Por que o hexa se tornou uma obsessão?

By  |  0 Comments

A cada quatro anos o mundo volta seu olhar para o país sede da Copa do Mundo e, ao longo, de trinta dias o imaginário coletivo se propõe a observar quem serão os personagens, as zebras, os craques, os momentos inesquecíveis, quem será, afinal, o grande vencedor do maior evento esportivo do planeta, e, por conseguinte, o responsável pelo emblemático momento em que o país campeão do mundo ergue a taça e põe todos demais aos seus pés.

O Brasil, maior campeão, repetiu o gesto em cinco oportunidades. Nas duas primeiras (1958 e 1962), os responsáveis por erguer o troféu foram zagueiros: Bellini e Mauro, respectivamente; no tri em 1970, o lateral-direito Carlos Alberto Torres, talvez, aquele que mais encarnou o espírito de “Capitão” do escrete canarinho; em 1994, o mais carrancudo e menos amado de todos, o volante Dunga que, na condição de técnico, fracassou em duas oportunidades; por fim, Cafu, outro lateral-direito fez as honras na Copa da Coréia e do Japão em 2002.

Em 2018, curiosamente (e longe de suspeitar que isso possa vir a ser um mal sinal), não há um capitão fixo na seleção brasileira. Desde as eliminatórias o selecionado brasileiro faz rodízio, sendo, portanto, quase impossível prever ou imaginar o gesto. Pode ser qualquer um, de Marcelo à Gabriel Jesus, Thiago Silva à Neymar Jr. Só será possível saber numa possível final no dia 15 de julho.

Em 2014, jogando em casa, mesmo que aos trancos e barrancos tudo ia bem para o Brasil até cruzar o caminho da Alemanha na semifinal. Os comandados de Felipão entraram em campo sem Neymar Jr, contundido e o “capitão” Thiago Silva, suspenso. Até poderia estender um pouco mais esse capítulo perturbador da nossa história recente mas, aparentemente, não há motivo para rememorar o que todos brasileiros em sã consciência sabem de cor e salteado.

Assim sendo, avancemos.

Por mais que se tente, a acachapante derrota da Copa passada jamais será esquecida ou vingada com o requinte de crueldade que se deseja. A humilhação sofrida naquele 8 de julho de 2014, se poderia servir para alguma coisa útil a médio e longo prazo, parece mesmo só ter aumentado o desejo pelo caneco e o hexa, aparentemente, ser a única maneira (para uma parcela considerável da população) de amenizar o baque promovido pelo tratoraço alemão. A propósito, a Copa da Rússia representa a quarta tentativa da seleção verde-amarelo de conquistar o sexto título mundial. Na Alemanha em 2006, excesso de oba-oba e gol de Thiery Henry nas quartas-de-final deram fim ao sonho. Na África do Sul, pisada maldosa de Felipe Melo e derrota para a Holanda de virada, também nas quartas-de-final adiaram o hexa, e, em casa, o empecilho atende pelo nome de “7 a 1”, porém, na semifinal.

Em 1994 quando da conquista do tetra o país estava numa fase transitória, uma espécie de vai ou racha para o bem ou para o mal. A exemplo de 2018 o país era governado por um presidente não eleito diretamente. Itamar Franco herdou o cargo depois do impeachment de Fernando Collor em 1992. Hoje, quem faz as vezes de chefe maior é Michel Temer, político de carteirinha e cria de um partido que nas últimas décadas se especializou em ser cabide eleitoral, além de ter conseguido a proeza de eternizar seu nome na história como o Presidente mais impopular da República Federativa do Brasil.

A diferença é que naquele ano após seis sucessivas trocas de moeda, enfim, o Brasil ganhava uma que, além de estável traduzia-se como capaz de catapultar esperança de norte a sul e de leste a oeste. A sucessão de tropeços e arranhões, em especial no cenário político e econômico, de meados da década de 1980 em diante, se por um lado gerava incerteza, tinha na Copa dos EUA um trampolim.

Era a oportunidade perfeita de desengasgar o grito entalado na garganta.

Soma-se a tudo isso o fato de à época o coração do povo brasileiro estar ferido, pois, menos de dois meses antes da estreia contra a Rússia em Palo Alto, perdemos um dos nossos grandes ídolos e dos poucos capazes de responder pela alcunha de herói nacional, a saber, Ayrton Senna da Silva, tricampeão mundial de Fórmula 1.

