Pessoa de valor

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Na sociedade pós-moderna, nós humanos passamos a valorar e ser valorados não mais pela nossa essência, por aquilo que é inerente ao nosso ser: nossa personalidade, nossas qualidades; mas sim por nossa capacidade produtiva, por nossa beleza, por nossos bens, por tudo aquilo que podemos sintetizar no verbo “ter”. Sendo assim, “quando temos, existimos”. Segundo o escritor Mark Manson, o dilema que se impõe é que para “ter” as pessoas acabam baseando sua vida em “valores escrotos”.  No popular, “escroto” significa chulo, negativo, ruim. Sendo sinceros conosco mesmos é impossível não ver o quanto a escrotisse (neologismo meu) tem feito parte das nossas ações, das nossas falas, da nossa suposta moralidade. Nomeio aqui apenas três valores que considero escrotisse pura.

Valorar a vida tendo o prazer como mola propulsora sem dúvida nos leva à consciência de quanto vazia e rasa a vida pode ser. Prazer é ótimo, mas é um péssimo valor para basear a vida, porque uma hora o prazer acaba. Na linguagem bíblica, o prazer é um falso deus, pois engana e pede sacrifícios cada vez maiores dos seus seguidores. Prazeres superficiais levam à ansiedade, à instabilidade emocional e à depressão. A felicidade não nasce onde pessoas se escravizam por padrões de beleza, por sexo, por glutonaria, por status financeiro ou qualquer outro prazer fugaz. Uma pessoa de valor sabe que o prazer não é a causa da felicidade, é efeito dela.

Sucesso material nunca garantiu a felicidade de ninguém. Curiosamente há muitos relatos de gente “podre” de rica (curioso usarmos essa expressão de podridão para algo que deveria ser bom) que sucumbe à solidão. Então, porque seguimos inculcando uns aos outros que dinheiro trás felicidade? Têm-se provas empíricas de que isso não é verdade. Há que desconstruir tal valor escroto se quisermos alcançar genuína felicidade, ou seja, travar uma luta árdua com os meios de comunicação que apregoam justamente o contrário. Uma pessoa de valor aprende a ser realistas e assume a responsabilidade por tudo o que faz, planeja, organiza, de forma que ela é dona do dinheiro e não o contrário.

O último valor escroto que cultivamos é uma mistura de jactância com ego, que simplesmente chamo de síndrome do querer estar sempre certo. Pessoas que se arrogam como perfeitas e sabichonas, além de irredutíveis, são… São escrotas! Uma pessoa que quer sempre estar certa não consegue aprender com os próprios erros e também não consegue absorver sabedoria que outras pessoas possam oferecer. Uma pessoa madura e feliz sabe lidar com a rejeição, tem a capacidade de dizer e ouvir um “não”. Além disso, uma pessoa de valor reconhece a própria ignorância e se dispõe a descobrir suas falhas e erros para que possam ser melhorados.

O ser humano precisa aceitar-se a si mesmo e aceitar os outros, o que às vezes custa árduo trabalho. Cada ser humano precisa achar sua identidade, descobrir um sentido, elaborar um projeto de vida com bons valores. O que é um bom valor? É o que promove o bem pessoal, interpessoal e coletivo. Família, escola, Igreja podem ser instrumentos de ajuda nesse processo, desde que não estejam contaminados pela escrotisse da vida moderna. Tornar-se uma pessoa de valor passa longe do prazer vazio, da conta bancária e do querer ser um gênio. Toda vez que a vida envereda esses caminhos, o resultado é catastrófico.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.