Pela volta dos calções azuis

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Às 17h22 da sexta-feira, 04 de julho, um casalzinho de crianças brincava despretensiosamente do lado de fora da janela da minha sala de estar. Corriam e gritavam exaltando toda sua jovialidade e desapego típico da tenra idade.

– Láláláláááá, você não me pega – dizia uma delas, voltando a cair na gargalhada e a correr sem preocupação ou interesse algum com o que se passava no gramado do Castelão em Fortaleza, onde Brasil e Colômbia duelavam por uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo FIFA de 2014.

O Brasil vivia seu melhor momento na competição, ridiculamente trajada com sua combinação de uniforme mais bizarra: camisas amarelas e calções e meias brancas. De novo, pela terceira vez seguida na competição. México, Camarões e depois Chile. Muito diferente dos anos em que o uso do tradicional calção azul no vestuário clássico da seleção canarinho era não só uma obrigação, mas um consenso. Quase uma unanimidade.

Aliás, a seleção entrar em campo sem seu tradicional calção azul é quase uma tentativa em se mudar o lógico. Algo como tentar convencer o mais teimoso dos seres que dois mais dois são vinte e dois e não quatro ou um monarca a aceitar a anarquia. Pela mor de Deus, mas camisa amarela com calções brancos representa – a mim parece claro – o princípio da perda da nossa identidade futebolística, além de ser tremendamente horroroso.

Por isso e só por isso, em repúdio, calado e solitário, preferi o isolamento para assistir ao jogo das quartas de finais. Sem o prazer da espuma da cerveja estupidamente gelada a me umedecer o bigode e sem o flerte com as gurias digladiando-se nas entrelinhas pelo look mais fashion da Copa ou mesmo sem o abraço do desconhecido sentado na mesa ao lado na hora do gol ou da defesa espetacular do nosso goleiro.

No auge do meu isolamento optei pelo eu, meu sofá, Tim Tebow, By-thor e minha TV devidamente sintonizada na ESPN. Questão de escolha. Ninguém me obrigou por optar ou banalizar esse uniforme insosso da seleção.

Além do mais, pouco me importava se em campo, Hulk, depois Oscar obrigavam o arqueiro rival, Ospina, a operar defesas de elevado grau de dificuldade. Aquela altura o selecionado canarinho já vencia a Colômbia por 1 a 0, tento anotado pelo zagueiro Tiago Silva, aos 6’ e dava toda pinta que enfim venceria com alguma folga.

Três minutos antes se ouvia com clareza a tentativa da torcida em instaurar um cântico diferente nas arquibancadas. Pobre de Maradona, o ícone argentino, acuado ante o coro incessante de “mil gols, mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé”. O mesmo se ouviu aos 11’ da etapa final para deleite e uma leve sensação de alívio. Ao menos, se não havia o tradicional calção azul para combinar com o amarelo vibrante do manto penta campeão, eram raras as vezes em que o modorrento “sou brasileiro com muito orgulho” ecoava pelo estádio.

Ufa!

Bom, nem tanto.

As crianças não viram o bombardeio que se seguiu na área comandada pelo veterano em combate Yepes até o final do primeiro tempo. O Brasil jogava seu melhor futebol desde o atropelo diante da Espanha e eu acompanhava o jogo com um delay de uns cinco segundos. Não bastasse o isolamento, o repúdio ao uso irritante destes calções brancos, as crianças gritando quase no meu ouvido, ainda ouvia os gritos do vizinho antes de ver o desfecho de cada lance. Nem me dei ao luxo de comemorar o golaço de David Luiz. O berreiro vindo da casa em frente me pôs a par do feito antes de ver a bola estufando as redes colombianas. Era um jogo qualquer. Uma seleção sem alma. Sem seu tradicional calção azul.

Desisto.

Não quero torcer pela seleção de calção branco. Quero a volta da tradição canarinho: manto amarelo e calções azuis. Por favor e sem delay e crianças brincando de pega-pega na soleira da minha janela.

***

Ironias a parte, depois que implorei pela volta do uso dos calções azuis, o selecionado canarinho – devidamente trajado com seu mais tradicional e impactante uniforme – foi sodomizado pela cirúrgica e avassaladora Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo. O baque é e continuará sendo tamanho que talvez devêssemos abolir até o uso de calções por um tempo.

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.