Observando-se por essa ótica, a extravagância da comemoração de Galvão Bueno e Pelé aos berros de “É tetra”, tão logo Roberto Baggio isolou o último pênalti batido pela Itália na decisão, fazem hoje todo sentido e mais que provocar risos — já que isoladamente a cena é ridícula de tão engraçada — pode e deve, com o perdão do trocadilho, ser considerada “real” e, voltando ao parágrafo anterior, sintetizam com maestria o grito que, por ventura, estava entalado na garganta do povo brasileiro.

A “entre aspas” supremacia verde e amarela dentro das quatro linhas moldou uma estranha sensação de obrigatoriedade de sucesso da Seleção em Copas do Mundo, ora, o Brasil é único país que disputou todas edições da competição e exceção, talvez, à desastrosa campanha de 1966 e da precoce eliminação para a Argentina nas oitavas-de-final em 1990, sempre estivemos em condições de disputar o título e, mais do que isso, entre as favoritas. Natural, portanto, que a ligação entre o brasileiro e a Copa seja tão próxima e a comoção em dias de jogos algo quase inexplicável, e até certo ponto, surreal, algo que nenhum outro esporte é capaz de gerar.

O brasileiro aprendeu, não apenas, com cada um dos cinco canecos levantados, mas, com a propaganda de televisão, com o samba cantado pelo Junior em 1982, com Arakem em 1986, com os álbuns de figurinhas, com os exageros de Galvão Bueno, com a batida do Olodum e com o expediente reduzido em dias de jogos da Seleção a tratar a Copa, não apenas como um mero evento esportivo, mas como um objeto de desejo, de fascinação, uma obsessão e — por que, não? — quase uma obrigação, pouco importando se guardamos na ponta da língua os onze escolhidos da vez, sempre há (houve) um Garrincha, um Pelé, um Zagallo, um Tostão, um Rivellino, um Jairzinho, um Romário, um Ronaldinho…um Neymar Jr.

É o que parece suficiente.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) — provas não faltam — transformou-se em um sinônimo escrachado de corrupção, se é que isso já não seja uma quase característica intrínseca de quem nasce nas terras descobertas por Cabral — há controvérsias. A Seleção joga muito mais fora do que dentro do país. Às vésperas da viagem à Rússia o torcedor tupiniquim nem bem viu os “ídolos” que atuam e fazem fortuna na França, na Espanha, na Inglaterra. Não teve despedida. A população estava dividida entre a adesão à greve dos caminhoneiros e as filas intermináveis nos postos de combustível.

Por isso, ninguém viu.

Ame ou odeie, o futebol e a Copa do Mundo tornaram-se motivo para celebração e também, para se esquecer, ainda que temporariamente a fatura do cartão de crédito e todas demais mazelas que nos acometem, enquanto nação. A vitória, a conquista, o título possuem esse poder apaziguador, quase anestésico, daí de sermos tão obcecados por algo que, embora, não vá mudar em nada as obrigações de cada um no dia seguinte ao fim da Copa, fazem de cada um de nós, parafraseando aquele cântico desgastado das arquibancadas, um pouco mais brasileiro com muito orgulho, com muito amor.

Acréscimos em São Petersburgo, alívio, ponta de pé de Philipe Coutinho. Brasil 1 a 0.

Somos insaciáveis.

Foco no banco de reservas, Ederson se aproxima do comandante Tite que corre, tromba. Cai.

Somos melhores que os outros.

Galvão Bueno pede o fim do jogo. “Apita seu juiz”. Opa, bola recuperada na intermediária, contra-ataque. “Apita não, apita não”. Diego Costa invade a área, cruza. Gol, gol, gol. 2 a 0. Neymar Jr.

Somos a Pátria de chuteiras.

Acaba o jogo, um certo camisa 10 desmorona no gramado. De joelhos, chora. Vem um, depois outro amparar o companheiro. Neymar está chorando. Será o pranto real ou fruto do convívio a Rainha de Artena?

Que se dane, o Brasil é o país do futebol e o hexa a única coisa que “realmente” importa.

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.