Sem vergonha

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Vergonha: Alguns têm em excesso. Outros sequer sabem o que é. Alguns se ruborizam. Outros nem mudam de expressão. Alguns a sentem diante de desconhecidos. Outros até mesmo diante de pessoas íntimas. Alguns a sentem porque erraram; outros porque nunca vão admitir o erro.

No processo de tornarmo-nos seres sociais, a vergonha é um bom cânon. É uma medida para perceber o quanto podemos ou não ser importunos, inapropriados e inconvenientes. Chamaria até a “vergonha” de mecanismo de defesa para evitar gafes para pessoas com bom senso. Porém, em se tratando da raridade de bom senso reinante, a vergonha tem sido usada como força opressora.

Ensinaram-nos a ter um tipo de vergonha opressora e nós aprendemos!

Ensinaram-nos a ter vergonha do corpo quando envelhece ou quando engorda. Ensinaram-nos a ter vergonha de ir à praia quando se está acima do peso. Sem-vergonha (quando o hífen transforma as palavras no sinônimo de “canalha”) é a pessoa que critica a corporeidade de outrem.

Somos educados a ter vergonha de colocar uma roupa que chamam de “indecente”. Porém, criam-nos indecentes quando vendem nossos corpos para satisfazer padrões estéticos e nos convencem de que isso é normal. Disso, até agora nunca vi ninguém sentir vergonha.

A gente aprende a sentir vergonha de expor sentimentos, por ser sincero consigo mesmo e com os outros. Em contrapartida, tanta gente que deveria ter vergonha de ferir, magoar, maltratar, sequer se sensibiliza. Lembro da frase de Benjamin Franklin que diz: “Tudo o que começa com raiva, acaba em vergonha” – atualmente, arrisco-me a dizer que a maior parte das situações que começam com raiva, terminam com dissimulação.

 

Por falar nisso, não vi nenhum político corrupto dizer às câmeras que se sente envergonhado pelo dinheiro desviado, pelas extorsões cometidas. Tenho vergonha do nível de hipocrisia que vivemos, onde os mais sem-vergonha nem sequer ruborizam a face. Diametralmente, recordo-me da polêmica que se gerou ao dizer que mulheres não deveriam amamentar em locais públicos e que mostrar o seio durante a amamentação é um ato vergonhoso.

Vivemos a inversão da vergonha: Os que deveriam, não a sentem; enquanto os demais são vitimizados por ela.

Sem-vergonha todo corrupto. Sem-vergonha quaisquer opressores. Sem-vergonha os que mentem. Sem-vergonha os que espalham ódio.

Sem vergonha da própria corporeidade. Sem vergonha para vestir o que gostamos. Sem vergonha de expressar nossos sentimentos. Sem vergonha de amamentar. Sem vergonha de admitir erros. Sem vergonha de amar. Sem vergonha de ser feliz!

 

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.