Será?

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Soube por e-mail que a crônica da semana passada seria publicada no feriado de Independência. Escrevi na segunda. O e-mail chegou na terça. Na quinta passei a tarde toda afastado do universo virtual. Só fui saber do ocorrido com Bolsonaro no início da noite. Nem sequer cogitei um ajuste, um post scriptum, um aparte que seja. A grande rede de um modo geral se prontificou a vomitar todo tipo de argumento e opinião. Uma a mais ou a menos não faria — e, para ser sincero, não fará — diferença. Creio que entre os poucos leitores que tenho, todos sejam suficientemente crescidos para identificar as melhores fontes antes de saírem por aí a cuspir suas próprias verdades.

Por isso, decidi que minha verborragia semanal teria como mote o Faustão. Um engodo que há trinta anos dissemina bobagens nas salas de estar da família (pôr ou não pôr umas aspas ali?) todo domingo. Na sua primeira aparição na emissora dona da maior fatia de audiência da tevê brasileira, o dito cujo pronunciou um retumbante palavrão, o que, à época, em se tratando do horário, era novidade. Quase um ultraje. Uma afronta. Pouco depois — lembro a ponto de sentir a ponta da língua queimada — minha tia tirou uma nova refratária cheia de pão de queiro do forno. Nossa memória é engraçada. O pão de queijo quentinho, possivelmente, seja a única justificativa viável para que, mesmo após trinta anos, ainda guarde essa lembrança. O que me foge à compreensão são as razões de haver um contrato vitalício — só pode ser, né? — entre o comunicador e a referida emissora, afinal, são três décadas incorporado tal qual um parasita à programação dominical da tevê brasileira.

Cacete!*

É uma vida.

Sei que tudo que expor aqui não necessariamente contará com a aprovação unânime. Nunca foi meu intento. Se existe quem assista e considere minimamente útil qualquer coisa vinda da boca do tal apresentador, que assim seja. Há uma lenda, a qual ainda acredito ser verdadeira, que o Brasil é um país onde a de prevalecer a democracia. Aliás, o mesmo vale para aquela outra lenda que diz que o Brasil é um país laico. Se alguém acha que assistir ao Domingão do Faustão se configura como um entretenimento capaz de selar com chave de ouro o fim de semana de quem quer que seja, quem sou eu para questionar. Na minha humilde opinião — agora sim — o Domingão do Faustão é uma das razões de o Brasil estar na situação deplorável que está.

A propósito, tem um clássico do besteirol americano, que eu até já devo ter citado em alguma das centenas de crônicas que escrevi para o blog nos últimos quatro anos, que diz em alto e bom tom que merda vende. É isso. Esse modelo de entretenimento pratica exatamente essa lógica. O processo de idiotização passa diretamente pela arte de vender merda e nisso, programas de auditório como o malfadado Domingão do Faustão são PhD.

No entanto, o mercado se constrói justamente por existir quem consuma aquilo que está à venda. O que menos importa é a qualidade do produto. Vale qualquer coisa para conquistar o cliente, o usuário, o abestalhado que bate palmas para a Dança dos Famosos. Quando não há opção, faz-se o quê? Testa-se o que é oferecido até se ter plena certeza de que não é necessário procurar — caso da tevê — outro canal.

Que o melhor é sossegar. Manter o nível de comodismo no mesmo patamar. Sem queixumes.

Enquanto isso e até receber a prova do meu primeiro livro de autoajuda, vou lá, no link da crônica publicada no feriado de Independência. Seleciono o título. Crt + C. Crt + V.

O Brasil não se leva a sério faz tempo.

Ora, são só uns famosos disputando uma competição de dança em horário nobre. São só uns jovens dançando no semáforo. Somos, afinal, uma democracia, um país laico.

Será?

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.