornalistas posteriormente, mas o significado dado por Nelson ate então é o que mais se encaixa à nossa realidade. Para o escritor, o “fenômeno” não se limitava apenas aos campos futebolísticos.

“Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

Pois bem. Dados os fatos, eu preciso dizer que concordo quase que plenamente com Nelson. É fato que o Brasil sofre com a corrupção, com o descaso dos políticos e, em certos momentos, acaba virando piada internacional. Mas, até então, por que devemos piorar a situação rebaixando o que temos à condições inferiores? Complexo, né?

Eu percebo que isso acontece também na cena musical brasileira, onde temos (sim, temos) vários talentos simplesmente ignorados e, digo mais, rejeitados por: brasileiros. Isso não faz sentido para mim, mas vez ou outra consigo acalmar minha mente pensando no fato de que as pessoas tem um sério problema entre a classificação do que “é ruim” versus “o que eu não gosto”. Justifica? Nem sempre. Mas fica menos pior quando penso assim.

Vou citar um exemplo: Anitta.

Há quem diga (e não são poucas as pessoas) que ela é apenas uma bunda rebolante que faz sucesso porque é “gostosa” (perdão pela palavra, eu nem gosto de dizê-la, mas é assim que a retratam no senso quase que comum). Sim, Anitta é bonita, tem um corpo lindo, é sensual (o que muitos julgam como vulgar). Mas precisamos aceitar que ela é um sucesso que se deve a um único fator: sua perseverança.

Anitta fez o que muitos artistas brasileiros (e até mesmo estrangeiros) não conseguiram. Começou no funk, nas comunidades, no Furacão 2000 e enfrentou o preconceito que muitos periféricos encontram: o peso de serem ligados à um ritmo “sujo” como o funk. Foi conseguindo seu espaço sob julgamentos, pisou na bola algumas vezes (pois é humana, não é mesmo?), mas soube gerenciar sua carreira a fim de conseguir o reconhecimento que sempre quis e mereceu.

Hoje, Anitta é uma das poucas brasileiras a terem se apresentado no programa de Jimmy Fallon, o The Tonight Show e, ao lado de Iggy Azalea, subiu às paradas de sucesso internacionais. A partir disso, Anitta passou a ser vista praticamente como um “case de sucesso”. Começou e se virou sozinha e hoje, continua gerindo sua carreira de maneira excelente.

Lá fora Anitta é reconhecida. Aqui, para nós, Anitta é a garota da bunda grande que não sabe cantar e só faz sucesso porque é, pasmem, bonita. E o brasileiro adora odiar o que vem da nossa terra.

Eu usei a Anitta como exemplo porque sabemos que ela está totalmente exposta na mídia e não é difícil saber das novidades a respeito dela. Mas temos muitos outros exemplos que se encaixariam no caso, como Emicida, que muitas vezes é apenas o “preto favelado” que canta músicas sobre o crime. Mas não, Emicida hoje é um dos principais rappers brasileiros, que dá espaço e oportunidade para muita gente do bem.

Enquanto preferirmos o que vem de fora e colocarmos como padrão de excelência o que não faz parte de nossa realidade, o complexo de vira-lata vai continuar existindo. Tá liberado gostar da Lady Gaga e do “estrangeiro”, mas também é preciso saber entender que o que é “nosso” merece reconhecimento. E, como eu disse, é preciso ter discernimento para entender que não é porque você não gosta de algo que aquilo é ruim. Ser ruim é outra coisa e, sinceramente, eu acredito que não tenha nada nessa vida que o seja. Acredito que as coisas só não caibam em determinadas realidades.