Pezinhos

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As mulheres, em geral, tem dificuldade para assimilar elogios. Não quer dizer que não gostem. Elas até gostam. Só tem resistência em aceitá-los. Os maiores culpados disso são os homens. Sim, os homens. Eu, você e todos nós, barbudos ou não, barrigudos ou não. Porque em todo processo evolutivo ao qual passou o ser humano nos últimos séculos, as mulheres evoluíram mais e aprenderam, na prática, que nem sempre os homens cospem elogios apenas por serem cavalheiros.

Elas aprenderam, e estão certíssimas, que na maioria das vezes os homens elogiam única e exclusivamente com segundas e, talvez, terceiras intenções. Como diz o carinha que tenta soar engraçado fazendo stand up comedy:

— Porque será que o homem abre a porta do carro no primeiro encontro?

A resposta até provoca um ou outro riso e não deixa de ter seu fundo de verdade.

— É pra te comer, ora!

E aí, os raros bem intencionados (vou cometer a ousadia de me incluir nesse hall) padecem num oceano de indiferença, risos amarelos, respostas evasivas e uma vontade descomunal de estrangular o metido a engraçadinho do stand up comedy. Tudo, porque as mulheres aprenderam que não vale a pena acreditar em todos os galanteios que lhe são oferecidos, ainda mais, de maneira tão gratuita.

Não basta ser sincero.

Não.

E nem insistir em beijar a mão de todas as mulheres.

Essa resistência toda, às vezes, se sobressai revestida de vergonha. Não me pergunte por quê. É provável que existam mulheres que apenas sintam vergonha e nada mais, mas também há aquelas que maquiam sua resistência aos elogios gratuitos, num suposto embaraço de leve ruborização das maçãs do rosto.

Talvez seja apenas medo.

Porque um dia elas vislumbram no cara dos galanteios e elogios e tudo o mais, o espectro de homem perfeito e ao se entregar de corpo inteiro, quebram a cara e perdem, uma vez mais, a crença nos homens.

Tolo que sou, não sei precisar em que grupo ela se enquadra. Bonita, talentosa, inteligente e possivelmente, um dos seres humanos mais lindos que já conheci. Desses que me fariam repetir e repetir todos os adjetivos possíveis e imagináveis em todos os idiomas deste mundo. Não por querer comprovar a teoria do carinha do stand up comedy (eu odeio stand up comedy), mas porque às vezes é inevitável e óbvio extravasar o que se sente. Sim, homens tem coração. Acreditem.

E ela, ah, ela é um encanto. Um catalizador de energias positivas, dos pés a cabeça ou vice-versa. Pois, e como se não bastasse ser isso e mais um pouco, ela ainda é dona de um dos pezinhos mais charmosos e delicados de todo o universo, desses, impossíveis de pegar chulé e que — só podem — exalar o perfume das flores mais bem cheirosas que existem, muito embora ela afirme categoricamente que sente vergonha deles.

— Seu pé é lindo — disse eu.

— Só na foto — respondeu ela.

E eu:

— Duvido.

E ela:

— Verdade.

E eu de novo:

— Você é suspeita para falar dos teus pés, eu não, sou um especialista.

Pausa para risos (da parte dela):

— E tem curso pra isso é?

E, eu, sem nada mais inteligente para responder:

— Tem.

— Ah, tá — concluiu ela, sem pingos nos is e absolutamente irresoluta.

Não sou especialista em pezinhos femininos. Nem ao menos tenho um diploma que ateste a realização de nenhum curso sobre isso. Sou apenas um . De toda delicadeza que só um pezinho feminino consegue ter. Como os dela. O ser humano mais lindo do mundo, que quando tira foto comigo, ainda levanta o pezinho esquerdo, mesmo que escondido num All Star branco, tal qual papel sulfite e ainda é capaz de revelar o sorriso mais…

Chega, estou falando demais…

Vou apenas repetir o que já disse uma vez: sou um cara de sorte.

Sim, um cara de sorte.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.