Preconceitos nossos de cada dia

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O preconceito contra negros nos Estados Unidos já foi tema de inúmeros curta e longa metragens. Atualmente, nas telas dos cinemas é possível ver o paradigmático “Green Book”, que narra a turnê feita pelo pianista de jazz clássico Don Shirley (que é negro). Shirley decide apresentar-se no circuito mais preconceituoso: o sul dos EUA. Quem o acompanha na viagem é Tony Vallelonga, de origem ítalo-americana, que trabalha para Shirley como motorista e segurança. O filme recebe este nome, pois faz referência a um guia turístico escrito para afro-americanos para ajudá-los a encontrar dormitórios e restaurantes seguros.

A segregação no país mais desenvolvido do mundo sempre existiu, mesmo após a emancipação dos escravos durante a Guerra Civil Americana, porém, se tornou institucionalizada nas décadas posteriores ao conflito. Na década de 60, a segregação afetava amplamente toda a população. Bairros dividiam-se em áreas de negros (geralmente pobres) e áreas de brancos (geralmente mais ricas). É esse o período histórico que o filme retrata.

Em terras brasileiras, bem no século XXI ainda não podemos nos orgulhar afirmando que os preconceitos foram superados. É assustadora a avalanche de preconceito e ódio que tem se instaurado via redes sociais, talvez o que as pessoas têm vergonha de dizer pessoalmente, o suposto anonimato das telas de computador fazem-nas expor o seu pior. Preconceito que ataca tudo e todos indistintamente. A imagem de um brasileiro pacato, amistoso e acolhedor definitivamente e infelizmente não pode ser generalizado.

Assusta-me profundamente ouvir da boca de pessoas supostamente defensoras da moral e dos bons costumes frases do tipo: “Preto devia voltar pra senzala”; “Mulher tem que servir o marido, sim”; “Quem tem dinheiro não vai preso”; “Minha filha não casa com preto vagabundo não!”; “Mulher tem que sustentar o casamento e fazer vista grossa pra traição de marido”; “Bandido bom é bandido morto”; “Índio não precisa de terra”; “Garota com roupa curta tá pedindo mesmo pra ser estuprada”; “Pobre se reproduz que nem coelho”; “Velho tem tempo, não tem necessidade de atendimento prioritário”; “Tá grávida, quem mandou dar?”; “O holocausto não existiu!”; “Tem que matar esses bandidos tudo”; “É pobre porque não trabalha!”; “Viado tem que apanhar pra virar homem”. E aqui seguiria eu citando frases e mais frases ditas, transformadas em atos de violência ou veladas nos pensamentos.

Os preconceituosos existem. São muitos. Estão na internet e “ao vivo”. São nossos colegas de trabalho. São os pastores e padres nas igrejas. Estão nas creches, escolas e faculdades. Lá na roça e nas megalópolis. Estão dentro das nossas casas e fazem parte dos grupos da família. Os preconceituosos somos nós mesmos, todos os dias, quando não conseguimos olhar para quem é diferente de nós com empatia e amor. Como diz Shirley no filme justificando não apenas sua turnê, mas afirmando categoricamente que não podemos deixar que o preconceito prevaleça: “É preciso coragem para mudar o coração das pessoas”.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.