Só amor pode não ser suficiente

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Meu novo vício na Netflix atende pelo nome de Californication, série estrelada pelo eterno detetive Mulder de Arquivo X, David Duchovny.

Para variar, estou atrasado.

A sétima e última temporada foi ao ar em 2014 e, por enquanto, não cheguei nem na metade da segunda. Comecei a ver por indicação, da mesma pessoa que semana passada questionou o porquê de praticamente tudo que escrevo nunca ter um final feliz. Quando assisti Breaking Bad, outro seriado que só vi por completo depois de o mundo todo já ter visto, não esperava um desfecho no estilo viveram felizes para sempre. O mesmo ocorre agora.

Se assim fosse, estaria até agora rogando pragas contra seu criador e no caso recente contra a pessoa que me fez a indicação.

O mundo é um lugar de conflito.

A perfeição ilustrada nas revistas Sentinela pode não ser o ideal futuro — ou pós vida — de muita gente.

Por bem, os sorrisos de completa felicidade do fim da primeira temporada de Californication duram pouco. O inusitado é que torna o mundo um lugar suportável. Fosse — as desventuras de Hank Moody, o escritor mulherengo e em constante crise existencial — um feijão com arroz tradicional já teria desistido. O contrário é muito, muito mais atraente, assim como, personagens caóticos são mais fascinantes. Walter White, Hank. Meu carinho por este último, a propósito, vai além de o fato de ele ser um escritor como eu.

A história de amor que insiste em não dar certo e nos obriga a desistir está, tanto no golpe de cassetete nos testículos de um dos primeiros episódios da segunda temporada, quanto na lembrança de tudo aquilo que poderia ter sido, mas nunca foi guardada no arquivo da memória de 2008. Porque as vezes é exatamente assim que tem de ser e o não dar certo algo que jamais será possível explicar. O amor (será que é tão difícil aceitar isso) pode não ser suficiente e não, por culpa de A ou B, do Hank ou da Karen, ou, de quem quer que seja que tenha flertado com a ilusão de um amor de hollywood, mas teve a cara amassada por um desses lutadores de MMA em defesa do cinturão.

Se o universo não conspirar a favor não há macumba que dê jeito.

Particularmente, admiro quem acredite em Papai Noel, em coaching, em autoajuda, na princesa Giselle cantando e interagindo com estranhos num quase flash mob no Central Park de Nova York, em juras de amor eterno, em sapos que viram príncipes, ou, pior, na honestidade dos políticos.

Gostaria de ter esse talento para o otimismo a qualquer custo. Cego e irresponsável.

Dia desses contei que uma das minhas recentes leituras foi Ensaio sobre a cegueira do Saramago. A pessoa fez cara de quem comeu coentro demais, como se a obra-prima do Nobel português fosse menor e o incomodo provocado pelo livro uma espécie de afronta ou exagero. Tipo aquelas caras que fazemos quando gostaríamos de não ter visto ou lido algo que consideramos ruim baseado em estereótipos ou em opiniões forjadas por terceiros.

Hank Moody pode não ser exemplo a ser seguido por ninguém, mas, ao menos, soa muito mais real que qualquer uma dessas narrativas clichês da lista de mais vendidos.

Ele comete erros. Vários. Em profusão. Assim como eu, como você, como qualquer um de nós. O clichê está aí para comprovar: errar é humano.

Eu acumulei erros que gostaria de não ter cometido, mas, talvez nem isso teria sido suficiente para que a minha velha história se desenhasse de outro jeito. Não. Não é comodismo, desistência, é entender que um dia é preciso seguir em frente sem olhar para trás.

Que só amor pode não ser suficiente.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.